Correio Braziliense
Há uma restrição à política fiscal que o
próximo governo herdará. Seria bom que os meios para estabilizar a relação
dívida/PIB passassem por uma ampla discussão durante a eleição
Este artigo é o primeiro de dois que ocuparão este nobre espaço a fim de trazer elementos sobre um tema crucial, particularmente no avizinhamento da eleição. Trata-se da dívida pública. Recentemente, foi divulgado o último dado da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), que alcançou 79,2% do PIB. Esse mesmo indicador estava em 71,4% do PIB em janeiro de 2023. Em pouco mais de três anos, a DBGG avançou 8 pontos percentuais do PIB e com viés de alta para o horizonte futuro. O Brasil está às vésperas de uma nova eleição, não saberemos quem será presidente daqui 10 meses, mas sabemos que o próximo governo terá fatalmente que lidar com ajustes.
Para entender melhor de que forma a dívida
atual está condicionando a política fiscal do próximo governo, é preciso
retornar à contribuição de Lucas e Stockey (1983). Os autores constroem um
modelo de inconsistência dinâmica em que a estrutura tributária, por
influenciar a taxa de juros de títulos de dívidas de diversas maturidades,
condiciona a dívida pública. No modelo sem moeda (economia de escambo) e
considerando que a dívida pública tenha maturidade ampla o suficiente para
atravessar de um governo para o próximo, as políticas fiscal-monetária de um
governo funcionam como restrições sobre o próximo governo.
A ideia básica é que, se não há moeda, a
estrutura tributária é definida do lado real da economia. As preferências de
famílias representativas quanto a consumir e trabalhar atuam como limitações à
capacidade do governo de coletar tributos. Em linhas gerais, ao decidir
tributar, o governo produz distorções na economia que refletem em alterações
nas preferências da família representativa, produzindo um resultado social
subótimo. Como não há moeda, isso condiciona também a capacidade de o governo
se endividar, já que haverá limitações a ampliar a tributação para o pagamento
dessa dívida. Esse é um resultado dinamicamente consistente, uma vez que a
dívida pública emitida (ou paga) por um governo condicionará a necessidade de
tributar (ou não tributar) do próximo governo.
Ao relaxar a hipótese de economia de escambo
e inserir moeda no modelo, o resultado sofre uma flagrante modificação. Se há a
possibilidade de emitir moeda, a restrição à tributação é substituída pelo
incentivo à emissão de moeda; o pagamento da dívida pública se dá por via do
imposto inflacionário. Logo, se o primeiro governo se endivida, ele cria o
incentivo para que o próximo pague isso emitindo moeda e criando inflação. Essa
solução é dinamicamente inconsistente, já que cria o incentivo para que um
governo crie moeda (inflação) de forma discricionária para lidar com a dívida
herdada do governo anterior.
O modelo foi pensado para uma economia sob
moeda exógena e para a qual a clássica relação entre moeda e nível de preços da
Teoria Quantitativa da Moeda se verificasse. Não é o caso das modernas
economias que adotam Regimes de Metas de Inflação e que têm bancos centrais
independentes. Em outras palavras, nem o nexo causal entre moeda e inflação são
um tema relevante das economias contemporâneas, tampouco governos pagam dívida
pública emitindo moeda (na prática, eles pagam dívida antiga com emissão de
dívida nova). Mas há alguma aplicação do modelo de Lucas e Stockey ao caso
contemporâneo.
A alegoria da economia de escambo (trocas)
ilustra que existem restrições do lado real da economia que limitam a carga
tributária e a dívida pública. Ainda que a inserção de moeda, e
consequentemente a inflação, flexibilize essas restrições, o financiamento
inflacionário do governo também apresenta custos sociais. Ademais, há na
sociedade brasileira uma aversão à inflação que funciona como um limitador da
economia política ao supracitado incentivo de pagar dívida pública por via de
emissão monetária.
Digressões teóricas à parte e voltando para o
caso brasileiro, a dívida pública avançou 8 pontos do PIB em três anos. O
próximo governo herdará uma DBGG próxima a 80% do PIB. Apenas para que se tenha
uma ideia, há 10 anos, em dezembro de 2015, esse indicador estava em 65,5% do
PIB, e esse endividamento esteve no epicentro da grave crise econômica que
acometeu a economia entre 2014 e 2016.
É claro que não há paralelos entre aquele
momento e o atual, nem é meu objetivo alardear crises à frente. É claro também
que inúmeros choques acometeram a economia brasileira desde 2015, foram
acomodados via política fiscal (é pra isso que ela existe!) e ajudam a explicar
o atual patamar. Mas que fique claro: o próximo governo não terá margem para
elevar o endividamento público em mais 8 pontos do PIB. Ou, em outras palavras,
há uma restrição à política fiscal que o próximo governo, independentemente do
eleito, herdará. Seria bom que os meios para estabilizar a relação dívida/PIB,
que afetarão diretamente a sociedade, passassem por uma ampla discussão durante
a eleição.
*Professor
do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Uberlândia
(PPGE/UFU)

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