Valor Econômico
Bancarização e abundância de crédito fácil e
caro fomentam o aumento da inadimplência
Desemprego em mínimas históricas, inflação na
casa de 5% ao ano, renda em alta e PIB em crescimento contínuo, embora baixo,
deveriam proporcionar calmaria para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se
aventurar em sua reeleição. Pesquisas como a Genial/Quaest da semana que passou
deixam claro que não é isso o que acontece e há um consenso de que uma das
razões é a corda do endividamento apertando o pescoço das famílias.
Um estudo da LCA Consultores, com base em
dados da Serasa e do Banco Central, mostram que o garrote começou a apertar
depois da pandemia de covid-19 e subiu degraus de dois em dois no governo Lula.
O total de dívidas negativadas passou de R$ 221,2 bilhões para R$ 321,6 bilhões
entre dezembro de 2022 e dezembro de 2025.
Entre 2016 e 2020 o número de consumidores
inadimplentes ficou oscilando no patamar de 60 milhões de pessoas.
De 2021 para cá saltou para 81,2 milhões.
Um dado sobre o perfil de quem são esses
inadimplentes permite perceber o impacto político. A faixa entre 41 e 60 anos
concentra 35% deles e 34% possuem entre 26 e 40 anos. Essas são as faixas da
grande maioria das pessoas que estão em produção laboral.
A inadimplência na população idosa, acima de
60 anos, soma apenas 3%. Por duas razões: ou estão ancorados no crédito
consignado para aposentados, onde a inadimplência é menor, ou têm a renda tão
baixa e um acesso a tecnologias tão precário que estão excluídos do crédito
fácil e caro que as classes médias usam para tentar sustentar seu padrão de
consumo.
Não por acaso, é entre os idosos que a
desaprovação ao governo Lula é menor, de acordo com o levantamento da
Genial/Quaest divulgado na quarta-feira (15). Na população com mais de 60 anos,
Lula é desaprovado por 44%. Entre os que têm entre 35 e 59 anos este percentual
sobe para 54%.
O tipo de inadimplência que afeta os
brasileiros neste momento está diretamente relacionado ao aumento da
bancarização. De acordo com dados do Banco Central, havia em junho de 2018,
Bolsonaro em campanha, 77,2 milhões de clientes pessoas físicas, ou o
equivalente a 47% da população adulta. Em dezembro de 2023, já com Lula
presidente, havia 152 milhões de clientes, ou o correspondente a 88% dos
adultos. Segundo a autoridade monetária, cerca de 75% dessa base de
correntistas tinham há dois anos e meio operações de crédito.
O resultado, segundo o relatório da LCA, é
que o perfil da inadimplência se transforma. A fatia da insolvência financeira
passou de 37% para 47% entre 2018 e 2025. A parcela não financeira (contas de
serviço não pagas, por exemplo), reduziu de 63% para 53%.
O grande nó, em um círculo vicioso, é o do
cartão de crédito. A inadimplência sobre o total de carteira é absurdamente
alta, sobretudo na modalidade do rotativo, em parte porque os juros estão em um
patamar acima de 400% anual há mais de dez anos.
Essa bolha que sustenta o consumo no Brasil
remove de quem está encalacrado com o pagamento de juros qualquer sensação de
bem-estar com a economia. Supera a inflação como régua para medir o humor do
eleitorado.
A pesquisa Genial/Quaest demonstra isso. A
sensação de piora da economia é mais elevada na faixa que ganha entre 2 e 5
salários mínimos (53%) e acima de 5 salários mínimos (55%) e menor entre os que
ganham menos de 2 salários mínimos (40%). Todas essas faixas, contudo, percebem
de forma similar que o preço dos alimentos subiu no último mês: de 56% para 73%
na faixa mais baixa, de 59% para 73% na intermediária e de 60% para 72% na mais
alta.
É uma crise de percepção com fundamento
inferido pela análise dos dados, mas não admitida pelo eleitorado. Como
comentou Eric Brasil, diretor da LCA, as famílias não se consideram endividadas
enquanto estão adimplentes. De acordo com a Genial/Quaest, 43% dos pesquisados
disseram ter “poucas dívidas”, 29% afirmaram ter muitas e 28% disseram não
tê-las. Mas pagamento de juros já representa 10,4% da renda familiar e a
inadimplência da pessoa física em relação ao total do crédito do Sistema
Financeiro Nacional saltou de 3,5% para 5% entre dezembro de 2019 e dezembro de
2025.
Diante desse problema o governo irá agir e a
ação governamental irá provocar um embate no Congresso. O estudo da LCA citado
nessa coluna teve um propósito político. Ele foi apresentado em Brasília
durante um evento promovido por defensores da indústria das bets no Brasil.
Busca convencer a audiência de que o vício em apostas digitais teria pouco peso
no agravamento do problema de endividamento. Trata-se de uma vacina para o que
está para vir, porque não é essa a visão do governo.
O novo ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, disse a jornalistas na quinta-feira (16) o seguinte: “Vi dados que a pessoa, por exemplo, negocia sua dívida e vai lá para gastar [em bets], é um negócio impressionante”. Ele afirmou que o governo prepara “um conjunto de medidas que será anunciado logo, logo” para conter o endividamento, e as bets serão um alvo.

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