sábado, 4 de abril de 2026

Em nome de Deus, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O secretário fez apelo público ao povo americano por um tipo específico de oração em tempos de guerra

A confusão entre guerra e religião é decisão perigosa. O mundo já experimentou essa mistura na época das Cruzadas, no século 14 e não deu certo. Mas o secretário de Defesa, ou de Guerra, dos Estados Unidos, Pete Hegseth, é religioso que coloca no mesmo nível conceitos de sua Igreja com a ação dos militares norte-americanos por todo o mundo. Ele se julga uma espécie templário redivivo, segundo suas próprias palavras. O secretário, voz ativa junta ao presidente Donald Trump, diz que a guerra demonstra a "força avassaladora" e a "capacidade incomparável" das Forças Armadas dos EUA de fazer chover morte e destruição sobre seus inimigos iranianos "apocalípticos".

O secretário fez apelo público ao povo americano por um tipo específico de oração em tempos de guerra. Ele pediu que orassem pela vitória na batalha e pela segurança de suas tropas "todos os dias, de joelhos dobrados, com suas famílias, em suas escolas, em suas igrejas, em nome de Jesus Cristo". Ele enquadrou as operações militares dos EUA no Oriente Médio, na África e na América Latina como algo maior do que a política externa. Frequentemente, o secretário afirma que os conflitos possuem base moral cristã e são divinamente orientadas.

Donald Trump já disse que "fui salvo por Deus para tornar a América grande novamente". Hegseth fala frequentemente do papel importante que sua fé desempenha em sua vida e na dos EUA. Ele orou ao "rei Jesus" na Casa Branca em jantar de fevereiro para governadores. No mês passado, falando a um grupo de emissoras majoritariamente evangélicas, descreveu os EUA como uma nação fundada em princípios cristãos. "Há uma linha direta dos Evangelhos cristãos do Antigo e Novo Testamentos até o desenvolvimento da civilização ocidental e dos EUA", disse.

O secretário de Defesa dos Estados Unidos não hesita em mostrar a tatuagem no seu bíceps direito, a frase latina Deus vult, ou Deus quer. Essa frase, no corpo de secretário, está abaixo da imagem da Cruz de Cristo, aquela mesma que estava gravada nas velas das caravelas portuguesas quando do descobrimento do Brasil e do caminho das Índias. Ele define a atual guerra como efeito das Cruzadas, as guerras medievais implacáveis, em que guerreiros cristãos lutavam para manter abertos os caminhos para Jerusalém, que, na época, estava em poder dos muçulmanos.

Hegseth enxerga essas batalhas como o momento mais importante na história do mundo livre. Em seu livro American Crusade (Cruzada americana), publicado em 2020, ele descreve as Cruzadas como "sangrentas" e "cheias de tragédias indescritíveis", mas argumenta que se justificam porque salvaram a Europa cristã do ataque do islã. Ele afirma que "se não fossem as Cruzadas, não teria havido Reforma Protestante ou Renascimento. Não haveria Europa e não haveria América". É uma visão preocupante da realidade norte-americana e das vítimas de seus bombardeios em todo mundo.

A Ordem dos Templários, ou dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, foi poderosa instituição religiosa criada por volta de 1119, após a Primeira Cruzada, com objetivo de proteger peregrinos cristãos que viajavam à Terra Santa. Recebeu esse nome porque sua sede ficava próxima ao local do antigo Templo de Salomão. Os templários se tornaram extremamente influentes, porque recebiam doações de terras e dinheiro de reis e nobres. Eles criaram o primeiro sistema bancário do Ocidente. Através dele, os peregrinos podiam depositar dinheiro na Europa e sacar no Oriente.

A Ordem de Cristo foi uma ordem religiosa-militar portuguesa criada no início do século 14, diretamente ligada à história dos templários e às grandes navegações. Ela surgiu em 1319, em Portugal, durante o reinado de D. Dinis, logo após a extinção da Ordem dos Templários pelo papa Clemente V, em 1312. O Infante D. Henrique (Henrique, o Navegador) foi seu grão-mestre. Essa ordem financiou expedições marítimas. A famosa cruz vermelha nas velas das caravelas era seu símbolo. É a mesma que está tatuada no corpo do Secretário de Estado dos Estados Unidos.

Os templários se tornaram muito ricos. O rei de França Filipe IV, que estava endividado com a Ordem, ao invés de pagar a dívida, mandou prender a turma. Todos foram acusados de heresia. Depois, torturados e executados. O último grão-mestre, Jacques de Molay, foi queimado vivo em 1319. Os templários eram católicos radicais. Nenhuma semelhança com Martinho Lutero e seguidores responsáveis pela reforma protestante, cujos efeitos forjaram o sistema institucional dos Estados Unidos.

Os argumentos do secretário de Estado fazem o mundo retroceder ao século 14 para justificar as barbaridades cometidas no Oriente Médio. Para os templários, não era pecado matar o mal, o malecídeo, que significava liquidar muçulmanos. Das duas, uma: ou o secretário padece de obtusidade córnea ou de má-fé cínica.

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