Valor Econômico
Não é direita ou esquerda. É o nosso
extremismo: somos radicalmente de extremo centro
Parece que todos são contra a polarização
política. À medida que o cenário das eleições se define, em particular a de
presidente da República, vai ficando claro que, mais uma vez, o dilema é apenas
o de optar por qual polarização. O Brasil tem mudado. Vai se ver, ficou no
mesmo lugar. Os penduricalhos do oportunismo não o deixam mover-se.
Há muita coisa por trás disso. Muita história, muitas acomodações, muitos interesses. Não é direita ou esquerda. É o nosso extremismo: somos radicalmente de extremo centro, que, na verdade, é o município e o regionalismo dele decorrente. Sobretudo, óbvios e conhecidos resíduos dos imensos e acumulados impasses a que o país se torne algo diferente do que sempre foi. Mesmo nossas revoluções são golpes, como em 1889, 1930 e 1964.
A polarização nasceu com o Brasil, com a
criação do primeiro município, o de São Vicente, em 1532. Estão aí os
fundamentos da estrutura política da sociedade brasileira. A coisa era simples.
Havia a Coroa, isto é, o poder do Estado português. E havia os municípios,
então chamados “vilas”, o poder local e dos locais, a representação daquela
parte da população reconhecida como gente, uma espécie de embrião minoritário e
excludente da sociedade civil.
Na verdade, a Coroa não patrocinou a ocupação
do território descoberto. O rei não utilizou os meios do Estado para ocupar o
que veio a ser o Brasil. Os particulares, com seus próprios recursos materiais
e humanos, organizavam as expedições de caça aos indígenas, que trabalhariam
para eles em troca da catequese. E de ocupação do território. Em compensação,
os conquistadores recebiam reconhecimento simbólico do rei, através de títulos
e de formalização jurídica das sesmarias, as concessões de terras.
Era a base política do que veio a ser a
corrupção no país. Tomavam do rei o que era deles mesmos, e não do rei. Por
isso, no Brasil, a corrupção parece tão natural e até honesta. Os homens bons
criavam o patrimônio do rei e com isso também tomavam do rei o que podiam. Não
é estranho que ainda hoje, quando corruptos são apanhados, estranhem. E o
próprio povo de vários modos não estranhe a corrupção porque não a considera
como tal.
Naqueles começos, nem todos os habitantes
eram reconhecidos como gente. Os indígenas não o eram. Os negros escravizados
trazidos da África tampouco. Para ser gente era preciso ter alma. Nos primeiros
tempos, havia dúvidas quanto a se indígenas e negros tinham alma. Foi
penosíssimo e lento o processo do reconhecimento suficientemente amplo de que
tinham alma e eram gente. Ainda no século XVIII persistia a dúvida teórica,
como vejo em documentos de uma pesquisa documental que fiz, aqui e em Portugal.
A partir do século XIX a dúvida estava
reduzida a saber e decidir quem podia ter direitos políticos, isto é, o direito
de ser eleitor. As primeiras Constituições, desde a Independência,
estabeleceram restrições a que alguém se tornasse eleitor.
Até 1881 analfabeto podia votar porque eram
raríssimos nas populações originárias os alfabetizados. Para ser eleitor o
importante era ter cabedal. A riqueza “alfabetizava” os ricos analfabetos. O
cabedal legitimava as diferenças sociais, um progresso na linha de definição da
condição humana, desde vésperas da Independência, não mais por direito de
nascimento. É que o dinheiro dissolve desigualdades não econômicas e de origem.
Havia disfarces para a discriminação racial
que agora tinha outras características: também aí ter cabedal era um deles. E
havia uma hierarquia, quem tinha menos podia ser eleitor só no município, um
pouco mais na província, muito nas eleições gerais.
A partir de 1881, o analfabetismo voltava a
vetar o direito de ser eleitor. A sociedade enriquecia, mas não se desenvolvia
socialmente. O Brasil sempre foi bom em inventar discriminações e exclusões
para se adaptar sem se transformar.
Só em 1967, uma emenda à Constituição
reconheceu aos analfabetos o direito de voto. Completava a Lei Áurea. Mas as
graves imperfeições do sistema político continuam a mantê-los fora da
cidadania. Nas eleições municipais de 2016, dos mais de 38 milhões de eleitores
analfabetos, 44% se abstiveram, quase 17 milhões de eleitores.
A polarização política não será superada
enquanto o país for competente em eleger representantes do atraso social e do
retrocesso político. Gente nascida e cevada nos chamados currais eleitorais
dessa imensa e secular trama de armadilhas políticas à democracia.
Há grandes e significativas exceções
políticas, de cidadãos decentes e corajosos, empenhados no bem comum e no
progresso político do país. Tomara Deus. Mas, Deus mesmo, se vier, que venha
armado, como alertou Guimarães Rosa.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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