quinta-feira, 23 de abril de 2026

O centro da questão, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Determinar o que é centralidade e o que é lateralidade faz toda diferença. Mas é ali que o Supremo Tribunal Federal (STF) se enredou. Disso depende a leitura da realidade e, portanto, como agir diante dos fatos.

Na visão de enorme parcela do público, o que hoje constitui a centralidade na crise de credibilidade (portanto, de legitimidade) do STF não passa de lateralidade na visão de pequeno grupo dentro da Corte. Estamos falando do comportamento individual de integrantes do Supremo.

Mais ainda: como capturaram a instituição em defesa própria, sem terem conseguido – ou nem sequer se declararem dispostos – explicar de maneira convincente ligações com o escândalo do Master documentadas por fatos incontroversos, e não por ilações.

Pode-se argumentar que códigos de conduta ou maior “proximidade” com a sociedade alterem muito pouco as proporções da crise de confiança na instituição, portanto são perda de tempo, mas esse não é o ponto. O STF rachou não em função do que fazer diante da crise, mas – e isso é decisivo – em função da compreensão da natureza da crise.

Para a ala personificada em torno de Gilmar Mendes, o comportamento individual de integrantes (especificamente Alexandre de Moraes e Dias Toffoli) é “lateralidade”, conforme declarou em recente entrevista à Band. Em outras palavras, não é o que realmente pesa, nem deveria estar no centro das atenções.

Nessa visão das coisas, não há nada de novo no fronte: uma nova versão de “lavajatismo”, associada à imprensa burra (ou comprada) e à tradicional bandidagem do Legislativo, mais o bolsonarismo fabricaram a tal crise de legitimidade.

Num escândalo turbinado também pela malandragem de outros banqueiros, que lucraram muito vendendo papéis que sabiam serem podres. Ao Supremo só restaria então utilizar seus supremos poderes e resistir.

Numa linguagem bem simples, o capitão do Titanic, ao bater no iceberg, mandou o engenheiro averiguar a avaria no casco e concluiu que ia afundar.

Os capitães do STF (tem vários, nem sempre de acordo entre si) acham que nem bateram num iceberg, enquanto o restante da ponte de comando tem dificuldades de avaliar os danos no casco, embora reconheça que a nau está difícil de navegar e parece adernada.

O ineditismo dessa crise prossegue criando mais ineditismos. Como se antecipava, o STF virou fator eleitoral de peso, e está sendo atacado do PL ao PT, e fornecendo bandeiras fáceis para candidatos à Presidência. Quem busca a reeleição, obedecendo ao instinto desse tipo de animal político, já pulou fora do barco.

Dentro da instituição, esses fatos reforçaram as duas visões da realidade, que são irreconciliáveis. Não há mais volta a algum tipo de status quo ante.

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