O Estado de S. Paulo
Autoridades que validam penduricalhos, ocultam negociatas e depois saem por aí fazendo pose de sacerdotes da transparência estão nos enganando
A imprensa cumpre seu papel quando dá
transparência a paredes que os poderosos gostariam de manter opacas. Manchete
de anteontem aqui no Estadão: Fazenda de SP pagou, em 1 mês, R$ 111 milhões em
penduricalhos (28/4, A8). A reportagem de Felipe de Paula e Fausto Macedo abriu
a planilha para o público, ou seja, tornou transparentes os tapumes que a
escondiam. Um auditor sozinho recebeu R$ 513 mil. Líquidos. Num único mês. E
este é apenas um dos muitos absurdos que se tornaram visíveis.
Também anteontem, um dos editoriais do jornal, Inação ante os supersalários (A3), deu visibilidade a outro fator deprimente: “Congresso mantém parado desde 2023 projeto que limita abusos no serviço público, enquanto avança com rapidez em propostas que ampliam benefícios e revela resistência a enfrentar privilégios”. As informações, detalhadas e precisas, foram apuradas pela reportagem deste matutino. De novo, ponto para o jornalismo e ponto para a transparência.
Fora isso, é bom tomar cuidado com a palavra.
Há malversações de sentido em torno dela. Basta ver que os mesmos agentes que
viabilizam os penduricalhos também se declaram campeões da transparência. Não
podem ver um microfone na frente que já começam a escandir o substantivo
feminino mais amado da temporada. Sim, é uma contradição. A transparência
aberta pelo bom jornalismo os constrange, mas eles não passam recibo. Quando
pegos no contrapé, emudecem no casulo de suas sacrossantas privacidades.
Nenhuma vírgula sobre dinheiros vultosos que acumulam e regalias de que
desfrutam. Logo em seguida, recompostos, desfiam sermões sem fim à causa
sonora, pomposa e melíflua da transparência. Nessas horas, parece que alguém
estatizou o cinismo. Repito: é bom tomar cuidado.
Na raiz dessa contradição mora um
embaralhamento semântico. Há duas acepções de transparência se enroscando e se
confundindo. De um lado, existe o significado republicano da palavra. Aí, a
expressão “dar transparência” significa “dar publicidade” e “dar publicidade”
quer dizer abrir os gabinetes do Estado para que a sociedade possa ver melhor o
que se passa lá dentro. As divisórias, os biombos e os muros da máquina pública
não podem ocultar o destino dos recursos públicos. Ao contrário, devem ser
transparentes. Foi a isso que Rui Barbosa se referiu quando escreveu, lá se vai
um século, que “aqueles que se consagram à vida pública, até à sua vida
particular deram paredes de vidro”.
O sentido republicano da palavra é o que vale
tanto para a prática do jornalismo quanto para o conceito de democracia. Quanto
mais forte é o regime democrático, mais os palácios dos Poderes da República
têm “paredes de vidro” – e mais a intimidade dos cidadãos é respeitada. Quando
o totalitarismo leva a melhor, o Estado fica opaco e a intimidade dos cidadãos,
exposta.
(Na década de 1980, Mikhail Gorbachev criou a
Glasnost para varrer o totalitarismo da União Soviética e desativar o Estado
opaco do stalinismo, que violava a privacidade de todo mundo. Deu errado, você
sabe. Gorbachev caiu e a carcaça stalinista ficou. Putin que o diga. Em tempo:
Glasnost, em russo, quer dizer transparência.)
Passo agora à segunda acepção da palavra. Eu
a chamo de acepção demagógica.
Agora, a transparência deixa de ser um meio
racional para garantir que os assuntos públicos sejam expostos ao público na
justa medida e se converte em virtude absoluta. Pessoas, empresas, igrejas,
times de futebol, partidos políticos ou tribunais só vão para o céu se pregarem
a transparência com fervor. O que vale é a propaganda. O que vale é o
melodrama. Só é bom quem não esconde nada, nem de si, nem de ninguém.
Por óbvio, estamos diante de uma empulhação.
Ninguém é transparente por inteiro. Não há como ser transparente por inteiro.
Nelson Rodrigues tinha razão: “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos
outros, ninguém cumprimentaria ninguém”. O convívio social exige alguma
opacidade exterior, assim como a saúde psíquica exige um pouco de opacidade interior.
A transparência demagógica ignora o óbvio.
Vive de montar circos e de encenar atrações vazias e pirotécnicas. Ser
supostamente “transparente” vale mais do que ser íntegro, respeitoso ou
decente. Trump e Bolsonaro se beneficiam dessa mentalidade: pronunciam
atrocidades e são aplaudidos porque são “sinceros” e “autênticos”. A língua
solta, chula e estúpida vira um trunfo moral.
A propósito, acaba de sair um livro que é uma
aula preciosa sobre a matéria: Contra a transparência, do jornalista Hamilton
dos Santos (Editora Iluminuras). Erudito, elegante e didático, o autor ensina:
“Fazemo-nos sujeitos no mundo escondendo o que há por trás da máscara – segredo
para os outros, mistério para nós mesmos. Nós existimos porque nosso rosto é
opaco.” Pobre de quem não sabe disso.
As autoridades que validam penduricalhos (com
rebotalhos), ocultam negociatas (com mamatas) e depois saem por aí fazendo pose
de sacerdotes da transparência do Estado Democrático de Direito – a gente
conhece o estilo – estão nos enganando. A transparência deles suja a
democracia.

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