O Povo (CE)
As mulheres estão numa situação de
desigualdade competitiva, enfrentando desafios institucionais, simbólicos e
materiais maiores do que os homens enfrentam. E o pior: precisam lidar com a
ideia amplamente difundida de que essa desigualdade é fruto da natureza, e não
de uma certa cultura
Sabemos que o machismo é um problema estrutural, mas será que há clareza sobre o que isso significa? Gostaria de propor o debate porque estamos às vésperas da eleição e, se há um cenário em que as desigualdades se manifestam, é na cena política.
Para entender o caráter estrutural de uma
desigualdade, precisamos saber que uma sociedade é, antes de tudo, uma ordem.
Há padrões duráveis que se manifestam na nossa cultura, no modo de pensar e
organizar o mundo. Eles orientam as relações que organizam todos os espaços de
vida, como a família, a escola, a religião, o estado, as instituições como um
todo. Assim se cria o que chamamos "estrutura" e se permite o
funcionamento da vida comum em uma sociedade organizada.
Quando afirmamos que uma sociedade
patriarcal é estruturalmente machista, estamos dizendo que o princípio de
superioridade masculina se manifesta em todas as dimensões da vida, de forma
muitas vezes sutil e implícita, criando uma desigualdade que é abrangente,
naturalizada e alimentada pela própria sociedade. Assim, família, estado,
igreja, arte acabam por reforçar uma certa ordem estável, o que torna muito
difícil para as mulheres superarem, individualmente, o ciclo de exclusões a que
estão expostas: há uma rede de interdições que se retroalimentam, justamente
por serem estruturais.
Esse machismo estrutural se
manifesta no plano das instituições, que são moldadas para favorecer certos
grupos; no plano simbólico, alimentando discursos, estereótipos e uma
linguagem; e no plano material, por meio de uma distribuição de riqueza muito
desigual. Por isso as mulheres estão numa situação de desigualdade competitiva,
enfrentando desafios institucionais, simbólicos e materiais maiores do que os
homens enfrentam. E o pior: precisam lidar com a ideia amplamente difundida de
que essa desigualdade é fruto da natureza, e não de uma certa cultura.
As eleições são um exemplo do quão difícil é
para uma mulher conseguir chegar aos espaços de poder que
efetivamente tornam possível as mudanças dos padrões da sociedade. É um evento
muito oportuno para vislumbrarmos as desigualdades de competição, as
assimetrias que dificultam a vida das mulheres, e para reafirmarmos o potencial
de transformação que vem da ação política, porque temos a capacidade humana
para mudar e corrigir padrões indesejáveis.
Indivíduos, sozinhos, por melhores que sejam,
não são capazes de mudar toda uma forma de organização social. Essa mudança,
para acontecer, precisa vir de um esforço coletivo, a partir da construção
de um consenso sobre o princípio da igualdade como marca de justiça. Só assim
deixaremos de sobrecarregar pessoas como se elas pudessem, quixotescamente, nos
salvar de nossos vícios comuns.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.