O Globo
Violência policial ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos
Múltiplas mazelas brasileiras confluíram para a morte de Thawanna da Silva Salmázio, às vésperas de completar 32 anos, na madrugada da Sexta-Feira Santa, feriado sagrado para os cristãos. Aconteceu em Cidade Tiradentes, Zona Leste da capital paulista. Poderia ter ocorrido em qualquer comunidade, favela, quebrada, invasão, periferia de metrópoles brasileiras. A violência policial praticada pela soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, há três meses em estágio supervisionado na PM-SP, foi a face mais visível da tragédia que, por uma banalidade, ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos.
O Brasil tem produzido órfãos em escala
inaceitável. A situação é grave a ponto de o presidente da República ter
sancionado a Lei 14.717/2023, que instituiu pensão de um salário mínimo para
filhos e dependentes menores de 18 anos de vítimas de feminicídio. O
Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina
(UEL) contou 683 meninos e meninas que perderam suas mães, apenas no primeiro
semestre do ano passado. Nesta semana, a filha de Gisele Alves Santana, também
policial militar em São Paulo, começou
a receber a pensão a que terá direito até os 18 anos, pela perda da mãe. O
valor corresponde a cerca de um terço da aposentadoria rapidamente concedida ao
tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso por suspeita de assassinar a
então mulher.
Thawanna deixou cinco crianças. Sua vida não
foi abreviada por marido, companheiro, namorado ou ex, infortúnio de 1.568
brasileiras no ano passado. Morreu em decorrência de outra anomalia nacional, a
brutalidade de agentes do Estado. Foi atingida pelo disparo único de uma
policial dez anos mais nova. Como assinalou a Anistia Internacional Brasil em
nota sobre o crime, a novata não usava câmera corporal, mas portava a arma de
fogo que não hesitou em sacar. O caso foi registrado inicialmente na delegacia
como resistência.
O episódio que pôs fim à vida da trabalhadora
autônoma foi registrado pela câmera corporal do PM Weden Silva Soares, parceiro
da soldado Yasmin. O equipamento não inibiu a abordagem indevida nem impediu o
assassinato, mas foi essencial para esclarecer o episódio e enlutar o país. A
perseguição a uma motocicleta levou o par de policiais à Rua Edimundo Audran, em
Cidade Tiradentes. O retrovisor da viatura tocou no braço de Luciano Gonçalvez
dos Santos, que caminhava com a mulher pelo asfalto.
Thawanna estaria viva se vivesse num país
menos desigual, num estado que não abandonasse áreas periféricas à própria
sorte, numa cidade com urbanização bem feita. Morreu porque, diferentemente dos
bairros ricos, seu CEP não dá direito a calçadas amplas, em que moradores não
disputam espaço com carros e motos. Perdeu a vida porque era pobre e se
arriscou à dupla violência: do trânsito e da polícia. Tivesse outro endereço,
viveria.
Aqui não se trata de especulação. Em
entrevista ao portal UOL, em agosto de 2017, o tenente-coronel Mello Araújo,
então comandante da Rota, tropa de elite da PM-SP, hoje vice-prefeito da
capital, declarou que a forma de abordagem dos agentes nos Jardins, área
abastada da cidade, é diferente da periferia:
— É uma outra realidade. São pessoas
diferentes que transitam por lá. A forma dele abordar tem que ser diferente. Se
ele [policial] for abordar uma pessoa [na periferia] da mesma forma que uma
pessoa aqui nos Jardins, vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado. Da
mesma forma, se eu coloco um [policial] da periferia para lidar, falar com a
mesma linguagem de uma pessoa da periferia aqui no Jardins, ele pode estar
sendo grosseiro. O policial tem que se adaptar àquele meio em que está naquele
momento.
Em quase nove anos, o livro-texto não parece
ter sido atualizado. Depois de esbarrar no marido de Thawanne, o soldado Weden
deu marcha a ré na viatura e abordou o casal com rispidez e um palavrão,
conforme os registros da câmera corporal obtidos pelo repórter Lucas Jozino, da
TV Globo e do g1 SP:
— A rua é lugar para você tá andando,
c***lho?
A ocorrência, que inexistia, começou ali, com
a abordagem indevida de um policial, a atitude intempestiva da colega, que saiu
da viatura, discutiu com Thawanna e, minutos depois, a matou. A vítima, filha,
esposa e mãe de cinco filhos menores de 16 anos, ainda esperou meia hora por
socorro. Reportagem de Gustavo Honório, do g1 SP, mostrou que o resgate foi
solicitado 40 segundos após o tiro, mas o Corpo de Bombeiros só chegou 30
minutos depois, ainda que houvesse bases da corporação a seis e a 13 minutos do
local. Na PM-SP, a meta para atendimentos de emergência é de até 20 minutos.
A existência de uma jovem mãe foi abreviada
por morar onde morava, caminhar onde caminhava. Por motivo banal, sofrer
abordagem policial indevida, levar um tiro de uma agente da lei e, baleada,
permanecer desassistida. Morreu de São Paulo. Morreu de Brasil.

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