O Globo
Estados Unidos perderam a guerra,
independentemente dos resultados das negociações
1. Os Estados
Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações com
o Irã. Apesar da devastação infligida às capacidades militares iranianas, não
atingiram os variados e mutáveis objetivos políticos declarados por Trump. O
Irã não renunciou a seus programas nuclear e de mísseis ou ao patrocínio das
milícias regionais subordinadas. E, ainda, assumiu o controle efetivo do
Estreito de Ormuz.
2. A decapitação do
Líder Supremo e do círculo principal de dirigentes não provocou a implosão do
regime iraniano, que é uma ditadura institucionalizada. O regime resistiu, com
um deslizamento do núcleo de poder do clero xiita para a Guarda Revolucionária.
O ataque brutal dos Estados Unidos e de Israel esvaziou o levante popular que
abalava o regime e reconstituiu parcialmente sua base social interna.
3. O Irã inclina-se a substituir a política de enriquecimento de urânio sem a produção de bombas atômicas pela busca da construção de um arsenal nuclear. Depois de implodir o acordo nuclear negociado por Obama, Trump lançou as sementes do surgimento de uma Coreia do Norte no Oriente Médio.
4. Na guerra
assimétrica, o Irã assumiu o controle do Estreito de Ormuz, o que impôs recuo
humilhante aos Estados Unidos. Teerã aprendeu que, sem fechar fisicamente o
estreito, tem os meios de sujeitar o tráfego de petroleiros às suas
conveniências, inclusive à hipotética cobrança de taxas de trânsito. Nenhum
acordo com o regime será capaz de anular o precedente. Daqui em diante, o
regime iraniano usará como arma de dissuasão a prerrogativa de tomar como refém
o mercado global de combustíveis.
5. O guarda-chuva
de segurança dos Estados Unidos às monarquias do Golfo Pérsico perdeu
credibilidade. A modernização das economias da região baseia-se na imagem de
oásis seguros num Oriente Médio turbulento. As retaliações iranianas contra
hotéis e infraestruturas energéticas revelaram a vulnerabilidade dos aliados
árabes dos Estados Unidos. O controle iraniano do ponto de estrangulamento de
Ormuz passa a representar uma ameaça direta à soberania dos países da região.
6. Os interesses
dos Estados Unidos e de Israel não são, necessariamente, convergentes.
Netanyahu convenceu Trump a deflagrar a guerra contra o Irã, apesar da oposição
da corrente etnonacionalista do Maga e das reticências da cúpula militar
americana. O fracasso tende a afastar Trump de Netanyahu. Não por acaso, na
hora do acordo de trégua, o chefe de governo israelense não foi consultado.
7. Os Estados Unidos
abandonaram um governo libanês comprometido com o desarmamento do Hezbollah,
permitindo a campanha de bombardeios e a invasão israelense do sul do Líbano. A guerra de
Israel desestabiliza o Líbano, colocando o vizinho à beira do precipício da
guerra civil. A sabotagem do governo libanês propicia novas oportunidades ao
Irã.
8. A aventura iraniana
aprofundou a cisão entre Estados Unidos e Europa, agravando um cenário já
envenenado pelas tarifas unilaterais americanas e pelas ameaças da Casa Branca
de anexação da Groenlândia. Os aliados europeus rejeitaram engajar-se na guerra
de escolha de Trump. A Otan está
suspensa por um fio tênue, à mercê dos desvarios de Trump.
9. China e Rússia, por motivos
distintos, emergem triunfantes do desastre estratégico dos Estados Unidos. A
China beneficia-se da degradação da liderança dos Estados Unidos, aparecendo
como mediador responsável e fator de estabilização global. A Rússia
beneficia-se do aprofundamento da crise da Otan, que enfraquece o apoio militar
ocidental à Ucrânia. Xi e Putin erguem brindes à guerra catastrófica deflagrada
por Trump.
10. A “excursão” no Irã
assinala uma ruptura de dimensões históricas. Os Estados Unidos deixam de ser
vistos como potência confiável por seus aliados e como potência hegemônica por
seus inimigos. A palavra do presidente americano sofre desvalorização inédita.
As violações em série das leis internacionais cometidas pela Casa Branca e, em
particular, o ultimato repugnante de destruir “uma civilização inteira”
dissolvem a liderança moral americana. Declínio geopolítico: de hiperpotência
mundial, os Estados Unidos convertem-se em grande potência do Hemisfério Ocidental.
O rei está nu.

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