Por Cristiane Agostine e Marcello Corrêa / Valor Econômico
Presidente intensifica eventos no Estado após
lançamento da pré-candidatura de Haddad
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
aumentou neste ano sua presença em São Paulo e dobrou a participação em eventos
no Estado após lançar a pré-candidatura do ex-ministro Fernando Haddad (PT) ao
governo paulista, há pouco mais de um mês. Lula tenta reforçar bandeiras do
governo federal no Estado e disputa a “paternidade” de obras com o governador
de São Paulo e pré-candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
As campanhas de Lula e Haddad serão
“casadas”, segundo o PT, e o desempenho eleitoral do presidente em São Paulo
será fundamental para sua tentativa de reeleição. O presidente busca construir
um palanque forte em São Paulo e tenta atrair apoio para Haddad, sobretudo no
interior, que resiste à centro-esquerda.
Lula faria na segunda-feira (27) sua sétima viagem oficial ao Estado neste ano, para visitar duas cidades do interior, Presidente Prudente e Andradina. Por recomendação médica, depois de tratar um câncer de pele no couro cabeludo, na sexta-feira (24), a viagem foi cancelada e o presidente será representado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). O presidente, no entanto, insistiu para participar dos eventos nas duas cidades e deve falar remotamente, segundo a Presidência.
Com essas participações, Lula completará 17 eventos em São Paulo neste ano. Quatro deles foram antes de 19 de março, quando o presidente lançou a pré-candidatura de Haddad. No dia do lançamento, o presidente participou de três eventos no Estado. Depois do lançamento, foram oito eventos e mais dois previstos para esta segunda-feira, com a participação remota.
Neste ano, o presidente viajou 22 vezes a
diferentes Estados. São Paulo lidera as viagens, com seis visitas oficiais.
Nessa conta não estão incluídas as idas à capital paulista para fazer exames e
procedimentos médicos, como os realizados na sexta-feira (24).
O número de viagens oficiais de Lula a São
Paulo neste ano, até abril, é parecido com as sete realizadas ao Estado ao
longo de 2023, por exemplo. E é quase a metade das viagens feitas em 2024 e
2025 - 14 em cada ano.
A divulgação das ações da gestão Lula no
Estado deve ser reforçada também por Haddad a partir de maio, quando o
pré-candidato petista pretende começar um giro pelo interior paulista. Outra
aposta do presidente no Estado é a atuação do vice-presidente Geraldo Alckmin
(PSB), que governou São Paulo por quatro mandatos e mantém um bom diálogo com
prefeitos e empresários paulistas. Pré-candidatos ao Senado, os ex-ministros
Simone Tebet (MDB), Márcio França (PSB) e Marina Silva (Rede) também devem
reforçar a propaganda do governo petista.
Com 33,7 milhões de eleitores (21,5% do total
do país), São Paulo é o maior colégio eleitoral do país e é estratégico para
Lula. O presidente busca reduzir - e até reverter - a desvantagem em relação ao
desempenho da oposição no Estado. O petista ampliou as agendas na capital, em
grandes cidades da região metropolitana, como São Bernardo do Campo e Santo
André, e em cidades-polo do interior, como São Carlos, Sorocaba e Araraquara.
Em parte das viagens a São Paulo neste ano,
Lula participou de uma maratona de eventos no mesmo dia, para divulgar seu
governo e exaltar Haddad, ex-ministro da Fazenda e ex-ministro da Educação de
suas gestões. Em 19 de março, por exemplo, o presidente levou ministros para a
capital paulista para divulgar programas de seu governo, disputar obras com
Tarcísio e criticar o governador. Depois seguiu para outro evento oficial, em
São Bernardo do Campo, e terminou o dia em um ato do PT para lançar Haddad.
Menos de uma semana depois, voltou ao Estado para quatro eventos no mesmo dia,
em três cidades diferentes.
Dirigentes do PT e integrantes da
pré-campanha de Haddad afirmam que Lula continuará presente no Estado, com mais
eventos oficiais e partidários, diferentemente do que aconteceu na campanha
municipal de 2024, quando candidatos do campo progressista - especialmente a
campanha do ministro e então candidato na capital, Guilherme Boulos (Psol) -
tinham a expectativa de uma participação maior do presidente nos palanques, o
que não aconteceu.
