Valor Econômico
Há necessidade de um choque de reformas
diante de um cenário internacional cada vez mais desafiador
Em 2011, o PIB per capita do Brasil era
equivalente a apenas 31,18% da média daquele dos 19 países mais ricos. Dez anos
depois, caiu para 26,44%, com o nível de desenvolvimento socioeconômico do país
ficando mais distante de convergência com grandes economias.
Após a pandemia de covid-19, o Brasil registrou forte crescimento da economia, mas a diferença de PIB per capita em relação aos países da OCDE continua significativa. Em 2024, o PIB por empregado no país era 73,33% menor do que a da média nos principais países desenvolvidos.
Essas cifras da Organização para a Cooperação
e Desenvolvimento Econômico (OCDE) retratam a situação do Brasil no relatório
“Fundamentos para o Crescimento e a Competitividade”, no qual são examinadas 48
nações.
A mensagem é de que esses fundamentos
precisam ser reforçados na economia brasileira, ainda com mais urgência num
cenário mundial caracterizado por transformações estruturais e riscos
geopolíticos e comerciais sem precedentes.
O relatório descreve um ambiente
internacional cada vez mais desafiador, com uma agenda dominada por
preocupações que incluem segurança econômica e política industrial, abarcando
áreas como inteligência artificial e minerais críticos.
Constata que as perspectivas de crescimento
econômico estão sob pressão em todo o mundo, tanto pela incerteza de curto
prazo ligada a choques geopolíticos como a desafios de longo prazo, incluindo o
baixo crescimento da produtividade, o fraco investimento, o reduzido dinamismo
das empresas, a escassez de qualificações e o envelhecimento da população.
No caso do Brasil, a constatação sem surpresa
é que o país não consegue avançar em produtividade, o que restringe seu
crescimento e competitividade, exceto em setores nos quais há vantagens
comparativas significativas, como a agricultura.
O investimento tem sido fraco e o crescimento
da produtividade estagnou, refletindo dificuldades estruturais na maior
economia da América Latina. A taxa de emprego no país alcançou a média da OCDE nos
últimos anos, porém a informalidade e a desigualdade de gênero permanecem
elevadas.
Apesar de avanços institucionais, o Brasil
precisa de reformas estruturais para crescer de forma sustentada. Para isso,
martela que a prioridade estratégica deve ser realmente dada à educação e à
infraestrutura.
Aponta alguns progressos recentes, como a
reforma do imposto sobre o consumo e a criação de um Sistema Brasileiro de
Comércio de Emissões com previsão de entrada em operação em cinco a seis anos -
mas tudo isso ainda é insuficiente para concorrer no mundo atual.
Na área de infraestrutura, menciona a falta
de manutenção de estradas no Brasil, que resulta em custos logísticos elevados
e restringe a competitividade das exportações.
Recomenda priorizar a infraestrutura no
orçamento público a fim de aumentar o investimento em transporte, energia,
telecomunicações, água, saneamento e mobilidade urbana.
Na educação, os resultados do Brasil
continuam bem inferiores à média da OCDE em leitura, matemática e ciências,
evidenciando dificuldades persistentes no ensino. Recomenda de novo ao governo
considerar a cobrança de mensalidades baseadas na renda nas universidades
públicas, combinada com bolsas para estudantes pobres e outras medidas para
ampliar o acesso ao ensino superior.
A digitalização e a inteligência artificial
remodelam a produção e o trabalho globalmente. E a redução de barreiras de
acesso aos mercados digitais e fortalecer a capacitação no setor também é
recomendada para o Brasil. Assim como a criação de um balcão único para
licenças de telecomunicações, a fim de promover um mercado digital mais
competitivo, e a implementação de programas de treinamento para melhorar a
alfabetização e as competências digitais da população.
A abertura do comércio é apontada para melhorar
a integração do Brasil às cadeias globais de valor - hoje concentrada em
commodities - e proporcionar novas oportunidades de crescimento. Defende a
redução das barreiras regulatórias para facilitar a entrada de novas empresas e
fortalecer a concorrência no país.
A ideia de se rever fundamentos do
crescimento tem ganhado interesse na cena internacional nos últimos anos - e
tomará mais fôlego em meio aos riscos de estagflação no rastro da guerra dos
EUA e Israel contra o Irã.
Nos países da OCDE - que inclui as economias
mais ricas do mundo -, o crescimento anual da produção potencial perdeu cerca
de um ponto percentual desde o início dos anos 1990. A expansão da
produtividade desacelerou na maioria dos casos, em meio ao fraco investimento
das empresas, à perda de dinamismo corporativo, à desaceleração da difusão de
tecnologias e ao enfraquecimento da acumulação de capital humano.
As reformas estruturais vêm desacelerando de
forma geral e precisam ser reativadas rapidamente, considerando que a
sustentabilidade da prosperidade está condicionada à qualidade do capital
humano, à qualidade das instituições, à governança eficaz, a infraestruturas
confiáveis, ao fornecimento energético seguro e à estabilidade macroeconômica.
Para a entidade, acertar em medidas para
melhorar o ambiente de negócios, impulsionar a inovação e investir em
qualificação e emprego impulsionará um crescimento mais forte e maior
competitividade, ajudará a amortecer as pressões fiscais decorrentes do
envelhecimento da população e posicionará os países para aproveitar todo o
potencial da inteligência artificial e de outras tecnologias transformadoras.
Exemplifica que a IA poderia aumentar o
crescimento anual da produtividade do trabalho nos países da OCDE entre 0,7 e
1,2 ponto percentual por ano durante a próxima década, dependendo da velocidade
de adoção.

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