segunda-feira, 13 de abril de 2026

Irã, dez lições de um desastre estratégico, por Demétrio Magnoli

O Globo

Estados Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações

1. Os Estados Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações com o Irã. Apesar da devastação infligida às capacidades militares iranianas, não atingiram os variados e mutáveis objetivos políticos declarados por Trump. O Irã não renunciou a seus programas nuclear e de mísseis ou ao patrocínio das milícias regionais subordinadas. E, ainda, assumiu o controle efetivo do Estreito de Ormuz.

2. A decapitação do Líder Supremo e do círculo principal de dirigentes não provocou a implosão do regime iraniano, que é uma ditadura institucionalizada. O regime resistiu, com um deslizamento do núcleo de poder do clero xiita para a Guarda Revolucionária. O ataque brutal dos Estados Unidos e de Israel esvaziou o levante popular que abalava o regime e reconstituiu parcialmente sua base social interna.

3. O Irã inclina-se a substituir a política de enriquecimento de urânio sem a produção de bombas atômicas pela busca da construção de um arsenal nuclear. Depois de implodir o acordo nuclear negociado por Obama, Trump lançou as sementes do surgimento de uma Coreia do Norte no Oriente Médio.

4. Na guerra assimétrica, o Irã assumiu o controle do Estreito de Ormuz, o que impôs recuo humilhante aos Estados Unidos. Teerã aprendeu que, sem fechar fisicamente o estreito, tem os meios de sujeitar o tráfego de petroleiros às suas conveniências, inclusive à hipotética cobrança de taxas de trânsito. Nenhum acordo com o regime será capaz de anular o precedente. Daqui em diante, o regime iraniano usará como arma de dissuasão a prerrogativa de tomar como refém o mercado global de combustíveis.

5. O guarda-chuva de segurança dos Estados Unidos às monarquias do Golfo Pérsico perdeu credibilidade. A modernização das economias da região baseia-se na imagem de oásis seguros num Oriente Médio turbulento. As retaliações iranianas contra hotéis e infraestruturas energéticas revelaram a vulnerabilidade dos aliados árabes dos Estados Unidos. O controle iraniano do ponto de estrangulamento de Ormuz passa a representar uma ameaça direta à soberania dos países da região.

6. Os interesses dos Estados Unidos e de Israel não são, necessariamente, convergentes. Netanyahu convenceu Trump a deflagrar a guerra contra o Irã, apesar da oposição da corrente etnonacionalista do Maga e das reticências da cúpula militar americana. O fracasso tende a afastar Trump de Netanyahu. Não por acaso, na hora do acordo de trégua, o chefe de governo israelense não foi consultado.

7. Os Estados Unidos abandonaram um governo libanês comprometido com o desarmamento do Hezbollah, permitindo a campanha de bombardeios e a invasão israelense do sul do Líbano. A guerra de Israel desestabiliza o Líbano, colocando o vizinho à beira do precipício da guerra civil. A sabotagem do governo libanês propicia novas oportunidades ao Irã.

8. A aventura iraniana aprofundou a cisão entre Estados Unidos e Europa, agravando um cenário já envenenado pelas tarifas unilaterais americanas e pelas ameaças da Casa Branca de anexação da Groenlândia. Os aliados europeus rejeitaram engajar-se na guerra de escolha de Trump. A Otan está suspensa por um fio tênue, à mercê dos desvarios de Trump.

9. China e Rússia, por motivos distintos, emergem triunfantes do desastre estratégico dos Estados Unidos. A China beneficia-se da degradação da liderança dos Estados Unidos, aparecendo como mediador responsável e fator de estabilização global. A Rússia beneficia-se do aprofundamento da crise da Otan, que enfraquece o apoio militar ocidental à Ucrânia. Xi e Putin erguem brindes à guerra catastrófica deflagrada por Trump.

10. A “excursão” no Irã assinala uma ruptura de dimensões históricas. Os Estados Unidos deixam de ser vistos como potência confiável por seus aliados e como potência hegemônica por seus inimigos. A palavra do presidente americano sofre desvalorização inédita. As violações em série das leis internacionais cometidas pela Casa Branca e, em particular, o ultimato repugnante de destruir “uma civilização inteira” dissolvem a liderança moral americana. Declínio geopolítico: de hiperpotência mundial, os Estados Unidos convertem-se em grande potência do Hemisfério Ocidental. O rei está nu.

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