Folha de S. Paulo
Experiência iliberal no país nos últimos 16
anos reflete contradições europeias no pós-guerra
Ideia de 'retorno à Europa' se baseia em
suposta superioridade de um Ocidente civilizado e na inferioridade de um
oriente europeu bárbaro
[RESUMO] As eleições parlamentares
na Hungria que
selaram a derrota de Viktor Orbán foram
celebradas como um "retorno do país à Europa",
vista como símbolo de democracia e liberdade. Para professora, contudo, seria
mais apropriado ver no projeto iliberal húngaro não uma negação dos valores
europeus, mas um espelho de suas contradições, afinal o continente foi berço de
fascismo, nazismo e guerras que deixaram um legado de destruição.
Em 12 de abril, as atenções do mundo se
voltaram para um pequeno país da Europa Central —a Hungria,
que, desde 2010, tornara-se uma espécie de laboratório internacional para as
direitas radicais.
Naquele dia, eleições parlamentares interromperam
o projeto iliberal do partido União Cívica Húngara (Fidesz) e de seu principal
líder, o primeiro-ministro Viktor Orbán, no poder há 16 anos.
Com índices de participação eleitoral beirando os 80% —os maiores desde a redemocratização do país, em 1989—, as urnas consagraram a vitória do partido de oposição Respeito e Liberdade (Tisza), de centro-direita, liderado pelo ex-aliado de Orbán, Péter Magyar. A legenda conquistou 138 das 199 cadeiras do Parlamento húngaro, contra 55 do Fidesz.
Em 2014, quando pesquisas indicavam grande
popularidade nacional de Orbán, o primeiro-ministro referiu-se pela primeira
vez ao regime húngaro como uma "democracia iliberal". Desde então, o
termo passou a ser amplamente utilizado para se referir à experiência política
do país.
Na visão de Orbán, uma democracia não
precisava ser necessariamente liberal. O liberalismo, para ele, era fonte de
problemas diversos em toda a parte; no caso específico da Hungria, teria
falhado, entre 1990 e 2010, na medida em que não foi capaz de compelir o Estado
a trabalhar pelos interesses nacionais.
Nessa concepção, uma democracia iliberal não
se caracteriza por uma ruptura abrupta com a ordem democrática, mas sim com seu
caráter liberal.
O Fidesz
colocou em prática um projeto baseado na ideia de transformação gradual das
instituições: reformas constitucionais, reconfiguração do
Judiciário, crescente concentração dos meios de comunicação e restrições ao
funcionamento de universidades e organizações da sociedade civil. Um processo
que diversos analistas descrevem como uma forma de erosão "por
dentro", na qual mecanismos formais são preservados, porém o funcionamento
interno da democracia é progressivamente limitado.
Em paralelo, o governo investia na imagem da
Hungria como um dos últimos bastiões europeus na defesa dos "valores
cristãos", exerceu papel central na propagação de políticas
anti-imigração, enfatizava a defesa da "família tradicional",
limitava os direitos reprodutivos das mulheres, rejeitava pautas de gênero e
estabelecia políticas hostis à população LGBTQIA+.
Outro ponto-chave do projeto iliberal do
Fidesz diz respeito à relação da Hungria com a União Europeia. Estado-membro
desde 2004, quando o bloco realizou sua maior expansão em direção ao leste,
incorporando diversos países ex-socialistas, o país manteve, a partir da
ascensão de Orbán em 2010, uma relação ambígua com o grupo. Se, por um lado,
permaneceu formalmente integrado, por outro, entrou em choque recorrente com
suas instituições, especialmente em torno de temas ligados à democracia.
Ao mesmo tempo, o governo Orbán estreitou
laços com a Rússia de Vladimir Putin, adotando posições frequentemente
dissonantes das demais lideranças europeias. A invasão russa na Ucrânia, em
2022, acentuou esse distanciamento, visível, mais recentemente, no veto da
Hungria a empréstimos destinados ao país.
Nesse quadro, a campanha do Fidesz em 2026
passou a mobilizar as figuras de Volodimir
Zelenski, presidente da Ucrânia, e Ursula
von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, como símbolos de uma
ameaça externa, associada tanto à guerra quanto às pressões vindas de Bruxelas.
Esse conjunto de tensões internas e externas
ajuda a entender o cenário em que as eleições de agora ocorreram.
A derrota de Orbán deve ser compreendida à
luz de transformações importantes no comportamento eleitoral húngaro. A elevada
participação indica uma mobilização incomum, especialmente entre os mais
jovens.
