Por Sofia Aguiar, Andrea Jubé, Tiago Angelo e Gabriela Guido / Valor Econômico
Após rejeição de Messias, aliados do
presidente da República ainda avaliavam impactos políticos e chances de
encaminhamento de novo nome
Com o rompimento entre o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP),
considerado praticamente consumado, autoridades do governo ainda avaliavam na
noite de quarta-feira (29) o impacto político da rejeição da indicação de Jorge
Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). Além de fragilizar o Palácio do
Planalto, disseram algumas fontes nos bastidores, o episódio demonstra que a
própria Corte passa a ficar ainda mais exposta.
O fato foi considerado um ponto de inflexão. Messias obteve apenas 34 votos a favor, ante os 41 necessários para a sua nomeação, o que indicou ao Executivo que a agenda legislativa do governo pode ficar inviabilizada. Um interlocutor de Lula classificou o placar como “humilhante”. Também havia dúvidas se e quando Lula deveria encaminhar novo nome ao Senado, além do perfil do escolhido.
O presidente do Supremo, Edson Fachin, disse
em nota que reafirmava o “respeito à prerrogativa constitucional do Senado”,
mas lembrou que o Tribunal está desde outubro com apenas dez ministros. “A
Corte aguarda, com a serenidade e o senso de responsabilidade institucional, as
providências constitucionais cabíveis para o oportuno preenchimento da vaga em
aberto.”
Nos bastidores, diante da movimentação de Alcolumbre,
auxiliares de Lula passaram a dizer, ao longo do dia, que haviam começado a
captar sinais de que o caminho do advogado-geral da União rumo ao STF estava
mais difícil do que o previsto inicialmente. Aliados de Messias diziam que ele
deveria ter de 46 a 50 votos favoráveis. Mas o resultado surpreendeu até mesmo
lideranças do Senado mais experientes.
Segundo o Valor apurou, Alcolumbre
teria ligado a senadores do Centrão orientando o voto contra Messias. Como
argumento, teria prometido não pautar uma nova indicação à Suprema Corte até o
fim das eleições e falava que a rejeição seria um fortalecimento do Senado.
Ministros do STF também se disseram
surpresos. Alguns afirmam que esperavam uma aprovação apertada, mas não uma
derrota por 42 votos a 34. Mais cedo, integrantes da Corte estimavam que
Messias teria cerca de 45 votos favoráveis.
Eles deram causas diferentes para a derrota.
Há quem tenha visto uma articulação de última hora feita por Alcolumbre. Outros
apontaram erros do próprio STF. Procurado pelo Valor, Alcolumbre não se
manifestou.
Um integrante do STF disse que pesou contra
Messias o ofício enviado pelo ministro Gilmar Mendes à Procuradoria-Geral da
República (PGR) apontando possível abuso de autoridade por parte do senador
Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)
do crime organizado. No relatório final, a CPI pediu o indiciamento de Gilmar,
Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e do procurador-geral da República, Paulo
Gonet.
"O Brasil perde a oportunidade de ter um
grande ministro do Supremo”
— André Mendonça
Um segundo ministro tem uma interpretação
semelhante. Ele afirmou que o pedido de Gilmar empoderou senadores críticos ao
STF que poderiam ser convencidos a aprovar Messias. Também considerou que Lula
não se empenhou na aprovação. Para este integrante do STF, Messias foi “deixado
na chuva” pelo petista. Procurado, Gilmar Mendes não comentou até o fechamento
desta edição.
Ministros consultados ainda não sabem dizer
se a rejeição fortalece o Senado contra o STF. “Mas certamente não enfraquece”,
disse um magistrado. Há na Corte a percepção de que parte da campanha deste ano
será baseada em críticas ao Supremo. Também há um temor de maioria
pró-impeachment de ministros no ano que vem.
Pelas redes sociais, o ministro André
Mendonça, do STF, lamentou a decisão do Senado. Ele, que foi indicado pelo
ex-presidente Jair Bolsonaro, atuou publicamente a favor de Messias, a quem
chamou de “amigo”. A proximidade dos dois se dá pelo fato de ambos serem
evangélicos. “Respeito a decisão do Senado, mas não posso deixar de externar
minha opinião. O Brasil perde a oportunidade de ter um grande Ministro do
Supremo. Messias é um homem de caráter, íntegro e que preenche os requisitos
constitucionais para ser Ministro do STF”, disse.
O foco do Planalto, agora, é entender as
brechas na articulação política e vislumbrar como deve ficar o futuro da
relação com Alcolumbre. Após a derrota, Lula telefonou para Messias. Também se
reuniu no Palácio da Alvorada com ele, o líder do governo no Senado, Jaques
Wagner (PT-BA), e o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães. Antes
de deixar o Congresso, Guimarães disse à imprensa, ao lado de Messias, que o
governo aceitava com “serenidade” a decisão da Casa Legislativa.
Em seu perfil no X, o ministro da
Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, adotou um tom menos
conciliador. “A aliança entre bolsonarismo e chantagem política venceu na
rejeição ao nome de Jorge Messias ao STF. O Senado sai menor desse episódio
lamentável”, escreveu.
Já o presidente do PT, Edinho Silva, afirmou
que a rejeição gera uma “importante instabilidade institucional”. Segundo ele,
a rejeição demonstra que “mais uma atribuição do Poder Executivo é esvaziada
pelo Legislativo”.

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