O Estado de S. Paulo
Com ou sem crise internacional, as falhas da
política interna são suficientes para manter desarranjada e insegura a economia
do Brasil
As aventuras guerreiras de Donald Trump e de seu companheiro Benjamin Netanyahu foram insuficientes, até agora, para causar perdas – ou perdas visíveis – às exportações brasileiras. Com superávit de US$ 7,54 bilhões nas três primeiras semanas de abril e de US$ 21,72 bilhões desde o começo do ano, o comércio exterior do Brasil parece ter sido pouco afetado, por enquanto, pelo conflito no Oriente Médio e pela navegação restrita no Estreito de Ormuz. Desde janeiro, o País exportou US$ 103,58 bilhões, 7,6% mais que um ano antes. Para 2026, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior projeta vendas externas de US$ 364,20 bilhões e superávit de US$ 72,1 bilhões.
O bom desempenho comercial tornou-se
rotineiro, ou quase, nos últimos 25 anos. A maior parte dos brasileiros talvez
nem tenha noção dos problemas externos do País nos anos 80 e em boa parte dos
90. Muitos nem sabem, quase certamente, das dificuldades cambiais enfrentadas,
durante um curto período, também neste século. Com reservas de US$ 362 bilhões
em março, o Brasil vive hoje, em termos financeiros, uma segurança externa
apenas sonhada nos 20 anos finais do século passado.
Como resposta à hiperinflação, o País
sustentou um penoso e produtivo ajuste entre 1994 e os primeiros anos dos anos
2000. A arrumação interna era essencial para a saúde das contas públicas, para
a contenção dos preços e também para a sustentação do equilíbrio externo.
Exceto por um breve período, no início do segundo decênio deste século, o poder
central manteve contas públicas sustentáveis e inflação em ritmo tolerável.
Abriu-se algum espaço para o investimento
produtivo e a economia continuou a crescer. Em alguns anos, o Produto Interno
Bruto (PIB) superou os 2% de expansão, mas sem sustentar uma aceleração
prolongada. A crise global iniciada em 2020 afetou severamente o aumento da
produção e do emprego, e a retomada do crescimento, nos anos seguintes, foi
prejudicada por falhas da política econômica.
A história é bem conhecida. Sem um controle
maior e uma gestão sustentável das contas públicas, a inflação permanece
distante de qualquer meta razoável. Nesse quadro, uma política monetária
conduzida com seriedade acaba resultando em juros elevados e em desestímulo à
expansão econômica. Mantida por longo tempo em 15% e reduzida recentemente a
14,75% ao ano, a taxa básica de juros caracteriza bem a condição brasileira.
Com ou sem crise internacional, as falhas da política interna são suficientes
para manter desarranjada e insegura a economia do Brasil.
Essas limitações são bem conhecidas por
empresários e economistas do mercado financeiro. As projeções de expansão
econômica em 2026 voltaram a subir e a mediana registrada no boletim Focus
chegou a 1,86% na segunda semana de abril. Mas a expectativa de inflação também
continuou a aumentar e atingiu 4,80%, ultrapassando o limite superior da meta
oficial, 4,5%. Segundo o mesmo boletim, a alta esperada para os preços ao
consumidor em 2027 alcançou 3,99%, continuando bem acima do centro do alvo, 3%.
Inflação superior à meta e crescimento
econômico medíocre permanecem, portanto, como referências para o mercado e para
os formuladores da política de juros. As condições instáveis da política e da
economia globais têm sido mencionadas com destaque nos comunicados dessas
autoridades. Mas suas análises continuam destacando a insegurança em relação ao
quadro fiscal, isto é, às contas do governo central.
Contrariando o empenho dos técnicos e também
dos ministros mais prudentes da área financeira, o presidente da República tem
continuado a gastar sem levar em conta as limitações do Tesouro Nacional. De
vez em quando, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz algumas palavras a
favor da austeridade financeira, mas logo retorna ao padrão defendido pelos
companheiros e aliados mais adeptos da identificação entre governar e gastar.
Não se pode, é claro, governar sem gastar.
Mas pessoas prudentes, dentro e fora do governo, levam em conta a limitação do
dinheiro, as necessidades futuras, as várias e inevitáveis incertezas e,
naturalmente, a conveniência de usar recursos do modo mais eficiente.
O mercado já elevou de 12,50% para 13% os
juros básicos projetados para o fim deste ano. Para 2027, a taxa estimada
chegou a 11%, superando por 0,5 ponto a registrada nas quatro semanas
anteriores. Assim como os dirigentes do Banco Central (BC) tentam prever o
comportamento do mercado, os agentes do setor privado tentam antecipar as
decisões das autoridades monetárias.
Nos últimos dez anos, essas autoridades têm
procurado ressaltar o caráter técnico e autônomo de suas deliberações, depois
de um breve e lamentável período de subordinação do BC à chefia do Executivo. O
compromisso de manter a política monetária subordinada a critérios técnicos –
mas dentro de padrões compatíveis com objetivos de emprego e de certos padrões
sociais – pode ser um importante fator de segurança num período de muita
incerteza quanto à política, ao comércio e às finanças internacionais.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.