Correio Braziliense
A lógica da sua escalada militar
esbarra na natureza assimétrica da guerra. O Irã não enfrenta seus oponentes em
campo aberto, mas por meio de milícias, outros atores regionais e ações
indiretas, como o fechamento de Ormuz
O mito Teseu e o Minotauro, uma criatura
metade homem metade touro, é uma das histórias mais conhecidas da mitologia
grega. Para vingar a morte de um filho, o rei Minos de Creta exigia que Atenas
enviasse a cada nove anos sete rapazes e sete donzelas para serem devorados
pelo Minotauro, um monstro aprisionado no Labirinto de Creta. Teseu, filho do
rei de Atenas, voluntariou-se para ir a Creta com o objetivo de matar o
Minotauro e acabar com o sacrifício.
Ariadne, filha do rei Minos, apaixonou-se por Teseu e, para ajudá-lo, secretamente, deu-lhe um novelo de lã, o famoso “fio de Ariadne”, com o qual Teseu entrou no labirinto. Após amarrar a ponta do fio na entrada, foi desenrolando-o enquanto avançava. No centro do labirinto, matou o Minotauro e, seguindo o fio de volta, conseguiu sair do labirinto. Teseu fugiu de Creta com Ariadne, mas, ao retornar a Atenas, esqueceu-se de trocar as velas do navio de pretas para brancas, um código que sinalizaria seu sucesso, o que levou seu pai, Egeu, a se suicidar por acreditar que o filho estava morto.
João Saldanha, o cronista esportivo que foi
técnico da Seleção Brasileira nas Eliminatórias da Copa de 1970, no México,
resumiu a ópera com um comentário muito espirituoso: “Só uma toupeira entra num
buraco sem saída, mas é o mais estúpido dos animais”. Com licença poética, é
mais ou menos a situação do presidente dos Estados Unidos na guerra do Irã. No
mito do labirinto de Creta, não bastava a força, era preciso estratégia,
previsão e uma rota de saída. É o que falta à aventura militar de Trump no
Oriente Médio.
Trump entrou no labirinto persa sem dispor de
um “fio de Ariadne”. A lógica da sua escalada militar, que combina demonstração
de força e poder de dissuasão, esbarra na natureza assimétrica da guerra. O Irã
não enfrenta seus oponentes em campo aberto, mas por meio de milícias, outros
atores regionais e ações indiretas, como o fechamento do Estreito de Ormuz. Com
isso, explora vulnerabilidades e evita ao máximo confronto direto com os
Estados Unidos. O labirinto não é apenas militar, mas político e estratégico.
A doutrina de guerra assimétrica não é
estranha aos Estados Unidos. Ao longo do século XX, especialmente em conflitos
como o Vietnã e, mais recentemente, no Iraque e no Afeganistão, os americanos
enfrentaram formas indiretas de combate, nas quais o poder convencional perde
eficácia diante de inimigos difusos, descentralizados e resilientes. O Irã, ao
estruturar sua estratégia regional com base em redes de influência e grupos
aliados, apropriou-se dessa lógica. Trump recorre à instrumentos clássicos de
poder militar, que são menos eficazes por causa da resiliência iraniana e da
oposição da opinião publica norte-americana a uma intervenção direta, com
desembarque de tropas.
Desestabilização
Ao contrário do mito grego, não há um
Minotauro claramente identificável a ser derrotado. A prova disso é eliminação
do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, em ataque conjunto
dos EUA e de Israel em Teerã, no fim de fevereiro passado. A operação incluiu o
uso de mísseis e resultou na morte de familiares de Khamenei e altos
comandantes. Não deu certo na política nem no aspecto militar. O inimigo não
está concentrado num único ponto, mas disperso em múltiplas frentes — do Líbano
ao Iêmen, passando pela Síria e pelo Golfo Pérsico.
Cada ação militar intempestiva de Trump gera
repercussões imprevisíveis, abre novos corredores no labirinto e amplia a
complexidade do conflito. Sem uma estratégia de saída clara, cada movimento
aprofunda o envolvimento, amplia o conflito e reduz as opções de saída. Não se
trata apenas de um confronto militar, o labirinto também é econômico, por causa
do impacto no mercado de petróleo. Qualquer instabilidade na região do Golfo
repercute imediatamente nos preços internacionais. A elevação do barril
pressiona cadeias produtivas, alimenta a inflação global e afeta diretamente
economias dependentes de importação de energia.
Nesse contexto, a guerra deixou de ser um
conflito regional para se tornar um fator de desorganização sistêmica da
economia mundial. Enquanto Trump tateia no escuro, outros atores operam com
maior clareza estratégica. Benjamin Netanyahu, por exemplo, emerge como um dos
principais beneficiários imediatos da escalada. Seu interesse na manutenção do
conflito é evidente: a guerra prolongada reforça sua narrativa de segurança
existencial de Israel, consolida apoio interno, mantém a tensão internacional
focada no Irã e desvia as atenções de outros impasses regionais, como sua
investida no Líbano. Para Netanyahu, a guerra com o Irã é um ambiente no qual
opera com relativa previsibilidade.
Já o líder chinês Xi Jinping atua de forma
mais sutil, porém muito eficaz. Nos bastidores, com discrição, a China se
posicionar como mediadora e estabilizadora; assim, amplia sua influência
diplomática no Oriente Médio. Aliada ao Paquistão, que também disputa
influência com a Índia, Pequim trabalha para construir alternativas à lógica de
confronto direto, explora sua capacidade de articulação econômica e política.
Xi tece com seda o seu próprio “fio de Ariadne”, ao ampliar sua projeção
geopolítica. Trump entrou na guerra a reboque de Netanyahu e caiu numa
armadilha regional; a China atua nos bastidores da crise do Oriente Médio para
ampliar sua influência global. Sua economia exportadora depende da previsibilidade
e da segurança econômica que só a paz oferece. Nisso aí, não está sozinha.

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