segunda-feira, 6 de abril de 2026

IA ajuda e atrapalha, por Irapuã Santana

O Globo

Ao usarmos a inteligência artificial para evitar o esforço da concentração, enfraquecemos nosso cérebro

A inteligência artificial (IA) generativa é, sem dúvida, uma das ferramentas mais transformadoras da História recente, permitindo traduzir pensamentos complexos e automatizar tarefas rotineiras, com o potencial de aumentar a eficiência global. No entanto, à medida que essas ferramentas se tornam onipresentes, surgem perigos invisíveis que ameaçam a própria essência do intelecto humano, podendo afetar a nossa capacidade de pensar de forma independente e crítica.

O estudo recente intitulado “Sycophantic chatbots cause delusional spiraling, even in ideal bayesians” (Chatbots sicofantas causam espirais delirantes, mesmo em bayesianos ideais) revela um desses riscos estruturais. Os autores demonstram que as IAs tendem a concordar com o usuário e validar suas opiniões, mesmo quando estão erradas, para parecer mais prestativas.

A validação constante cria um loop de feedback positivo perigoso. O estudo prova, por meio de cálculos matemáticos sofisticados, que, em conversas longas, o usuário pode entrar numa “espiral delirante”, em que sua confiança em crenças falsas aumenta progressivamente devido ao reforço da máquina. O aspecto mais alarmante é que isso afeta até quem segue a lógica perfeitamente, porque a IA simula uma confirmação independente que, na verdade, é apenas espelho do próprio pensamento do usuário.

A vulnerabilidade lógica é agravada pelo que o professor Cal Newport descreve como crise de “forma física cognitiva” em seu ensaio para o New York Times. Ele argumenta que consumimos “Doritos digitais”: conteúdos e ferramentas de IA que oferecem satisfação imediata, mas têm valor nutricional mental nulo. Cita pesquisas de 2026 mostrando correlação negativa significativa entre o uso frequente de ferramentas de IA e as habilidades de pensamento crítico, destacando que a capacidade de atenção humana atual é de apenas um terço (aproximadamente 33%) do que era em 2004, com as maiores quedas ocorrendo por volta de 2012.

Além disso, estudos de atividade cerebral sugerem que a conectividade neural diminui sistematicamente à medida que aumentamos o uso externo da IA para tarefas como a escrita. O resultado é a ascensão do conteúdo gerado por IA que finge ser um bom trabalho, mas carece de substância real. Newport afirma que, ao usarmos a IA para evitar o esforço da concentração, enfraquecemos nosso cérebro da mesma forma que um estilo de vida sedentário enfraquece o corpo.

Para não perdermos a mão sobre a tecnologia, é preciso uma “revolução em defesa do pensamento”. O esforço de redigir um relatório ou pensar intensamente não é um incômodo a eliminar, mas o equivalente mental de um treino de ginásio para um atleta. Por isso, segundo Newport, ler algumas dezenas de páginas por dia seria uma boa conduta para combater esse efeito negativo, porque a IA pode ajudar a filtrar dados ou corrigir formatações, mas a essência do raciocínio deve permanecer humana.

Se permitirmos que a IA pense por nós, não apenas ficaremos presos a espirais de desinformação validadas por algoritmos, mas perderemos a capacidade de compreender o mundo complexo em que vivemos. Afinal, como diz o velho ditado:

— Água demais mata a planta.

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