Além da presença de Lula em cidades paulistas
e das viagens planejadas por Haddad e Alckmin, o governo federal lançou uma
ofensiva publicitária no Estado, com propagandas até mesmo no transporte
público e em parques na capital paulista, para disputar obras e projetos com
Tarcísio de Freitas. Entre eles, estão o trem intercidades, o túnel
Santos-Guarujá e a expansão de linhas do metrô - que serão realizados com
recursos das duas gestões, estadual e federal.
Duas semanas depois do lançamento de Haddad,
o governo federal anunciou a campanha publicitária para “apresentar obras,
investimentos e políticas públicas realizadas desde 2023”, “iniciativas ligadas
ao Novo PAC”, e mostrar “como ações federais têm impacto direto na vida dos
paulistas”.
Além das obras de infraestrutura, o governo Lula
destaca investimentos no Estado em educação, saúde e ações estratégicas de
combate ao crime organizado - áreas sensíveis do governo Tarcísio, e que
aparecem como as que mais preocupam a população do Estado, em pesquisas
qualitativas contratadas pelo PT de São Paulo.
Em outra frente, Lula, Alckmin, Haddad,
Simone Tebet e Márcio França buscam se aproximar de prefeitos do interior e
dialogar com lideranças da centro-direita, especialmente do PSD. A avaliação do
PT-SP é que parte dos prefeitos está descontente com Tarcísio. Há queixas sobre
a falta de diálogo com o governador e críticas sobre ações da gestão estadual
como os pedágios “free flow” (sem cancela) e problemas envolvendo a Sabesp,
privatizada pelo governador.
Haddad pretende reforçar o diálogo com
prefeitos nas viagens previstas a partir de maio. O pré-candidato e lideranças
do PT e PSB têm feito acenos ao presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab,
que foi secretário de Governo de Tarcísio e deixou a gestão em meio a atritos
com o governador. O PSD perdeu a vice na chapa de reeleição do governador e a
influência na pré-campanha de Tarcísio. Kassab, no entanto, diz publicamente
que apoia a reeleição do governador.
A expectativa no PT e PSB é de fazer um
“acordo informal” com Kassab no Estado, que poderá ajudar Lula e Haddad a ter
mais capilaridade no interior. O PSD elegeu o maior número de prefeituras do
Estado em 2024, depois de avançar sobre o espólio eleitoral do PSDB.
Para tentar atrair o apoio de prefeitos e
lideranças políticas no interior, onde o PT tem mais dificuldade, o governo
Lula anunciou creches, escolas, quadras esportivas e ônibus escolares;
institutos federais de ensino; crédito rural para a agricultura e apoio a
empresários. Na saúde, prometeu ambulâncias e unidades de saúde, policlínicas,
maternidade e unidades odontológicas móveis. Na segurança, anunciou ações para
combater o crime organizado.
Na pré-campanha casada com Lula, Haddad
nacionalizou o discurso, ao criticar o senador e pré-candidato à Presidência
Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), aliados de
Tarcísio.
Lula tenta fazer com que Haddad seja um bom
cabo eleitoral para sua pré-campanha no Estado. Em 2022, o ex-ministro deu ao
PT seu melhor desempenho eleitoral em São Paulo, quando concorreu contra Tarcísio
e foi derrotado no segundo turno. Haddad ajudou a campanha do presidente a
diminuir sua desvantagem em relação a Jair Bolsonaro, na comparação com 2018.
Para o PT, a votação de Lula em São Paulo foi essencial para a vitória do
presidente.
Em 2018, quando Haddad foi candidato à
Presidência, Lula estava preso e o PT não tinha um palanque forte na disputa
paulista, o presidenciável petista recebeu 16,42% dos votos válidos no 1º turno
em São Paulo, enquanto Bolsonaro teve 53%. Na disputa presidencial de 2022,
Bolsonaro teve 47,71% no 1º turno e Lula, 40,89%. A diferença nas duas eleições
entre os dois candidatos no 1º turno caiu de 8,5 milhões de votos para cerca de
2,4 milhões.

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