Valor Econômico
Talvez Friedman esteja enxergando qualidades que não temos, mas em meio a embates internos ferozes, acuados por radicais da austeridade ou do negacionismo, também é possível que estejamos pouco atentos a qualidades que temos
Em meio a inúmeras más notícias diárias, que
tal uma especulação otimista a respeito do futuro do Brasil? É difícil abordar
esse assunto porque já virou até motivo de chacota. O escritor austríaco Stefan
Zweig publicou um livro, em 1941, com o título “Brasil, país do futuro” e, ao
longo do tempo, essa expressão passou ser usada ironicamente como se
descrevesse um país cujo futuro previsto nunca chega.
A notícia boa, para quem quiser acreditar, é alguém dizendo que esse futuro pode chegar.
Num momento de grandes turbulências
geopolíticas, o Brasil figura como possível ganhador. Supondo-se que o padrão
econômico global iniciado com a ascensão dos EUA no século XIX continue, à
medida que a China amadurece, o Brasil e a América do Sul podem ser os mais
propensos a emergir, a exemplo do que fizeram EUA, China e Japão, estabilizando
a economia global e se desenvolvendo ao longo de décadas até se tornarem uma
grande economia madura.
A futurologia do parágrafo acima, do
estrategista geopolítico húngaro-americano George Friedman, está em artigo
publicado no site dele em 17 de abril com o título “Speculating on South
America’s Extraordinary Future”. Note-se que ele usa o termo “especulando” e
explica por quê: “Uma previsão é uma estimativa, cuja validade é de
responsabilidade minha e do meu ego. O que ofereço aqui é especulação - algo
suficientemente provável para justificar um artigo, mas não tão provável a
ponto de comprometer meu ego”.
Sim, trata-se de especulação, mas Friedman a
baseia em fatos. O padrão econômico global durante uns cem anos, segundo ele,
foi o herdeiro da Revolução Industrial, no qual uma grande potência industrial
emergente sustentou a saúde econômica mundial por décadas. O custo de produção
dessas potências emergentes era bem menor do que o das economias mais maduras,
o que lhes abria mercados mundiais.
Três nações foram as maiores ganhadoras
nesses cem anos: EUA, Japão e China.
Os EUA começaram a crescer exponencialmente
na década de 1880 e prosperaram até a Grande Depressão de 1929. Foram, nesse
período, os principais exportadores industriais de produtos mais baratos para a
Europa, a potência industrial da época. A depressão, em parte, ocorreu porque a
Europa, durante a Primeira Guerra Mundial, não conseguia comprar produtos
americanos.
O Japão, devastado na Segunda Guerra Mundial,
foi forçado a operar como emergente. Com produtos mais baratos, teve um boom
econômico baseado, principalmente, nas exportações aos EUA. Houve uma crise
econômica nos anos 1990, mas o Japão saiu dela como economia madura.
A China decolou economicamente nas décadas de
1980 e 1990, substituindo o Japão como exportador de produtos industriais de
baixo custo. Seu crescimento agora desacelerou e o país deve atingir a
maturidade econômica nos anos 2030. Friedman observa que os três países tinham
coisas em comum. A primeira é curiosa: ninguém esperava o seu sucesso. Os EUA
haviam sido devastados pela guerra civil. O Japão também, pela Segunda Guerra.
E a China vinha da Grande Fome, sob Mao Tsé-Tung.
Os três tinham outras coisas importantes em
comum: grandes populações e bases agrárias; pessoas com formação em tecnologia;
ambições culturais de desenvolvimento social; tradição cultural de
empreendedorismo; surgimento quando as economias maduras precisavam de
importações de baixo custo e qualidade razoável; crescimento vertiginoso em
situações de paz; nações vizinhas menores e exportadoras emergindo a seu lado.
Hoje, observa Friedman, a China se aproxima
do fim de seu ciclo, migrando para um modelo econômico amplo, porém maduro, com
aumento do consumo interno e elevação dos preços. E quem vai ocupar seu lugar?
O cientista geopolítico especula sobre África
e Oriente Médio, mas lembra que são regiões, não nações, com processos
econômicos divergentes e constantemente afetadas por conflitos. Quem vai
substituir a China, seguindo o padrão secular, deverá ser “surpresa”, ter base
agrícola enorme, cultura empreendedora e uma camada, ainda que tênue, de
tecnólogos.
E a conclusão dele é que a ganhadora será a
América Latina, particularmente o Brasil, que possui a sétima maior população
do mundo, forte base agrícola, significativa cultura empreendedora e
contingente necessário de mentes tecnológicas. “A região à qual o Brasil
pertence já superou, em grande parte, seu período de instabilidade e conflito.
O país é cercado por outras nações com populações menores, mas com características
semelhantes. Assim como os EUA tinham o Canadá e o México, e o Japão e a China
tinham o restante da Ásia, o Brasil tem o Cone Sul da América Latina, que
inclui Argentina, Chile e Paraguai. O Brasil já iniciou o processo de
desenvolvimento econômico com uma força de trabalho de baixa renda, o que lhe
permite se tornar um produtor de baixo custo, vital para economias mais
maduras. Talvez o mais importante seja que o potencial de desenvolvimento do
Brasil e do restante da América do Sul ainda seja subestimado, mesmo com o
aumento do investimento estrangeiro na região.”
Friedman é um estrategista geopolítico de
renome internacional. Com 77 anos de idade, já fez previsões certas e erradas.
Por exemplo, acertou ao prever o conflito Rússia-Ucrânia e o declínio da União
Europeia. E errou ao antever que o Japão, tendo virado potência, lideraria um
conflito global.
Talvez ele esteja enxergando qualidades que
não temos no Brasil. Mas, em meio a embates internos ferozes, acuados por
radicais da austeridade ou do negacionismo, também é possível que estejamos
pouco atentos a qualidades que temos. A liderança em transição para a energia
limpa, por exemplo, nem foi citada pelo cientista.
Tomara que ele acerte na especulação sobre
essa decolagem de Brasil e América Latina. Se isso acontecer, escreveu, o
processo já terá começado.

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