Valor Econômico
A despeito dos juros altíssimos, a economia segue superaquecida, e o Copom não tem auxílio nenhum da atividade econômica para baixar a inflação
O mercado financeiro está revendo as suas
apostas para a queda de juros no fim deste mês, em reunião do Comitê de
Política Monetária (Copom) do Banco Central. Primeiro, o prognóstico dominante
era um corte de 0,5 ponto percentual na taxa Selic e, agora, o cenário mais
provável é uma redução de 0,25 ponto percentual, segundo as probabilidades
embutidas nas opções de Copom da B3.
O Banco Central deixou todas as opções em aberto. Seu presidente, Gabriel Galípolo, pediu “tempo para entender” como a guerra no Oriente Médio vai afetar a inflação. Outro ponto de interrogação é a quantas anda a atividade econômica dentro do Brasil, em meio a medidas de impulso fiscal e creditício que atrapalham a transmissão da política monetária.
O mercado já entendeu que, mesmo que a guerra
acabe logo, o estrago já está feito. A economia mundial terá de conviver com um
choque de oferta que reduz o crescimento e aumenta a inflação. Também ficou
claro que o Brasil sofrerá as mesmas consequências e, apesar de ser um produtor
de petróleo, não está imune a uma desaceleração de sua atividade.
O que ainda não está nos cálculos do mercado
é que a situação pode ficar ainda mais negativa, a depender da resposta do
governo Lula a esse choque - e também do alcance do pacote oficial para evitar
novas quedas na sua popularidade em um ano de eleições.
Um choque de oferta, como o que está
acontecendo agora, é o pior dos mundos para um banco central. A atividade
econômica cai e a inflação sobe. Num ambiente de maior credibilidade, o Copom
poderia acomodar um pouco desse choque inflacionário no intervalo de tolerância
de sua meta de inflação - e contar com a ajuda da própria desaceleração
econômica por ele provocada para fazer a inflação voltar à meta.
Hoje, essa possibilidade é muito restrita,
por diversos fatores. O primeiro deles é que a economia brasileira, assim como
a de outros países, sofreu uma sequência de choques nos últimos anos que
fizeram a inflação ficar acima da meta. Isso tem colocado em xeque a
credibilidade da própria autoridade monetária.
Desde fins de 2024, o Copom fez um forte
aperto na política monetária, com a maior taxa em 20 anos, e teoricamente isso
deveria ter sido suficiente para mostrar que está agindo para valer. Mas as
expectativas de inflação de longo prazo nunca convergiram para o centro da meta
- com uma política fiscal fora do lugar, não há banqueiro central que consiga
cumprir à risca o seu mandato.
O terceiro fator que dificulta o Banco
Central é que, a despeito da dose cavalar de juros, a economia segue
superaquecida. No fundo, o Copom não está tendo ajuda nenhuma do canal da
atividade econômica para baixar a inflação. Quem fez o serviço foi basicamente
a queda da inflação internacional, com redução de preços de bens
comercializáveis e recuo do câmbio, além de internamente um cenário mais
benigno para os preços de alimentos.
Isso pode ser constatado, numericamente, pela
decomposição da inflação de 2025 divulgada pelo Banco Central no seu Relatório
de Política Monetária. O chamado hiato do produto, uma medida técnica da
capacidade ociosa da economia, contribuiu com 0,48 ponto percentual no desvio
da inflação em relação à meta. Conclusão: o BC colocou os juros nas alturas e,
ainda assim, não conseguiu desmontar o superaquecimento da economia, sobretudo
no mercado de trabalho.
Este ano de 2026 não começa bem para o Copom,
com uma reaceleração da economia provocada sobretudo pelo corte do Imposto de
Renda para quem ganha até R$ 5 mil e pelo reajuste do salário mínimo. O mercado
estima um crescimento de 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro
trimestre, depois de andar praticamente de lado no segundo semestre de 2025.
É nesse contexto que o governo discute novas
medidas que prometem dar novos impulsos à economia. Um grupo delas são ações
que, na prática, subsidiam o consumo de combustíveis.
Outra frente de atuação do governo é a
expansão do crédito, bloqueando um pouco mais um dos canais de transmissão da
política monetária. No período de 12 meses até fevereiro, o saldo de crédito
aumentou 9,6%, mas o crédito direcionado teve uma velocidade maior de avanço
(12,2%) do que o livre (7,7%).
Não é de se admirar que as famílias estejam
se sentindo espremidas, apesar do pleno emprego e das altas reais de salários.
Os bancos cortaram linhas de longo prazo e passaram a oferecer linhas rotativas
- mais caras - para as famílias. As pessoas físicas pagaram aos bancos, em
prestações, algo como R$ 165 bilhões acima do que receberam em novas concessões
nos 12 meses até fevereiro. É sobre elas que cai o encargo da Selic mais alta,
num modelo em que o governo protege setores econômicos eleitos com taxas
subsidiadas.
As novas linhas de crédito em estudo pelo
governo apenas reforçam esse modelo e exigem uma dose de juros ainda mais
forte. Esse cenário deveria ter provocado alguma aversão maior ao risco nos
mercados, com alta do dólar. Isso só não aconteceu porque investidores estão
realocando ao Brasil recursos que estavam nos Estados Unidos. Essa é uma aposta
de que o Brasil está bem posicionado em meio à guerra, por ser um grande
produtor de petróleo - que dura até cair a ficha dos investidores estrangeiros
de que o governo está usando mal essa vantagem.

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