Correio Braziliense
O secretário fez apelo público ao povo
americano por um tipo específico de oração em tempos de guerra
A confusão entre guerra e religião é decisão perigosa. O mundo já experimentou essa mistura na época das Cruzadas, no século 14 e não deu certo. Mas o secretário de Defesa, ou de Guerra, dos Estados Unidos, Pete Hegseth, é religioso que coloca no mesmo nível conceitos de sua Igreja com a ação dos militares norte-americanos por todo o mundo. Ele se julga uma espécie templário redivivo, segundo suas próprias palavras. O secretário, voz ativa junta ao presidente Donald Trump, diz que a guerra demonstra a "força avassaladora" e a "capacidade incomparável" das Forças Armadas dos EUA de fazer chover morte e destruição sobre seus inimigos iranianos "apocalípticos".
O secretário fez apelo público ao povo
americano por um tipo específico de oração em tempos de guerra. Ele pediu
que orassem pela vitória na batalha e pela segurança de suas tropas
"todos os dias, de joelhos dobrados, com suas famílias, em suas escolas,
em suas igrejas, em nome de Jesus Cristo". Ele enquadrou as operações
militares dos EUA no Oriente Médio, na África e na América Latina como
algo maior do que a política externa. Frequentemente, o secretário afirma
que os conflitos possuem base moral cristã e são divinamente orientadas.
Donald Trump já disse que "fui salvo por
Deus para tornar a América grande novamente". Hegseth fala
frequentemente do papel importante que sua fé desempenha em sua vida e na
dos EUA. Ele orou ao "rei Jesus" na Casa Branca em jantar
de fevereiro para governadores. No mês passado, falando a um grupo de
emissoras majoritariamente evangélicas, descreveu os EUA como uma nação
fundada em princípios cristãos. "Há uma linha direta dos Evangelhos
cristãos do Antigo e Novo Testamentos até o desenvolvimento da civilização
ocidental e dos EUA", disse.
O secretário de Defesa dos Estados Unidos não
hesita em mostrar a tatuagem no seu bíceps direito, a frase latina Deus
vult, ou Deus quer. Essa frase, no corpo de secretário, está abaixo da imagem
da Cruz de Cristo, aquela mesma que estava gravada nas velas das caravelas
portuguesas quando do descobrimento do Brasil e do caminho das Índias. Ele
define a atual guerra como efeito das Cruzadas, as guerras medievais
implacáveis, em que guerreiros cristãos lutavam para manter abertos os
caminhos para Jerusalém, que, na época, estava em poder dos muçulmanos.
Hegseth enxerga essas batalhas como o momento
mais importante na história do mundo livre. Em seu livro American Crusade
(Cruzada americana), publicado em 2020, ele descreve as Cruzadas como
"sangrentas" e "cheias de tragédias indescritíveis",
mas argumenta que se justificam porque salvaram a Europa cristã do ataque do
islã. Ele afirma que "se não fossem as Cruzadas, não teria havido
Reforma Protestante ou Renascimento. Não haveria Europa e não haveria
América". É uma visão preocupante da realidade norte-americana e das
vítimas de seus bombardeios em todo mundo.
A Ordem dos Templários, ou dos Pobres
Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, foi poderosa instituição
religiosa criada por volta de 1119, após a Primeira Cruzada, com objetivo
de proteger peregrinos cristãos que viajavam à Terra Santa. Recebeu
esse nome porque sua sede ficava próxima ao local do antigo Templo de
Salomão. Os templários se tornaram extremamente influentes, porque recebiam
doações de terras e dinheiro de reis e nobres. Eles criaram o primeiro
sistema bancário do Ocidente. Através dele, os peregrinos podiam depositar
dinheiro na Europa e sacar no Oriente.
A Ordem de Cristo foi uma ordem
religiosa-militar portuguesa criada no início do século 14, diretamente
ligada à história dos templários e às grandes navegações. Ela surgiu em
1319, em Portugal, durante o reinado de D. Dinis, logo após a extinção da
Ordem dos Templários pelo papa Clemente V, em 1312. O Infante D.
Henrique (Henrique, o Navegador) foi seu grão-mestre. Essa ordem financiou
expedições marítimas. A famosa cruz vermelha nas velas das caravelas era seu
símbolo. É a mesma que está tatuada no corpo do Secretário de Estado dos
Estados Unidos.
Os templários se tornaram muito ricos. O rei
de França Filipe IV, que estava endividado com a Ordem, ao invés de pagar
a dívida, mandou prender a turma. Todos foram acusados de heresia. Depois,
torturados e executados. O último grão-mestre, Jacques de Molay, foi
queimado vivo em 1319. Os templários eram católicos radicais. Nenhuma
semelhança com Martinho Lutero e seguidores responsáveis pela reforma
protestante, cujos efeitos forjaram o sistema institucional dos Estados Unidos.
Os argumentos do secretário de Estado fazem o mundo retroceder ao século 14 para justificar as barbaridades cometidas no Oriente Médio. Para os templários, não era pecado matar o mal, o malecídeo, que significava liquidar muçulmanos. Das duas, uma: ou o secretário padece de obtusidade córnea ou de má-fé cínica.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.