sábado, 11 de abril de 2026

Sentido da primavera, 2026, por Eduardo Affonso

O Globo

Há um bar na Lapa, uma déli no Leblon e praias da Bahia onde a xenofobia e o antissemitismo ergueram barricadas

É 1944. Vinícius de Moraes acorda com uma sensação indizível e bebe do copo vazio uma substância violeta, com peso específico de sonho. Era o ar da primavera.

Sente o cheiro da filha — “mistura de talco, suorzinho, lavanda, xixi, sabonete, leite e sono”. Depois, o da Praia do Leblon, que não cheirava a rosas: era o esgoto onde se banhavam igualmente a criançada rica e a da Praia do Pinto.

Percebe, também, súbito, um cheiro de nazismo. Branco, inodoro, com laivos de salsicha, chope, cachorro policial, radiotelegrafia e cemitério. Que talvez viesse de algum bar ou café, “desses onde se reúnem nazistas conhecidos e desconhecidos”. Chegam, a seguir, outros cheiros: de amor, solidão, mar, mosca que voeja, madeira, sol, gato. Mas fiquemos neste, o do nazismo.

Apure os sentidos. Sentiu? A origem é o mesmo Leblon de Vinícius, já sem a favela da Praia do Pinto, dispersada em 1969. Emana agora de uma delicatéssen, com o aroma de pães e especiarias. É Pessach, a Páscoa judaica, mas não há matzá, o pão ázimo, à venda. O dono está “cansado de judeus” e não quer mais atender esse público.

Vire as narinas noutra direção: o fedor vem da Lapa. De um bar “antifascista”, em cuja porta o cartaz avisa que cidadãos israelenses e norte-americanos não são bem-vindos. Respire mais fundo, e é de Itacaré, de Morro de São Paulo, que chega a pestilência dos militantes a hostilizar turistas de Israel.

Lembra-se dos clubes que não aceitavam pretos? Das instituições onde mulheres não entravam? Dos lugares em que demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo eram motivo de expulsão? Pois há um bar na Lapa, uma déli no Leblon e praias da Bahia onde a xenofobia e o antissemitismo ergueram barricadas — e a Constituição Federal, a Lei dos Crimes Raciais e o Código de Defesa do Consumidor não valem. Dali, os direitos humanos no pasarán.

Agora substitua os indesejados por “angolanos e haitianos”, “gays, lésbicas e trans”, “cadeirantes e autistas” e veja o que acontece. Troque a frase do dono da déli por “não vendo mais produtos árabes; estou cansado dos muçulmanos”. Pense em ativistas perseguindo praticantes de religiões de matriz africana de férias em Santa Catarina. Quem contribuiu com R$ 500 para o transporte dos manifestantes do 8 de Janeiro pegou 14 anos de cadeia. Haverá consequências para quem faz vaquinha para pagar a multa e bancar os advogados do bar da Lapa, da déli do Leblon?

Há gente que se acostumou a ignorar a lei e criar as próprias regras — como essa de afrodescendentes não poderem ser agentes de racismo, apenas vítimas. Nessa visão torta, a discriminação baseada na crença de superioridade de um grupo sobre outro, com base em características físicas, cor da pele, origem étnica, é de mão única:

— Quando sou discriminado, é racismo; quando sou eu que discrimino, não é.

Sentiu o ranço da dupla moral? Não são poucos os que exalam esse miasma. Parte da imprensa os apoia, velada ou abertamente. A “elite intelectual” os aplaude. Quem está no poder os acolhe e protege.

Vinícius, que conseguia sentir cheiro de riso, de pureza, de sobrenatural — e até o cheiro mágico de paz — haveria de estar hoje perplexo com a origem desse bafo podre, com laivos de superioridade moral, intolerância, desumanização e ódio. É outono, 2026.

 

 

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