quinta-feira, 23 de abril de 2026

Malabarismos verbais, por Merval Pereira

O Globo

Zema se põe no centro da polêmica eleitoral porque se sente livre para criticar os que considera seus adversários, no papel de franco-atirador, sem “rabo preso”, como gosta de afirmar.

O ex-governador de Minas Romeu Zema dobrou a aposta e voltou a criticar o Supremo Tribunal Federal (STF) depois que o ministro Gilmar Mendes pediu a seu colega Alexandre de Moraes que o incluísse no inquérito das fake news devido a críticas por meio de uma sátira de fantoches. Com isso, Gilmar transforma em realidade a piada que corre pela internet com Moraes ameaçando:

— Vou te colocar no inquérito.

Zema se põe no centro da polêmica eleitoral porque se sente livre para criticar os que considera seus adversários, no papel de franco-atirador, sem “rabo preso”, como gosta de afirmar.

Com isso, pode surgir em próximas pesquisas mais bem colocado na disputa dentro da direita. Dependendo dos acontecimentos, o senador Flávio Bolsonaro pode perder votos para Zema ou Ronaldo Caiado. Ou então se firmar como o preferido dos eleitores da direita. Mas Flávio, que joga parado até agora, terá de se mexer para não perder pontos para Zema na disputa com o Supremo. A soma dos candidatos desse nicho eleitoral sugere que, num segundo turno, o mais bem votado receberá os votos dados aos demais representantes do antilulismo, e dificilmente o presidente Lula terá condições de superá-los, ainda mais no primeiro turno.

Os ex-governadores de Minas e de Goiás têm, também, condições melhores que Flávio de receber votos do eleitorado de centro-direita, e a transferência pode não ser completa por causa disso, pois o senador bolsonarista desagrada a muitos eleitores centristas. Continuando nessa batida agressiva, Zema pode também assustar o eleitor de centro. Os dois candidatos mais rejeitados pelo eleitorado, para vencer a eleição, terão, no segundo turno, de convencer eleitores de centro de que são a melhor alternativa para quem não quer um ou outro.

Flávio, para isso, vende-se como um “Bolsonaro moderado”, o que por si só é um oximoro. O futuro do bolsonarismo seria ele, mas será difícil entender como, defendendo as atitudes do pai e afirmando que não houve tentativa de golpe, pode convencer os não convertidos de que é diferente da prole. O futuro é ofuscado pelo passado da família. Lula, em contraste, vive do passado, e seu terceiro mandato é rejeitado pela maioria da população. A imagem de um líder popular que teve papel importante nos programas sociais fica nublada por mensalão, petrolão e pela prisão na Operação Lava-Jato.

É tão difícil desgrudar de Lula essa imagem de corrupto quanto a de golpista de Flávio e sua família. Na campanha de 2022, ele conseguiu vencer por ter convencido a maioria dos eleitores centristas de que representava a defesa da democracia e de que faria um governo de união nacional. Agora, não tem mais essa carta na mão. Ou pelo menos não com tanta facilidade. A defesa da soberania nacional é o mote atual, aproveitando que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, continua atravessando a rua para escorregar nas cascas de banana que ele mesmo jogou.

Enquanto Flávio, quando viaja, reassume a postura radical da família e faz questão de exibir a influência junto a Trump, Lula explora em suas viagens internacionais as críticas à política externa de Trump, na esperança de colocar-se como barreira entre ele e o povo brasileiro. A interdição do adido da Polícia Federal em Miami foi uma boa oportunidade para demonstrar independência, embora seja difícil acreditar que o brasileiro não tenha tentado encurtar caminho para conseguir a extradição do ex-deputado federal Ramagem, burlando as normas da legislação americana. Por sinal, o próprio governo americano as dribla mandando para fora do país quem está com sua documentação em trâmites de regularização. A politização do caso parece ter ocorrido de ambos os lados, mostrando que o governo Trump será tema inevitável da próxima campanha presidencial. Os dois candidatos que lideram a pesquisa terão de fazer malabarismos verbais para agradar a vários níveis do eleitorado, sem perder a essência.

 

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