O Globo
Zema se põe no centro da polêmica eleitoral
porque se sente livre para criticar os que considera seus adversários, no papel
de franco-atirador, sem “rabo preso”, como gosta de afirmar.
O ex-governador de Minas Romeu Zema dobrou a
aposta e voltou a criticar o Supremo Tribunal Federal (STF) depois que o
ministro Gilmar Mendes pediu a seu colega Alexandre de Moraes que o incluísse
no inquérito das fake news devido a críticas por meio de uma sátira de
fantoches. Com isso, Gilmar transforma em realidade a piada que corre pela
internet com Moraes ameaçando:
— Vou te colocar no inquérito.
Zema se põe no centro da polêmica eleitoral porque se sente livre para criticar os que considera seus adversários, no papel de franco-atirador, sem “rabo preso”, como gosta de afirmar.
Com isso, pode surgir em próximas pesquisas
mais bem colocado na disputa dentro da direita. Dependendo dos acontecimentos,
o senador Flávio Bolsonaro pode perder votos para Zema ou Ronaldo Caiado. Ou
então se firmar como o preferido dos eleitores da direita. Mas Flávio, que joga
parado até agora, terá de se mexer para não perder pontos para Zema na disputa
com o Supremo. A soma dos candidatos desse nicho eleitoral sugere que, num
segundo turno, o mais bem votado receberá os votos dados aos demais
representantes do antilulismo, e dificilmente o presidente Lula terá condições de
superá-los, ainda mais no primeiro turno.
Os ex-governadores de Minas e de Goiás têm,
também, condições melhores que Flávio de receber votos do eleitorado de
centro-direita, e a transferência pode não ser completa por causa disso, pois o
senador bolsonarista desagrada a muitos eleitores centristas. Continuando nessa
batida agressiva, Zema pode também assustar o eleitor de centro. Os dois
candidatos mais rejeitados pelo eleitorado, para vencer a eleição, terão, no
segundo turno, de convencer eleitores de centro de que são a melhor alternativa
para quem não quer um ou outro.
Flávio, para isso, vende-se como um
“Bolsonaro moderado”, o que por si só é um oximoro. O futuro do bolsonarismo
seria ele, mas será difícil entender como, defendendo as atitudes do pai e
afirmando que não houve tentativa de golpe, pode convencer os não convertidos
de que é diferente da prole. O futuro é ofuscado pelo passado da família. Lula,
em contraste, vive do passado, e seu terceiro mandato é rejeitado pela maioria
da população. A imagem de um líder popular que teve papel importante nos
programas sociais fica nublada por mensalão, petrolão e pela prisão na Operação
Lava-Jato.
É tão difícil desgrudar de Lula essa imagem
de corrupto quanto a de golpista de Flávio e sua família. Na campanha de 2022,
ele conseguiu vencer por ter convencido a maioria dos eleitores centristas de
que representava a defesa da democracia e de que faria um governo de união
nacional. Agora, não tem mais essa carta na mão. Ou pelo menos não com tanta
facilidade. A defesa da soberania nacional é o mote atual, aproveitando que o
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, continua atravessando a rua para
escorregar nas cascas de banana que ele mesmo jogou.
Enquanto Flávio, quando viaja, reassume a
postura radical da família e faz questão de exibir a influência junto a Trump,
Lula explora em suas viagens internacionais as críticas à política externa de
Trump, na esperança de colocar-se como barreira entre ele e o povo brasileiro.
A interdição do adido da Polícia Federal em Miami foi uma boa oportunidade para
demonstrar independência, embora seja difícil acreditar que o brasileiro não
tenha tentado encurtar caminho para conseguir a extradição do ex-deputado
federal Ramagem, burlando as normas da legislação americana. Por sinal, o
próprio governo americano as dribla mandando para fora do país quem está com
sua documentação em trâmites de regularização. A politização do caso parece ter
ocorrido de ambos os lados, mostrando que o governo Trump será tema inevitável
da próxima campanha presidencial. Os dois candidatos que lideram a pesquisa
terão de fazer malabarismos verbais para agradar a vários níveis do eleitorado,
sem perder a essência.

Nenhum comentário:
Postar um comentário