Além disso, o resultado revelou alterações
significativas na geografia política do país: se, nos últimos anos, a oposição
se concentrava sobretudo em Budapeste e
em outros grandes centros urbanos, a eleição de 2026 aponta para uma
redistribuição mais ampla do voto, reduzindo os tradicionais bastiões do Fidesz
no interior.
Assim,
divulgados os resultados eleitorais e confirmada a vitória da oposição, uma
onda de euforia pareceu varrer o Velho Continente. Na imprensa
liberal e entre certas lideranças europeias, ganhou destaque a ideia de que a
Hungria estaria "retornando à Europa", expressão que remete a um
vocabulário político que não é, de forma alguma, novo na história do
continente.
Assim, a imprensa francesa falava ora que a
Hungria "celebrava seu retorno à Europa" (Le Monde) ora em
"ventos ocidentais sobre Budapeste" (Libération).
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez,
declarou em suas mídias sociais: "Hoje,
ganha a Europa e ganham os valores europeus". Em sentido
similar, o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, declarou "Hungria,
Polônia, Europa, juntos de volta!", enquanto o primeiro-ministro
britânico, Keir Starmer, afirmou que aquele era um momento histórico, "não
apenas para a Hungria, mas para a democracia europeia".
Mas foram as manifestações de Ursula von der
Leyen as que melhor sintetizaram os ânimos europeus: poucas horas depois do
anúncio dos resultados, a presidente da Comissão Europeia afirmou que a Hungria
"retornou ao verdadeiro coração da Europa".
A ideia de um "retorno à Europa"
expressa uma comunidade de valores civilizacionais responsáveis pela definição
de uma certa noção de Ocidente, sinônimo de democracia, liberdade, defesa dos
direitos humanos e da paz. Isso marcou, sobretudo depois da Segunda Guerra
Mundial, a construção da identidade do continente e as relações entre suas
diferentes partes.
Em 1989, por exemplo, quando as revoluções
democráticas na Europa Central derrubaram as ditaduras comunistas e
prenunciaram o fim da Guerra Fria e a reunificação do continente, não foram
raras as interpretações que consagraram tais eventos como uma vitória dos
valores da "verdadeira Europa", da democracia e da liberdade, contra
a tirania e o totalitarismo.
Nessa chave interpretativa, as revoluções
de 1989 no leste seriam o epítome da Europa liberal, moderna e democrática,
destino final para onde caminharia todo o continente.
Aplicar essa lógica narrativa aos resultados
eleitorais húngaros de agora, quase quatro décadas após as quedas das ditaduras
comunistas, nos coloca, no entanto, diante de algumas questões.
A primeira delas é se, de fato, o modelo
iliberal do Fidesz se esgotou. A segunda —e, talvez, mais importante— é se a
experiência húngara da última década e meia era, de fato, uma negação da Europa
e de seus valores. Não seria mais fértil pensá-la como parte da complexa
experiência europeia na modernidade?
Afinal, os acontecimentos terríveis da
"era das catástrofes", que caracterizaram o século 20 e parecem
entrar pelo 21, não são igualmente frutos da modernidade europeia?
Tais experiências marcaram também a
identidade do continente e fizeram da Europa espaço e berço de experiências
limite: fascismos, nazismo, guerras
mundiais, conflitos civis, genocídios e limpezas étnicas transformaram
a "Europa das Luzes" em um "continente de sombras" e
deixaram um legado de destruição e divisão.
Nesse sentido, não deveríamos considerar
também a experiência iliberal e autoritária húngara no século 21 como parte das
tradições europeias? Ao questionar o modelo democrático-liberal da União
Europeia, optando por uma via nacionalista, autoritária e iliberal,
a Hungria não deixou "o verdadeiro coração da Europa", apenas
evidenciou as contradições históricas e identitárias que marcam a história do
Velho Continente na modernidade.
A Hungria não está, mais uma vez, voltando à
Europa. Ao contrário, a experiência que agora parece terminar mostra uma disputa
em torno do significado político e normativo da própria ideia de Europa.
Falar em "retorno" reintroduz uma
hierarquia implícita que há muito estrutura as representações sobre a Europa
Central, que se baseia na ideia de superioridade de um Ocidente civilizado e na
inferioridade de um oriente europeu bárbaro, que precisa alcançar as luzes da
civilização.
Lembremos, porém, que enquanto as direitas
radicais sofreram derrotas políticas e entraram em crise no Leste Europeu,
elas continuam vivas e se fortalecendo na Itália, na França e na Alemanha.
*Professora de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense, autora de "Europa Central: A Fascinante História de Uma Região Decisiva" (Contexto, 2025)

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