O Globo
O nível de endividamento das famílias
cresceu, e esse pode ser um dos fatores que erodem a popularidade de Lula.
Vá lá que seja. Segundo os alquimistas do Planalto, uma das causas desse
endividamento são as apostas eletrônicas. Vá lá que sejam, mas quem abriu a
porteira ao mercado de apostas foi o governo.
O ministro Fernando Haddad não fez isso para estimular a opção pelo risco. Foi pura e simples ganância arrecadatória. Em 2024, a ekipekonômika esperava arrecadar até R$ 3,4 bilhões com a venda de licenças para a tavolagem. Havia 113 propostas na fila, metade delas era de fancaria.
A iniciativa era o sonho do burocrata e do
ministro arrecadador. Do nada, arrumariam R$ 3,4 bilhões com as outorgas.
Rodando as maquininhas, as empresas pagariam 12% sobre sua receita bruta. Os
ganhadores seriam mordidos em 15% acima de um prêmio no valor de um salário
mínimo.
Foram desprezados argumentos contrários
vindos de setores categorizados da administração pública. A área da segurança
alertou sobre a infiltração do crime organizado nesse novo mercado. Os profissionais
da saúde advertiram sobre uma epidemia de distúrbios provocados pelo vício do
jogo. No espaço de um ano, os brasileiros perderam R$ 23,9 bilhões em sites de
apostas.
Diante desses números tristes, em setembro de
2024, Lula resolveu opinar no modo profeta:
— O Brasil sempre foi contra cassino,
qualquer tipo de jogo de azar. Hoje, através de um celular, o jogo está dentro
da casa da família, da sala — disse Lula. — Estamos percebendo no Brasil o
endividamento das pessoas mais pobres tentando ganhar dinheiro, fazendo
apostas. É um problema que vamos ter que regular, senão daqui a pouco vamos ter
cassino funcionando dentro da cozinha de cada casa.
E daí? Nada. Passaram dois anos, e o problema
continuou do mesmo tamanho, até que os alquimistas do Planalto assustaram-se
com o endividamento das famílias. Isso acontece porque a economia está andando
de lado, mas precisava-se de um bode. Escalaram as apostas. Ele tem chifre,
patas e barbicha porque o governo lhe deu.
Acordado para o efeito eleitoral do
endividamento, Lula removeu o modo profeta de 2024 e repetiu os mesmos
argumentos, colocando uma cereja no bolo: a criação de um programa Desenrola
2.0. O primeiro, concebido no início do governo, deu certo.
O perigo mora num Desenrola que replique o
Refis. Esse foi um programa criado para aliviar os penares das vítimas da carga
tributária. Sobretudo devedores do andar de cima. Bem desenhado, oferecia
prazos, descontos e perdões. Virou um narcótico e, até agora, já teve umas 20
edições.
Falta ao governo de Lula a coragem do general
Eurico Dutra. Em abril de 1946, o Brasil tinha lindos cassinos em Petrópolis,
na Urca e
em Copacabana.
Fechou-os todos. Hoje pode-se começar desligando as geringonças eletrônicas.

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