domingo, 26 de abril de 2026

EUA lutam sem vitórias, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

A guerra no Irã contribuiu para reduzir a vantagem comparativa dos EUA perante a China no campo da defesa, num cenário de esfacelamento das alianças americanas, e ampliar o alcance do sistema financeiro chinês.

Dados do Departamento de Defesa e do Congresso americano revelam que a guerra custa quase US$ 1 bilhão por dia. Os EUA consumiram cerca de 1,1 mil mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance – metade do estoque –, projetados para uma guerra contra a China.

As forças armadas dispararam mais de mil mísseis de cruzeiro Tomahawk, e compram apenas 100 por ano. Entre 1,5 mil e 2 mil mísseis críticos para a defesa antiaérea, como Thaad, Patriot e Atacms, foram usados. A reposição dessa munição pode levar seis anos.

A arquitetura de alianças erguida ao longo de décadas para conter a China e a Rússia está desmoronando. O Quad, que une EUA, Índia, Japão e Austrália, não realiza suas reuniões de cúpula anuais desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, por desinteresse do presidente americano. A próxima ocorreria em maio, mas Trump vai para a China – o país do qual a aliança se protege – e não passará pela Índia, que seria a anfitriã este ano.

Destinada a conter a Rússia, a Otan se tornou saco de pancadas de Trump. Em contrapartida, uma antiga ambição da China, de furar a dominância do dólar nas transações globais, ganhou impulso com a guerra no Golfo Pérsico.

MOEDA. Pagamentos usando a rede financeira chinesa aumentaram quase 50% no mês passado, de US$ 86 bilhões para mais de US$ 131 bilhões por dia, segundo o Atlantic Council. Foi a forma que países encontraram para comprar petróleo do Irã.

Ao menos dois navios pagaram “pedágio” ao Irã em renminbi , de acordo com a Lloyd’s List Intelligence. A moeda chinesa responde só por 3% das transações globais. Mas a China não precisa substituir o dólar para escapar do controle financeiro americano. Basta ter um canal alternativo para emergências para relativizar o poder americano de estrangulamento das finanças globais.

A aventura de Trump no Golfo confirma a equação formulada em 2024 na Conferência de Segurança de Munique pelo chanceler indiano, Subrahmanyam Jaishankar: “Há duas décadas, a China ganha sem lutar, enquanto os EUA lutam sem ganhar”.

Jaishankar se referia ao Oriente Médio. A derrubada de Saddam Hussein pelos americanos permitiu ao Irã projetar poder sobre o Iraque, de maioria xiita, e as monarquias árabes do Golfo constatam agora o alto preço da aliança com os EUA, que as tornou alvo dos bombardeios iranianos. As escolhas de Trump aprofundam esse efeito e o estendem para Ásia e Europa.

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