Valor Econômico
Caso reforça argumentos dos que defendem que
a atuação dos órgãos reguladores do sistema financeiro passe a ser acompanhada
por auditores externos
Houve um tempo em que o Banco Central do Brasil funcionava como um grande mercadão, tipo feira livre, tantas eram as ingerências políticas que sofria. O peso das pressões causou profunda instabilidade no funcionamento da instituição, evidenciada pela rotatividade dos seus dirigentes. Em apenas oito anos, de agosto de 1985 a setembro de 1993, por ali passaram dez presidentes diferentes (e dez diretorias) sem contar com os interinos. Uma média de pouco mais de 9 meses de mandato para cada um.
Os bancos estaduais contribuíam para a
vulnerabilidade do BC. Cada Estado da federação tinha um banco público próprio,
via de regra com problemas de liquidez. Funcionavam como cabide de emprego para
os amigos do governador e de políticos aliados. Viviam pendurados no compulsório
do Banco Central. A rigor, atuavam como emissores de moeda, disputando a
primazia com a autoridade monetária. O último a ser privatizado foi o Banco do
Estado da Paraíba (Paraiban), em 2001, depois da venda do Banespa, de São
Paulo, em 2000.
Mas não sumiram de vez. O Banrisul continua
atrelado ao governo do Rio Grande do Sul e o Banco Regional de Brasília (BRB),
vinculado ao governo do Distrito Federal. O recente escândalo em torno do Banco
Master e seus dirigentes reitera, vinte e cinco anos depois, os efeitos danosos
das ingerências políticas nas instituições públicas e, de resto, em todo o
sistema financeiro.
Ainda não está claro o desfecho das operações
que levaram o BRB a comprar carteiras de crédito do Master, boa parte com
suspeita de comprometimento. São duas as questões relevantes: quem vai pagar a
conta dos créditos contaminados, se o governo do DF ou, no frigir dos ovos, o
governo federal; e qual o destino do BRB, sabendo-se dos problemas históricos
que rondam os bancos estaduais.
Por tudo o que envolve, desde a emissão de
títulos altamente “rentáveis” sem lastro, passando pela desfaçatez de oferecer
como garantia, de antemão, os recursos do Fundo Garantidor de Crédito
(recolhido pelos próprios bancos para os casos de inadimplência), pela teia de
relações financeiras com fundos de fachada e pela cooptação dos recursos dos
fundos de pensão dos funcionários de Estados e municípios, até culminar com a
tentativa de acordo para ser comprado pelo BRB, o mega escândalo do Banco
Master e das instituições satélites coloca uma grande nódoa, bem escura, na
reputação do Banco Central.
É como se tivéssemos voltado no tempo. Sem
entrar aqui no mérito da gravidade das suspeitas que recaem sobre o STF, um
colegiado enxuto que se autodenomina “guardião da Constituição” — o que,
efetivamente, deveria ser por todos os aspectos relacionados, inclusive os de
caráter moral e ético — e sem isentar os deputados e senadores inclinados a
favorecer os dirigentes do Banco Master, é preciso destacar com similar assombro
os indícios de envolvimento no caso de dois funcionários do BC. Igualmente
assombrosa é a decisão do BC de impor sigilo de oito anos aos documentos da
liquidação do Master.
O retrocesso remonta às situações obscuras
ocorridas na época da ditadura, quando o sigilo imperava. Nada era explicado,
nada era perguntado, ignorando-se o dever do Estado em prestar contas à
sociedade.
Com a redemocratização, os escândalos
financeiros passaram a ser mais conhecidos. O primeiro deles ocorreu em 1989
quando Elmo Camões era presidente do BC e mantinha em funcionamento a
distribuidora Capitânea, dirigida pelo seu filho Elminho. O caso envolveu a
manipulação do mercado de ações capitaneada pelo então mega investidor Naji
Nahas.
Talvez o Banco Econômico, com sede em Salvador
e que chegou a ser importante no país, tenha sido o mais duradouro exemplo de
ingerência política no BC. Já no início da década de 80 havia suspeitas de
irregularidades na administração de Ângelo Calmon de Sá, conhecida figura dos
governos militares, amigo íntimo do então todo poderoso Antônio Carlos
Magalhães (famoso ACM), que foi senador, governador da Bahia e ministro de
Sarney (1985 a 1990).
Em 1989, o governo desconsiderou um relatório
que classificava como temerária a gestão do Econômico. Em 1990, novo relatório
recomendou a intervenção no banco com base nos processos que indicavam
empréstimos irregulares do Econômico a empresas ligadas a diretores da própria
instituição. Este relatório foi arquivado pela diretoria do BC. Escusado
mencionar a influência de ACM naquelas decisões.
A situação arrastou-se por anos até o
Econômico sofrer intervenção em 1995 e ser liquidado em 1996. Não sem que ACM
tenha tentado impedir. O então presidente do BC, Gustavo Loyola, foi vítima de
constantes assédios de ACM tendo como pano de fundo a famosa pasta cor de rosa
encontrada na sede do Econômico, com a lista de doações ilícitas a diversos
políticos sustentadas por notas fiscais falsas como forma de “legalizar” as
operações.
Outros bancos desapareceram em 1995, como o
Nacional e o Bamerindus, todos por prática de fraudes contábeis.
Em janeiro de 1999, como se recorda, os
bancos Marka e FonteCindam foram pegos no contrapé quando o valor do dólar
disparou em meio ao imbróglio da mudança na política cambial. Ambos foram socorridos
pelo BC, mas não escaparam das acusações de terem recebido informação
privilegiada. No caso, teriam sido informações equivocadas.
O caso do Banco Master, pelo montante e
abrangência, tem contornos infinitamente mais preocupantes. Não apenas pelos
indícios de envolvimento de funcionários do BC, mas pela demora da liquidação.
Supõe-se que os órgãos de fiscalização do BC e também da CVM soubessem das
inúmeras operações suspeitas desencadeadas há tempos pelo Master e os fundos a
ele ligados. Se não sabiam, é igualmente inquietante.
Deve-se registrar que não há punição passível
de ser aplicada aos órgãos de fiscalização do sistema financeiro sempre que
comprovada displicência ou morosidade para estancar as fraudes das
instituições. Em si, isso é uma falha. Sem falar na falta de acompanhamento
regular das atividades do BC e da CVM relacionadas à regulação e fiscalização
do sistema financeiro. Faz sentido a sugestão de alguns analistas no sentido de
que a atuação daqueles órgãos reguladores passe a ser acompanhada por auditores
externos.

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