quarta-feira, 22 de abril de 2026

Lula perdeu a aposta, por Elio Gaspari

O Globo

O nível de endividamento das famílias cresceu, e esse pode ser um dos fatores que erodem a popularidade de Lula. Vá lá que seja. Segundo os alquimistas do Planalto, uma das causas desse endividamento são as apostas eletrônicas. Vá lá que sejam, mas quem abriu a porteira ao mercado de apostas foi o governo.

O ministro Fernando Haddad não fez isso para estimular a opção pelo risco. Foi pura e simples ganância arrecadatória. Em 2024, a ekipekonômika esperava arrecadar até R$ 3,4 bilhões com a venda de licenças para a tavolagem. Havia 113 propostas na fila, metade delas era de fancaria.

A iniciativa era o sonho do burocrata e do ministro arrecadador. Do nada, arrumariam R$ 3,4 bilhões com as outorgas. Rodando as maquininhas, as empresas pagariam 12% sobre sua receita bruta. Os ganhadores seriam mordidos em 15% acima de um prêmio no valor de um salário mínimo.

Foram desprezados argumentos contrários vindos de setores categorizados da administração pública. A área da segurança alertou sobre a infiltração do crime organizado nesse novo mercado. Os profissionais da saúde advertiram sobre uma epidemia de distúrbios provocados pelo vício do jogo. No espaço de um ano, os brasileiros perderam R$ 23,9 bilhões em sites de apostas.

Diante desses números tristes, em setembro de 2024, Lula resolveu opinar no modo profeta:

— O Brasil sempre foi contra cassino, qualquer tipo de jogo de azar. Hoje, através de um celular, o jogo está dentro da casa da família, da sala — disse Lula. — Estamos percebendo no Brasil o endividamento das pessoas mais pobres tentando ganhar dinheiro, fazendo apostas. É um problema que vamos ter que regular, senão daqui a pouco vamos ter cassino funcionando dentro da cozinha de cada casa.

E daí? Nada. Passaram dois anos, e o problema continuou do mesmo tamanho, até que os alquimistas do Planalto assustaram-se com o endividamento das famílias. Isso acontece porque a economia está andando de lado, mas precisava-se de um bode. Escalaram as apostas. Ele tem chifre, patas e barbicha porque o governo lhe deu.

Acordado para o efeito eleitoral do endividamento, Lula removeu o modo profeta de 2024 e repetiu os mesmos argumentos, colocando uma cereja no bolo: a criação de um programa Desenrola 2.0. O primeiro, concebido no início do governo, deu certo.

O perigo mora num Desenrola que replique o Refis. Esse foi um programa criado para aliviar os penares das vítimas da carga tributária. Sobretudo devedores do andar de cima. Bem desenhado, oferecia prazos, descontos e perdões. Virou um narcótico e, até agora, já teve umas 20 edições.

Falta ao governo de Lula a coragem do general Eurico Dutra. Em abril de 1946, o Brasil tinha lindos cassinos em Petrópolis, na Urca e em Copacabana. Fechou-os todos. Hoje pode-se começar desligando as geringonças eletrônicas.

 

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