O Estado de S. Paulo
Nos próximos três anos, o Brasil estará na presidência dessa importante organização do ponto de vista geopolítico
Nos dias 8 e 9 de abril, o Brasil foi sede da
9.ª Reunião Ministerial e assumiu pela terceira vez a Presidência Pro Tempore
da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas).
A Zopacas foi criada – por iniciativa do Brasil, apoiado pela Argentina – pela Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), com o intuito de promover a cooperação regional e a manutenção da paz e da segurança no entorno dos 24 países sul-americanos e da costa ocidental da África que aderiram ao projeto. Estabelecida em 27 de outubro de 1986, este fórum se propôs a ser o principal mecanismo de articulação, no Atlântico Sul (área compreendida entre o paralelo 16.° N e a Antártida), buscando promover uma maior cooperação regional para o desenvolvimento econômico e social, a proteção do meio ambiente, a conservação dos recursos vivos e não vivos e a segurança de toda a região, sob a perspectiva da integração multilateral, permeada pelo pano de fundo das iniciativas relacionadas à não proliferação de armas nucleares e de destruição em massa.
Em seus primeiros anos, a agenda política da
Zopacas esteve voltada a projetos de cooperação para o desenvolvimento
socioeconômico. As preocupações eram associadas à percepção de ameaça oriunda
da confrontação entre as duas superpotências; e do regime sul-africano que,
além de institucionalizar políticas discriminatórias, ocupava ilegalmente o
território da Namíbia, influenciava a guerra civil angolana e perseguia um
programa nuclear para fins militares, conflitante com a proposta de uma zona de
paz livre de armas nucleares no Atlântico Sul. Com o fim da guerra fria e do
regime do apartheid sul-africano, a Zopacas esgotou suas pautas principais,
correndo o risco de avançar rumo à irrelevância. Em 1992, visando a recuperar o
projeto regional de iniciativa brasileira, foi lançado o projeto de atualização
da zona que propunha a inclusão da pauta de proteção do meio ambiente marinho
como meio de mantê-la como um fórum relevante internacionalmente.
A partir dos anos 2000, com as descobertas de petróleo offshore em ambas as margens do Atlântico Sul, a Zopacas passou a se apresentar como um dos meios para governança deste espaço e para evitar ingerência externa e proteger os recursos energéticos. Em 2021, ficou decidida a convocação de reuniões anuais à margem da reunião da Assembleia-Geral da ONU e a necessidade de criação de um mecanismo de acompanhamento. Os principais objetivos da retomada das reuniões ministeriais foram: 1) reforçar a ideia do Atlântico Sul como zona de paz e cooperação, livre de armas de destruição em massa e de rivalidades e conflitos que lhe sejam alheios; 2) aumentar o engajamento dos membros africanos com o agrupamento; e 3) desincentivar a presença militar de Estados das demais regiões no Atlântico Sul.
Do ângulo brasileiro, a Zopacas passou a se
integrar ao conceito de entorno estratégico, incluído na Política de Defesa
Nacional desde 2005, mantendo-se nos documentos seguintes a prioridade do
entorno estratégico, da América do Sul à Costa Ocidental da África, englobando
o Atlântico Sul e a Antártida, já presente no texto desde a primeira versão.
Dentro do novo quadro geopolítico, a instabilidade internacional e a
reconfiguração de alianças observadas nos últimos anos reforçam a importância
de fortalecimento da Zopacas como contrapeso ao aumento de pressões
extrarregionais no Atlântico Sul. Ao mesmo tempo, ameaças à região e aos
recursos marinhos nela existentes, incluindo a poluição do meio ambiente marinho,
ameaças à segurança marítima, especialmente no Golfo da Guiné, o crime
organizado transnacional, a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada,
dentre outros, demandam respostas coletivas e estreita coordenação regional.
Nos últimos 20 anos, o governo brasileiro
assinou acordosquadro de cooperação em defesa com alguns dos Estadosmembros da
Zopacas, sendo África do Sul; Guiné-Bissau; Namíbia; Angola; Guiné Equatorial;
Nigéria; São Tomé e Príncipe; Senegal; Uruguai; Cabo Verde; e Benin. Foram
igualmente assinados o Acordo Operacional entre o Centro de Controle de Área
Atlântico e o Centro de Controle de Área Abidjan (2010) e um Memorando de
Entendimento entre a Marinha do Brasil e a Marinha Nacional de Camarões (2018).
Caso a Zopacas não seja capaz de responder a
essas demandas, outras iniciativas e atores podem se impor à região. É oportuno
lembrar que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) mudou sua
doutrina ampliando seu raio de ação para o Atlântico Sul e mais recentemente
para “as áreas de interesses dos países membros”, referência indireta ao mar do
Sul da China.
A 9.ª Reunião Ministerial apresentou como
resultados uma declaração política com compromissos sobre a manutenção da paz e
segurança e cooperação para o desenvolvimento sustentável no Atlântico Sul, a
apresentação de uma estratégia de cooperação entre os países participantes,
cobrindo a governança dos oceanos, segurança e defesa marítima e
desenvolvimento sustentável do meio ambiente e uma convenção sobre proteção do
meio ambiente no Atlântico Sul. Nos próximos três anos, o Brasil estará na
presidência dessa importante organização do ponto de vista geopolítico.
*Presidente do Centro de Estudos de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen), é membro da Academia Paulista de Letras

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