segunda-feira, 27 de abril de 2026

Lula reforça agendas em SP e disputa ‘paternidade’ de projetos com Tarcísio

Por Cristiane Agostine e Marcello Corrêa / Valor Econômico

Presidente intensifica eventos no Estado após lançamento da pré-candidatura de Haddad

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aumentou neste ano sua presença em São Paulo e dobrou a participação em eventos no Estado após lançar a pré-candidatura do ex-ministro Fernando Haddad (PT) ao governo paulista, há pouco mais de um mês. Lula tenta reforçar bandeiras do governo federal no Estado e disputa a “paternidade” de obras com o governador de São Paulo e pré-candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

As campanhas de Lula e Haddad serão “casadas”, segundo o PT, e o desempenho eleitoral do presidente em São Paulo será fundamental para sua tentativa de reeleição. O presidente busca construir um palanque forte em São Paulo e tenta atrair apoio para Haddad, sobretudo no interior, que resiste à centro-esquerda.

Lula faria na segunda-feira (27) sua sétima viagem oficial ao Estado neste ano, para visitar duas cidades do interior, Presidente Prudente e Andradina. Por recomendação médica, depois de tratar um câncer de pele no couro cabeludo, na sexta-feira (24), a viagem foi cancelada e o presidente será representado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). O presidente, no entanto, insistiu para participar dos eventos nas duas cidades e deve falar remotamente, segundo a Presidência.

Com essas participações, Lula completará 17 eventos em São Paulo neste ano. Quatro deles foram antes de 19 de março, quando o presidente lançou a pré-candidatura de Haddad. No dia do lançamento, o presidente participou de três eventos no Estado. Depois do lançamento, foram oito eventos e mais dois previstos para esta segunda-feira, com a participação remota.

Neste ano, o presidente viajou 22 vezes a diferentes Estados. São Paulo lidera as viagens, com seis visitas oficiais. Nessa conta não estão incluídas as idas à capital paulista para fazer exames e procedimentos médicos, como os realizados na sexta-feira (24).

O número de viagens oficiais de Lula a São Paulo neste ano, até abril, é parecido com as sete realizadas ao Estado ao longo de 2023, por exemplo. E é quase a metade das viagens feitas em 2024 e 2025 - 14 em cada ano.

A divulgação das ações da gestão Lula no Estado deve ser reforçada também por Haddad a partir de maio, quando o pré-candidato petista pretende começar um giro pelo interior paulista. Outra aposta do presidente no Estado é a atuação do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que governou São Paulo por quatro mandatos e mantém um bom diálogo com prefeitos e empresários paulistas. Pré-candidatos ao Senado, os ex-ministros Simone Tebet (MDB), Márcio França (PSB) e Marina Silva (Rede) também devem reforçar a propaganda do governo petista.

Com 33,7 milhões de eleitores (21,5% do total do país), São Paulo é o maior colégio eleitoral do país e é estratégico para Lula. O presidente busca reduzir - e até reverter - a desvantagem em relação ao desempenho da oposição no Estado. O petista ampliou as agendas na capital, em grandes cidades da região metropolitana, como São Bernardo do Campo e Santo André, e em cidades-polo do interior, como São Carlos, Sorocaba e Araraquara.

Em parte das viagens a São Paulo neste ano, Lula participou de uma maratona de eventos no mesmo dia, para divulgar seu governo e exaltar Haddad, ex-ministro da Fazenda e ex-ministro da Educação de suas gestões. Em 19 de março, por exemplo, o presidente levou ministros para a capital paulista para divulgar programas de seu governo, disputar obras com Tarcísio e criticar o governador. Depois seguiu para outro evento oficial, em São Bernardo do Campo, e terminou o dia em um ato do PT para lançar Haddad. Menos de uma semana depois, voltou ao Estado para quatro eventos no mesmo dia, em três cidades diferentes.

Dirigentes do PT e integrantes da pré-campanha de Haddad afirmam que Lula continuará presente no Estado, com mais eventos oficiais e partidários, diferentemente do que aconteceu na campanha municipal de 2024, quando candidatos do campo progressista - especialmente a campanha do ministro e então candidato na capital, Guilherme Boulos (Psol) - tinham a expectativa de uma participação maior do presidente nos palanques, o que não aconteceu.

