quinta-feira, 30 de abril de 2026

Impacto da guerra se espalha na economia, por Míriam Leitão

O Globo

O efeito da guerra na economia vai além do petróleo e já pressiona a produção de chips e o setor de alimentos, com a queda na oferta de fertilizantes

O impacto da guerra na economia vai muito além do petróleo. Está ameaçando a produção de chips e afetando o setor de alimentos ao reduzir a oferta de fertilizantes. A escassez de insumos agrícolas chegou a algumas economias e em dois meses atingirá o Brasil. A inflação reflete este cenário nos preços, todas as projeções subiram, e por isso, o Banco Central tomou a decisão de fazer apenas um corte de 0,25 ponto percentual, mesmo os juros estando tão altos.

Quando a guerra começou, o Brasil já tinha plantado a sua safra, portanto os produtores brasileiros respiraram aliviados. O Oriente Médio tem um percentual grande na oferta mundial de fertilizantes e de matérias-primas usadas nos insumos agrícolas. A safra americana estava sendo plantada e enfrentou os estilhaços. Só que agora o nosso prazo começou também a se esgotar, como explica o economista José Roberto Mendonça de Barros, a quem perguntei quando a conta vai chegar.

—Não vai demorar muito, porque uma parte dessa folga se esgotou nesses dois meses.

O Brasil diversificou suas compras e importa de diferentes origens. Isso ajuda, mas não resolve.

— Não dependemos essencialmente de ninguém. Para cada um dos três elementos, nós temos vários fornecedores. A soja não precisa de nitrogênio, mas o milho e o trigo precisam e nisso o Oriente Médio é muito importante, porque produz 40% do nitrogênio do mundo. O enxofre é importante para fazer o ácido sulfúrico, que é o que prepara o fertilizante fosfatado. Está faltando enxofre, porque o Oriente Médio tem uma parte bastante relevante nisso. A Rússia é um importante fornecedor de potássio, mas ela tem sua própria guerra. Nós não temos muito mais tempo, porque se passaram dois meses. Tem mais um mês. Mas os preços aumentaram, esse é o ponto. O choque de custos já ocorreu, agora resta saber se vai ter o choque de suprimento — explicou Mendonça de Barros.

A data de plantio é uma janela, e por este motivo, o agronegócio ainda não está no sufoco. Há esses dois problemas: o custo aumentou e há risco de faltar produto, se a guerra continuar. Na MB Agro, o cálculo é que a inflação de alimentos que estava prevista para ser 2,5%, agora deve ficar em 5%. E pode ser mais, se a guerra não terminar logo.

O professor Felippe Serigati, da FGV Agro, acrescenta um ponto de preocupação com o agro este ano. O risco de antecipação do El Ninõ.

— As primeiras estimativas eram de que o fenômeno se abateria sobre o Brasil no fim do terceiro trimestre. As probabilidades de que chegue antes, durante o terceiro trimestre, vêm aumentando. Isso afeta a safra de inverno. O El Niño representa seca no cerrado e aumento de chuvas no sul. Se ele chegar antes vai diminuir o tempo em que o agronegócio atua com o chamado clima neutro.

O agronegócio nos preocupa pelo tamanho do setor na economia, mas há outros gargalos que estão se formando por causa da guerra, explica Mendonça de Barros.

— No primeiro mês do fechamento do Estreito de Ormuz, os preços subiram, mas o sistema continuou operando. A partir do segundo mês, além do choque de preços que aconteceu, começa a ter problemas de suprimento.

Falta combustível, falta produto para a cadeia longa da petroquímica, mas falta também o gás hélio.

—O gás hélio é usado nas foundries, as fábricas de chips, e 30% da oferta mundial sai do Catar. Os estoques de petróleo da Coréia do Sul tendem a cair a níveis insustentáveis durante o mês de maio. A primeira coisa que muitos países fazem é proibir a exportação. A China está bloqueando exportação de fertilizantes, para defender o mercado interno. A Suécia está estudando racionamento — diz Mendonça de Barros.

Falei ontem com uma alta fonte de um país árabe produtor de petróleo, que me disse que, até agora, a produção caiu entre sete a nove milhões de barris por dia. Mas ele tem uma visão diferente da dos analistas. Acha que quando a guerra terminar é possível restabelecer a produção em semanas, e não em meses. E que os países da OPEP decidiram aumentar a produção assim que a logística for restabelecida.

É isso que o Banco Central quis dizer com há incerteza sobre “duração, extensão e desdobramentos” do conflito no Oriente Médio. E o fato de que os impactos do conflito “na cadeia de suprimentos global” afetam a inflação no Brasil. Por isso reduziu os juros em apenas metade de meio ponto e falou em “serenidade e cautela”.

 

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