quinta-feira, 9 de abril de 2026

Tudo que era sólido desmanchou no ar, por José Serra

O Estado de S. Paulo

O jogo dos próximos anos exige um Estado forte, não mastodôntico, que consiga navegar na nova realidade

O mundo dessa segunda metade da década de 2020 pode ser qualquer coisa, mas jamais poderemos dizer que é um palco para amadores. De fato, esta década está se caracterizando por jogar por terra a velha forma de produzir e de viver. Vamos tentar olhar três dimensões deste novo mundo.

Primeiro, algo que já estava no radar há alguns anos, mas só nesta década ganhou cores mais marcantes: a transição climática. Emissões lançadas por uma economia afetam, indistintamente, todas as demais. Por isso, esforços isolados, ainda que relevantes, são insuficientes diante da escala da questão. A redução conjunta de emissões exige metas compatíveis, mecanismos de monitoramento confiáveis e compromissos estáveis de longo prazo, para que a ação climática não seja comprometida por condições assimétricas entre países ou pela transferência de atividades intensivas em carbono para locais onde as exigências sejam menores.

Os mecanismos de redução das emissões de carbono têm por objetivo alterar os parâmetros de custo da produção, de modo a incorporar aos processos econômicos os efeitos ambientais. Ao precificar o carbono e incentivar tecnologias limpas, esses mecanismos afetam decisões de investimento, produção e consumo.

Efeitos positivos só podem ser conseguidos se as ações, nos mais diversos países, forem realizadas de forma coordenada internacionalmente. Mas é indispensável distribuir custos e responsabilidades considerando as diferenças de renda, estruturas produtivas e capacidades tecnológicas. Isso reforça a necessidade de cooperação financeira, difusão de conhecimento tecnológico e alinhamento regulatório. A transição climática não é uma soma de políticas nacionais. Ao contrário, é ação coletiva, marcada por previsibilidade institucional e compromisso compartilhado com a redução global das emissões.

A segunda dimensão é a revolução que a inteligência artificial (IA), que impõe desafios de grande magnitude, dado que sua adoção tende a ser desigual entre setores, empresas e regiões. Em ambientes produtivos marcados por baixa produtividade média, forte heterogeneidade empresarial e grande presença de pequenas firmas, a IA pode ampliar a distância entre segmentos mais capitalizados e aqueles com limitada capacidade de investir em tecnologia, dados e qualificação. A introdução das novas tecnologias cruzará segmentos do setor produtivo, desconstruindo o passado e instaurando uma nova realidade.

No mercado de trabalho, a IA tende a alterar a forma como ele é organizado, remunerado e distribuído setorialmente. Ocupações intermediárias, rotineiras ou intensivas em processamento de informação podem sofrer forte reconfiguração, enquanto cresce a demanda por trabalhadores com maior capacidade analítica, domínio tecnológico e capacidade de adaptação contínua aos novos ambientes. O risco é que a IA aumente a produtividade sem gerar, na mesma proporção, empregos de qualidade. Por isso, a nova configuração exige políticas de formação, requalificação profissional e fortalecimento da capacidade nacional de absorver tecnologia e ter um papel ativo na construção dos novos marcos produtivos.

A terceira dimensão é o declínio da posição americana na configuração geopolítica. A aventura tarifária de Trump já havia causado estragos na posição de centralidade no contexto do comércio mundial. Os países de médio desenvolvimento já buscam comerciar entre si. Segundo a The Economist, entre maio e o fim de 2025, o comércio entre a GrãBretanha, o Canadá, a União Europeia, o Japão, a Coreia do Sul e a Suíça aumentou 12% em comparação com os mesmos meses do ano anterior, mesmo com a queda de 6% nas exportações para os Estados Unidos. A guerra ampliou a percepção de fragilização da posição dominante para o campo militar, na diplomacia e no mundo financeiro.

Os próximos anos mostrarão um reposicionamento de todas as nações. Repensar as fontes energéticas para garantir suprimento nacional será um ponto de honra. Redesenhar o comércio, especialmente o de minerais e outros insumos da produção, numa ótica de segurança do abastecimento, será outro. Mas é nos fluxos financeiros que novas lógicas virão à luz de forma mais intensa. A desagregação de mercados ocasionada pela guerra abriu caminho para o comércio em outras moedas. A degradação da posição de poder americana acionou os mecanismos de proteção contra a concentração de posições em ativos denominados na moeda americana.

De fato, 2026 é o primeiro ano de uma nova configuração da economia e da sociedade. E tenho que dizer aos que acreditam que o alinhamento automático aos Estados Unidos ou às soluções do liberalismo “anti-Estado” produzirão a catástrofe do desenvolvimento brasileiro. O jogo dos próximos anos exige um Estado forte, não mastodôntico, que consiga navegar na nova realidade tomando decisões e compondo alianças que preservem ao País a capacidade de manter mínima coesão social frente a mudanças que irão do trabalho no mundo da IA à transição climática, passando pelo comércio e pelo sistema financeiro.

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