terça-feira, 28 de abril de 2026

Especulando sobre o futuro extraordinário do Brasil, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Talvez Friedman esteja enxergando qualidades que não temos, mas em meio a embates internos ferozes, acuados por radicais da austeridade ou do negacionismo, também é possível que estejamos pouco atentos a qualidades que temos

Em meio a inúmeras más notícias diárias, que tal uma especulação otimista a respeito do futuro do Brasil? É difícil abordar esse assunto porque já virou até motivo de chacota. O escritor austríaco Stefan Zweig publicou um livro, em 1941, com o título “Brasil, país do futuro” e, ao longo do tempo, essa expressão passou ser usada ironicamente como se descrevesse um país cujo futuro previsto nunca chega.

A notícia boa, para quem quiser acreditar, é alguém dizendo que esse futuro pode chegar.

Num momento de grandes turbulências geopolíticas, o Brasil figura como possível ganhador. Supondo-se que o padrão econômico global iniciado com a ascensão dos EUA no século XIX continue, à medida que a China amadurece, o Brasil e a América do Sul podem ser os mais propensos a emergir, a exemplo do que fizeram EUA, China e Japão, estabilizando a economia global e se desenvolvendo ao longo de décadas até se tornarem uma grande economia madura.

A futurologia do parágrafo acima, do estrategista geopolítico húngaro-americano George Friedman, está em artigo publicado no site dele em 17 de abril com o título “Speculating on South America’s Extraordinary Future”. Note-se que ele usa o termo “especulando” e explica por quê: “Uma previsão é uma estimativa, cuja validade é de responsabilidade minha e do meu ego. O que ofereço aqui é especulação - algo suficientemente provável para justificar um artigo, mas não tão provável a ponto de comprometer meu ego”.

Sim, trata-se de especulação, mas Friedman a baseia em fatos. O padrão econômico global durante uns cem anos, segundo ele, foi o herdeiro da Revolução Industrial, no qual uma grande potência industrial emergente sustentou a saúde econômica mundial por décadas. O custo de produção dessas potências emergentes era bem menor do que o das economias mais maduras, o que lhes abria mercados mundiais.

Três nações foram as maiores ganhadoras nesses cem anos: EUA, Japão e China.

Os EUA começaram a crescer exponencialmente na década de 1880 e prosperaram até a Grande Depressão de 1929. Foram, nesse período, os principais exportadores industriais de produtos mais baratos para a Europa, a potência industrial da época. A depressão, em parte, ocorreu porque a Europa, durante a Primeira Guerra Mundial, não conseguia comprar produtos americanos.

O Japão, devastado na Segunda Guerra Mundial, foi forçado a operar como emergente. Com produtos mais baratos, teve um boom econômico baseado, principalmente, nas exportações aos EUA. Houve uma crise econômica nos anos 1990, mas o Japão saiu dela como economia madura.

A China decolou economicamente nas décadas de 1980 e 1990, substituindo o Japão como exportador de produtos industriais de baixo custo. Seu crescimento agora desacelerou e o país deve atingir a maturidade econômica nos anos 2030. Friedman observa que os três países tinham coisas em comum. A primeira é curiosa: ninguém esperava o seu sucesso. Os EUA haviam sido devastados pela guerra civil. O Japão também, pela Segunda Guerra. E a China vinha da Grande Fome, sob Mao Tsé-Tung.

Os três tinham outras coisas importantes em comum: grandes populações e bases agrárias; pessoas com formação em tecnologia; ambições culturais de desenvolvimento social; tradição cultural de empreendedorismo; surgimento quando as economias maduras precisavam de importações de baixo custo e qualidade razoável; crescimento vertiginoso em situações de paz; nações vizinhas menores e exportadoras emergindo a seu lado.

Hoje, observa Friedman, a China se aproxima do fim de seu ciclo, migrando para um modelo econômico amplo, porém maduro, com aumento do consumo interno e elevação dos preços. E quem vai ocupar seu lugar?

O cientista geopolítico especula sobre África e Oriente Médio, mas lembra que são regiões, não nações, com processos econômicos divergentes e constantemente afetadas por conflitos. Quem vai substituir a China, seguindo o padrão secular, deverá ser “surpresa”, ter base agrícola enorme, cultura empreendedora e uma camada, ainda que tênue, de tecnólogos.

E a conclusão dele é que a ganhadora será a América Latina, particularmente o Brasil, que possui a sétima maior população do mundo, forte base agrícola, significativa cultura empreendedora e contingente necessário de mentes tecnológicas. “A região à qual o Brasil pertence já superou, em grande parte, seu período de instabilidade e conflito. O país é cercado por outras nações com populações menores, mas com características semelhantes. Assim como os EUA tinham o Canadá e o México, e o Japão e a China tinham o restante da Ásia, o Brasil tem o Cone Sul da América Latina, que inclui Argentina, Chile e Paraguai. O Brasil já iniciou o processo de desenvolvimento econômico com uma força de trabalho de baixa renda, o que lhe permite se tornar um produtor de baixo custo, vital para economias mais maduras. Talvez o mais importante seja que o potencial de desenvolvimento do Brasil e do restante da América do Sul ainda seja subestimado, mesmo com o aumento do investimento estrangeiro na região.”

Friedman é um estrategista geopolítico de renome internacional. Com 77 anos de idade, já fez previsões certas e erradas. Por exemplo, acertou ao prever o conflito Rússia-Ucrânia e o declínio da União Europeia. E errou ao antever que o Japão, tendo virado potência, lideraria um conflito global.

Talvez ele esteja enxergando qualidades que não temos no Brasil. Mas, em meio a embates internos ferozes, acuados por radicais da austeridade ou do negacionismo, também é possível que estejamos pouco atentos a qualidades que temos. A liderança em transição para a energia limpa, por exemplo, nem foi citada pelo cientista.

Tomara que ele acerte na especulação sobre essa decolagem de Brasil e América Latina. Se isso acontecer, escreveu, o processo já terá começado.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.