terça-feira, 7 de abril de 2026

Não tem como dar certo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Coluna lista sugestões que podem ajudar na crise de credibilidade do STF

Reduzir proximidade de ministros com políticos e empresários seria primeiro passo

Não sei como resolver a crise de credibilidade no STF. Mas, inspirando-me na experiência de outros países e instituições, listo algumas sugestões que, se adotadas, poderiam minorar o problema no futuro.

Uma primeira providência seria limitar as oportunidades de interação, sobretudo aquelas em clima festivo, entre ministros do STF e políticos e empresários que possam vir a julgar. É preciso evitar que esbarrões sociais se transformem em belas amizades. O magistrado ideal nem deveria conhecer seus jurisdicionados. Poderíamos nos inspirar no que já fizeram sul-africanos e bolivianos e transferir a sede do Judiciário para uma cidade diferente daquela que abriga os outros Poderes. Proponho Palmas (TO).

Outra questão difícil de abordar é a da contratação de escritórios de advocacia de parentes de ministros. É um canal pelo qual dá para transferir milhões de reais para o núcleo familiar de um juiz sob o manto da legalidade.

Minha sugestão aqui, inspirado na Igreja Católica pós-gregoriana, é incluir entre as exigências constitucionais para o cargo de ministro do STF que os candidatos sejam celibatários e sem filhos. Ainda restaria o problema de irmãos e sobrinhos, mas quero crer que ele é mais administrável do que o de cônjuges e prole.

Dado o noticiário dos últimos dias, fortemente indicativo de que caronas em jatinhos se tornaram moeda de troca em relações não exatamente republicanas entre empresários e magistrados, penso que faria também sentido limitar a escolha dos ministros a indivíduos com diagnóstico clínico de aerofobia paralisante, isto é, aquelas pessoas que não entram de jeito nenhum num avião.

Alguém poderia argumentar que essa determinação restringiria demais a oferta de candidatos. Não estou tão seguro disso. Trata-se, afinal, de uma das poucas fobias com bases racionais, como explicava o poeta, músico e diplomata Vinicius de Moraes, um aerófobo notório: é mais pesado do que o ar, o motor é a explosão e foi inventado por um brasileiro.

Não tem como dar certo.

 

 

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