Além da presença de Lula em cidades paulistas e das viagens planejadas por Haddad e Alckmin, o governo federal lançou uma ofensiva publicitária no Estado, com propagandas até mesmo no transporte público e em parques na capital paulista, para disputar obras e projetos com Tarcísio de Freitas. Entre eles, estão o trem intercidades, o túnel Santos-Guarujá e a expansão de linhas do metrô - que serão realizados com recursos das duas gestões, estadual e federal.

Duas semanas depois do lançamento de Haddad, o governo federal anunciou a campanha publicitária para “apresentar obras, investimentos e políticas públicas realizadas desde 2023”, “iniciativas ligadas ao Novo PAC”, e mostrar “como ações federais têm impacto direto na vida dos paulistas”.

Além das obras de infraestrutura, o governo Lula destaca investimentos no Estado em educação, saúde e ações estratégicas de combate ao crime organizado - áreas sensíveis do governo Tarcísio, e que aparecem como as que mais preocupam a população do Estado, em pesquisas qualitativas contratadas pelo PT de São Paulo.

Em outra frente, Lula, Alckmin, Haddad, Simone Tebet e Márcio França buscam se aproximar de prefeitos do interior e dialogar com lideranças da centro-direita, especialmente do PSD. A avaliação do PT-SP é que parte dos prefeitos está descontente com Tarcísio. Há queixas sobre a falta de diálogo com o governador e críticas sobre ações da gestão estadual como os pedágios “free flow” (sem cancela) e problemas envolvendo a Sabesp, privatizada pelo governador.

Haddad pretende reforçar o diálogo com prefeitos nas viagens previstas a partir de maio. O pré-candidato e lideranças do PT e PSB têm feito acenos ao presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, que foi secretário de Governo de Tarcísio e deixou a gestão em meio a atritos com o governador. O PSD perdeu a vice na chapa de reeleição do governador e a influência na pré-campanha de Tarcísio. Kassab, no entanto, diz publicamente que apoia a reeleição do governador.

A expectativa no PT e PSB é de fazer um “acordo informal” com Kassab no Estado, que poderá ajudar Lula e Haddad a ter mais capilaridade no interior. O PSD elegeu o maior número de prefeituras do Estado em 2024, depois de avançar sobre o espólio eleitoral do PSDB.

Para tentar atrair o apoio de prefeitos e lideranças políticas no interior, onde o PT tem mais dificuldade, o governo Lula anunciou creches, escolas, quadras esportivas e ônibus escolares; institutos federais de ensino; crédito rural para a agricultura e apoio a empresários. Na saúde, prometeu ambulâncias e unidades de saúde, policlínicas, maternidade e unidades odontológicas móveis. Na segurança, anunciou ações para combater o crime organizado.

Na pré-campanha casada com Lula, Haddad nacionalizou o discurso, ao criticar o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), aliados de Tarcísio.

Lula tenta fazer com que Haddad seja um bom cabo eleitoral para sua pré-campanha no Estado. Em 2022, o ex-ministro deu ao PT seu melhor desempenho eleitoral em São Paulo, quando concorreu contra Tarcísio e foi derrotado no segundo turno. Haddad ajudou a campanha do presidente a diminuir sua desvantagem em relação a Jair Bolsonaro, na comparação com 2018. Para o PT, a votação de Lula em São Paulo foi essencial para a vitória do presidente.

Em 2018, quando Haddad foi candidato à Presidência, Lula estava preso e o PT não tinha um palanque forte na disputa paulista, o presidenciável petista recebeu 16,42% dos votos válidos no 1º turno em São Paulo, enquanto Bolsonaro teve 53%. Na disputa presidencial de 2022, Bolsonaro teve 47,71% no 1º turno e Lula, 40,89%. A diferença nas duas eleições entre os dois candidatos no 1º turno caiu de 8,5 milhões de votos para cerca de 2,4 milhões.

 

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