quinta-feira, 30 de abril de 2026

Os caronas do bonde do Tigrinho, por Julia Duailibi

O Globo

Ministros do STF, deputados e senadores continuam aceitando caronas em jatinhos de empresários

Dois deputados federais, um senador da República e o presidente da Câmara dos Deputados pegaram carona no jatinho de um empresário do ramo das bets em meio a uma CPI que investigava justamente esse mesmo empresário do ramo das bets. Enquanto colegas trabalhavam em Brasília para tentar descobrir se Fernando Oliveira Lima, o Fernandin OIG, havia cometido lavagem de dinheiro, dissimulação patrimonial ou evasão de divisas, os quatro parlamentares acharam que tudo bem embarcar no avião dele, que tinha como destino o Caribe.

A viagem aconteceu em abril de 2025, quando Fernandin OIG já havia prestado depoimento aos senadores e estava na mira do Congresso — ou de parte dele — por suspeita de usar marketing e serviços digitais para encobrir recursos vindos de jogos de azar não regulados. Isso, por si só, já seria um escândalo para qualquer homem público. Mas tornou-se um escárnio por se tratar daqueles que estão entre os mais poderosos do Congresso: o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e os deputados Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL).

Na CPI, o influenciador foi questionado sobre seu envolvimento, especificamente, com o jogo do Tigrinho. Negou qualquer vinculação, mas as investigações apontaram “movimentações atípicas e possíveis práticas ilícitas”. A análise bancária mostrou aporte de R$ 50 milhões num banco, mas o empresário do jatinho disse possuir apenas um imóvel de R$ 110 mil. O relatório final disse que havia “elementos suficientes” para apontar dissimulação de recursos do empresário, suspeitos de vir do jogo ilegal. O relatório final, da senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), propôs o indiciamento, mas o documento não foi aprovado pela maioria dos senadores da comissão.

Os deputados e senadores que estavam no tour, no entanto, parecem não ter se preocupado com os indícios levantados pelos colegas. A viagem só se tornou pública porque cinco bagagens que estavam no avião de Fernandin furaram a fiscalização e não passaram pelo raio-X na chegada ao Brasil. Entraram no país sabe-se lá com o que dentro. Imagens do inquérito aberto pela Polícia Federal, sob suspeita de descaminho e prevaricação de um auditor da Receita, mostram que o piloto teve autorização para passar mochilas, caixas e sacolas por fora do raio-X.

O que temos de concreto até agora é a carona recebida pelos parlamentares, comum no jogo político. Escândalo após escândalo, ministros do Supremo, deputados e senadores continuam aceitando caronas em jatinhos de empresários, que prestam tais gentilezas não pela cor dos olhos das autoridades, mas pelo interesse que seus negócios têm com elas. A literatura política está recheada de exemplos. Dois recentes: Dias Toffoli indo a jogo de futebol com advogado do caso Master e Nikolas Ferreira em campanha com jatinho de Vorcaro.

Se uma funcionária da Receita não tivesse registrado que bagagens do voo não haviam sido fiscalizadas, a carona seria desconhecida do público. Nesse sentido, os quatro não tiveram sorte. Talvez a história mude no STF, que pode resolver, em ano de eleição, arquivar a investigação.

 

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