O Globo
Há um bar na Lapa, uma déli no Leblon e
praias da Bahia onde a xenofobia e o antissemitismo ergueram barricadas
É 1944. Vinícius de Moraes acorda com uma
sensação indizível e bebe do copo vazio uma substância violeta, com peso
específico de sonho. Era o ar da primavera.
Sente o cheiro da filha — “mistura de talco,
suorzinho, lavanda, xixi, sabonete, leite e sono”. Depois, o da Praia do
Leblon, que não cheirava a rosas: era o esgoto onde se banhavam igualmente a
criançada rica e a da Praia do Pinto.
Percebe, também, súbito, um cheiro de nazismo. Branco, inodoro, com laivos de salsicha, chope, cachorro policial, radiotelegrafia e cemitério. Que talvez viesse de algum bar ou café, “desses onde se reúnem nazistas conhecidos e desconhecidos”. Chegam, a seguir, outros cheiros: de amor, solidão, mar, mosca que voeja, madeira, sol, gato. Mas fiquemos neste, o do nazismo.
Apure os sentidos. Sentiu? A origem é o mesmo
Leblon de Vinícius, já sem a favela da Praia do Pinto, dispersada em 1969.
Emana agora de uma delicatéssen, com o aroma de pães e especiarias. É Pessach,
a Páscoa judaica, mas não há matzá, o pão ázimo, à venda. O dono está “cansado
de judeus” e não quer mais atender esse público.
Vire as narinas noutra direção: o fedor vem
da Lapa. De
um bar “antifascista”, em cuja porta o cartaz avisa que cidadãos israelenses e
norte-americanos não são bem-vindos. Respire mais fundo, e é de Itacaré, de
Morro de São Paulo, que chega a pestilência dos militantes a hostilizar
turistas de Israel.
Lembra-se dos clubes que não aceitavam
pretos? Das instituições onde mulheres não entravam? Dos lugares em que
demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo eram motivo de expulsão?
Pois há um bar na Lapa, uma déli no Leblon e praias da Bahia onde a xenofobia e
o antissemitismo ergueram barricadas — e a Constituição Federal, a Lei dos
Crimes Raciais e o Código de Defesa do Consumidor não valem. Dali, os direitos
humanos no pasarán.
Agora substitua os indesejados por “angolanos
e haitianos”, “gays, lésbicas e trans”, “cadeirantes e autistas” e veja o que
acontece. Troque a frase do dono da déli por “não vendo mais produtos árabes;
estou cansado dos muçulmanos”. Pense em ativistas perseguindo praticantes de
religiões de matriz africana de férias em Santa Catarina. Quem contribuiu com
R$ 500 para o transporte dos manifestantes do 8 de Janeiro pegou 14 anos de
cadeia. Haverá consequências para quem faz vaquinha para pagar a multa e bancar
os advogados do bar da Lapa, da déli do Leblon?
Há gente que se acostumou a ignorar a lei e
criar as próprias regras — como essa de afrodescendentes não poderem ser
agentes de racismo, apenas vítimas. Nessa visão torta, a discriminação baseada
na crença de superioridade de um grupo sobre outro, com base em características
físicas, cor da pele, origem étnica, é de mão única:
— Quando sou discriminado, é racismo; quando
sou eu que discrimino, não é.
Sentiu o ranço da dupla moral? Não são poucos
os que exalam esse miasma. Parte da imprensa os apoia, velada ou abertamente. A
“elite intelectual” os aplaude. Quem está no poder os acolhe e protege.
Vinícius, que conseguia sentir cheiro de
riso, de pureza, de sobrenatural — e até o cheiro mágico de paz — haveria de
estar hoje perplexo com a origem desse bafo podre, com laivos de superioridade
moral, intolerância, desumanização e ódio. É outono, 2026.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.