terça-feira, 28 de abril de 2026

O caso Master e o fator Zema, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Romeu Zema testa-desafia o projeto-fachada de moderação de Flávio Bolsonaro, ou lhe oferece-amplia as condições para que se venda como moderado? Seria jogo combinado, Zema avançando para que Flávio pudesse exibir reforçar a imagem de “Bolsonaro ponderado”? Esse Zema de texto radicalizado, que denuncia-enfrenta ministros do Supremo, forçará-obrigará “o Bolsonaro que não é louco” a se mexer e expor a própria natureza; ou, situando-se à direita do “Bolsonaro que come de garfo e faca”, empurraria-ajudaria Flávio a se mover para o centro?

Não há dúvida de que a coragem do ex-governador de Minas Gerais – o cronista se refere à percepção do eleitor – perturbe, fira mesmo, o sistema de crenças-valores bolsonarista, erguido sobre a propriedade do confronto conflito e constituído sob o monopólio do discurso antissistema; daí por que o bolsonarismo de extração eduardista já se lance contra a ameaça Zema. Flávio Bolsonaro solta – já soltou – os seus cachorros. Quanto a ele próprio: morderá? Poderá não morder? Poderá terceirizar a mordida? Porque não se trata somente de Zema percebido como o que não tem rabo preso nem telhado de vidro. Trata-se, por oposição, de o senador encaixotado como com rabo preso e sob telhado de vidro. Jogo combinado?

É grande a pressão para que morda; para que dê satisfação sanguínea a uma militância forjada na beligerância e incomodada com o candidato – o mitinho, filho do mito – que presta “apoio” e se posiciona a reboque do representante da linha auxiliar Partido Novo. A ver, a propósito, se não estaria Zema afinal trabalhando por subir o preço do que era, até faz pouco, apoio banal e aliança quase automática. A ver também se terá lastro individual para sustentar a persona até as urnas. A carga para que Flávio reaja aumentará – desafiará a manutenção da máscara de paz e amor – caso Zema cresça nas pesquisas e se acerque dos 10%.

Não é a hipótese mais provável – a do crescimento competitivo de Zema. Tampouco deve ser possibilidade descartada. Por uma razão: o caso Master, cuja geração de instabilidade-imprevisibilidade, a mesma que derrubara Lula da condição de reeleito e dera a Flávio Bolsonaro o privilégio de se beneficiar da crise mesmo jogando parado, agora tornou Romeu Zema – também graças ao marqueteiro Gilmar Mendes – o pauteiro do debate público eleitoral, capaz de tirar o bolsonarismo da zona de conforto. Ninguém imaginava.

Ninguém compreendeu e explora a natureza do caso Master como a equipe de Zema. Este é o fator Zema: menos a sua capacidade atual de concorrer à Presidência com chances de vencer; e mais a forma influente como a sua campanha leu e reage materialmente ao mercado de desejos eleitorais. A série de filmetes satíricos sobre “os intocáveis de Brasília” é primor de aplicação concentrada dos sentimentos difusos do brasileiro que decidirá a eleição em 2026. O caso Master desafia jogos combinados e abre a fenda a partir da qual o imponderável – o Zema pauteiro, por exemplo – exercita-se.

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