sábado, 11 de abril de 2026

Morreu de São Paulo, Brasil, por Flávia Oliveira

O Globo

Violência policial ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos

Múltiplas mazelas brasileiras confluíram para a morte de Thawanna da Silva Salmázio, às vésperas de completar 32 anos, na madrugada da Sexta-Feira Santa, feriado sagrado para os cristãos. Aconteceu em Cidade Tiradentes, Zona Leste da capital paulista. Poderia ter ocorrido em qualquer comunidade, favela, quebrada, invasão, periferia de metrópoles brasileiras. A violência policial praticada pela soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, há três meses em estágio supervisionado na PM-SP, foi a face mais visível da tragédia que, por uma banalidade, ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos.

O Brasil tem produzido órfãos em escala inaceitável. A situação é grave a ponto de o presidente da República ter sancionado a Lei 14.717/2023, que instituiu pensão de um salário mínimo para filhos e dependentes menores de 18 anos de vítimas de feminicídio. O Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (UEL) contou 683 meninos e meninas que perderam suas mães, apenas no primeiro semestre do ano passado. Nesta semana, a filha de Gisele Alves Santana, também policial militar em São Paulo, começou a receber a pensão a que terá direito até os 18 anos, pela perda da mãe. O valor corresponde a cerca de um terço da aposentadoria rapidamente concedida ao tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso por suspeita de assassinar a então mulher.

Thawanna deixou cinco crianças. Sua vida não foi abreviada por marido, companheiro, namorado ou ex, infortúnio de 1.568 brasileiras no ano passado. Morreu em decorrência de outra anomalia nacional, a brutalidade de agentes do Estado. Foi atingida pelo disparo único de uma policial dez anos mais nova. Como assinalou a Anistia Internacional Brasil em nota sobre o crime, a novata não usava câmera corporal, mas portava a arma de fogo que não hesitou em sacar. O caso foi registrado inicialmente na delegacia como resistência.

O episódio que pôs fim à vida da trabalhadora autônoma foi registrado pela câmera corporal do PM Weden Silva Soares, parceiro da soldado Yasmin. O equipamento não inibiu a abordagem indevida nem impediu o assassinato, mas foi essencial para esclarecer o episódio e enlutar o país. A perseguição a uma motocicleta levou o par de policiais à Rua Edimundo Audran, em Cidade Tiradentes. O retrovisor da viatura tocou no braço de Luciano Gonçalvez dos Santos, que caminhava com a mulher pelo asfalto.

Thawanna estaria viva se vivesse num país menos desigual, num estado que não abandonasse áreas periféricas à própria sorte, numa cidade com urbanização bem feita. Morreu porque, diferentemente dos bairros ricos, seu CEP não dá direito a calçadas amplas, em que moradores não disputam espaço com carros e motos. Perdeu a vida porque era pobre e se arriscou à dupla violência: do trânsito e da polícia. Tivesse outro endereço, viveria.

Aqui não se trata de especulação. Em entrevista ao portal UOL, em agosto de 2017, o tenente-coronel Mello Araújo, então comandante da Rota, tropa de elite da PM-SP, hoje vice-prefeito da capital, declarou que a forma de abordagem dos agentes nos Jardins, área abastada da cidade, é diferente da periferia:

— É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma dele abordar tem que ser diferente. Se ele [policial] for abordar uma pessoa [na periferia] da mesma forma que uma pessoa aqui nos Jardins, vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado. Da mesma forma, se eu coloco um [policial] da periferia para lidar, falar com a mesma linguagem de uma pessoa da periferia aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro. O policial tem que se adaptar àquele meio em que está naquele momento.

Em quase nove anos, o livro-texto não parece ter sido atualizado. Depois de esbarrar no marido de Thawanne, o soldado Weden deu marcha a ré na viatura e abordou o casal com rispidez e um palavrão, conforme os registros da câmera corporal obtidos pelo repórter Lucas Jozino, da TV Globo e do g1 SP:

— A rua é lugar para você tá andando, c***lho?

A ocorrência, que inexistia, começou ali, com a abordagem indevida de um policial, a atitude intempestiva da colega, que saiu da viatura, discutiu com Thawanna e, minutos depois, a matou. A vítima, filha, esposa e mãe de cinco filhos menores de 16 anos, ainda esperou meia hora por socorro. Reportagem de Gustavo Honório, do g1 SP, mostrou que o resgate foi solicitado 40 segundos após o tiro, mas o Corpo de Bombeiros só chegou 30 minutos depois, ainda que houvesse bases da corporação a seis e a 13 minutos do local. Na PM-SP, a meta para atendimentos de emergência é de até 20 minutos.

A existência de uma jovem mãe foi abreviada por morar onde morava, caminhar onde caminhava. Por motivo banal, sofrer abordagem policial indevida, levar um tiro de uma agente da lei e, baleada, permanecer desassistida. Morreu de São Paulo. Morreu de Brasil.

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