Vincular gastos sociais é armadilha orçamentária
Por O Globo
PEC aprovada na Câmara teria impacto de R$ 100 bilhões em uma década, pela estimativa do governo
Em pleno ano eleitoral, a Câmara aprovou em primeiro turno uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que destina um percentual mínimo da receita da União ao Sistema Único de Assistência Social (Suas). A iniciativa é bem-intencionada, pois engloba uma série de ações sociais. Mas se mostra descolada da realidade, ao ignorar o impacto nas contas públicas. A PEC é vista pelo governo como mais uma pauta-bomba. O custo é estimado pela equipe econômica em R$ 36 bilhões durante quatro anos e pode alcançar R$ 100 bilhões em uma década. Pela PEC, o percentual começaria com 0,3% da Receita Corrente Líquida da União em 2027, passaria a 0,5% em 2028, subiria a 0,75% em 2029 e atingiria 1% em 2030. O escalonamento, no entanto, não torna a proposta menos prejudicial aos cofres públicos.
Não se questiona a importância de prover
ações sociais num país desigual. Mas não se pode fazer isso engessando ainda
mais um Orçamento demasiadamente engessado. Já existem vinculações
orçamentárias obrigatórias em saúde (15%) e educação (18%), que deixam pouca
margem a outras despesas não menos importantes. Ampliar a lista de obrigações
só faz piorar a situação das contas públicas. Pergunta óbvia: de onde sairão os
recursos? Ou: o que ficará fora do Orçamento para atender à nova determinação?
A PEC naturalmente não traz resposta, como se fosse possível fabricar recursos
do nada. Na prática, cria mais uma linha orçamentária obrigatória a inflar o
déficit público e a alimentar um endividamento que já beira os 80% do PIB.
Por ora, a análise da PEC foi adiada a pedido
do líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), para que o Ministério da
Fazenda possa avaliar o impacto orçamentário. E ela ainda terá de passar pelo
segundo turno antes de seguir para o Senado. Mas, a seis meses das eleições, há
pouca esperança de interromper o fluxo inesgotável de generosidades pagas com o
dinheiro do contribuinte que tem brotado do Congresso. No primeiro turno, o
texto foi aprovado por 464 votos a 16.
Repetindo as práticas deletérias de um Executivo
perdulário, os parlamentares não têm demonstrado a menor preocupação com o
controle fiscal. Um exemplo é a PEC, já aprovada na Câmara, que cria
aposentadoria especial para agentes de saúde. Além de ser uma medida
injustificável, ao privilegiar uma categoria em detrimento de outras carreiras
não menos relevantes, a proposta tende a ampliar em quase R$ 30 bilhões o rombo
no sistema de aposentadoria.
Tais propostas, a despeito de
bem-intencionadas, abrem caminho para outros tantos projetos descompromissados
com a realidade fiscal. Exige-se maior responsabilidade de todos, tanto
Executivo quanto Legislativo. Pode ser difícil, do ponto de vista político,
barrar iniciativas de apelo popular em ano eleitoral. Por isso mesmo, este não
é o momento adequado para debatê-las. Não é razoável o Congresso distribuir
benesses e empurrar a fatura a este ou aos próximos governos. O Brasil já vive
uma crise fiscal crônica de que não consegue se desvencilhar. Some-se a isso o
cenário global de incerteza. O zelo com as contas públicas precisa ser
prioridade.
PEC que extingue ‘punição’ de juízes com
aposentadoria integral é avanço
Por O Globo
Tramitação do texto aprovado na CCJ do Senado
precisa ser célere para acabar com a aberração
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ)
do Senado aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que veda a
concessão de aposentadoria compulsória a magistrados e integrantes do
Ministério Público condenados por infração disciplinar. Na situação atual, os
faltosos são recompensados com a manutenção integral de vencimentos e regalias,
em vez de punidos. A PEC busca acabar com essa aberração. Ante erros graves,
prevê demissão ou perda do cargo.
A versão original do texto foi apresentada em
2024 pelo atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino quando
era senador. Ao anular no mês passado medida do Conselho Nacional de Justiça
(CNJ) a respeito da aposentadoria de um juiz estadual da comarca de Mangaratiba
(RJ), Dino incentivou a retomada do debate no Congresso. Dado o primeiro passo,
os plenários do Senado e da Câmara têm de validar a decisão com agilidade.
O texto aprovado na CCJ encerra qualquer
discussão sobre risco à independência de juízes, promotores e procuradores
levantada por representantes da Associação dos Magistrados Brasileiros e da
Associação Nacional dos Membros do Ministério Público. O temor era que mudanças
na lei pudessem abrir caminho à perseguição na esfera administrativa a quem
apenas cumpre deveres funcionais. Emendas aprovadas na CCJ buscaram dirimir
esse receio. A PEC agora prevê que, reconhecida a falta grave por órgão
disciplinar, o magistrado ou procurador será afastado provisoriamente, e a
remuneração suspensa. Num prazo de 30 dias, deverá ser proposta ação cível no
tribunal competente para demissão ou perda do cargo. Apenas depois da
condenação, a punição será sacramentada. É um rito sensato.
A sucessão de notícias escabrosas envolvendo
magistrados “punidos” com aposentadoria compulsória é uma afronta a princípios
fundamentais e à credibilidade da Justiça. Nos últimos 20 anos, o CNJ “puniu”
126 juízes com a compulsória. Entre eles está o desembargador Divoncir
Schreiner Maran, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. Em 2020, ele
autorizou a prisão domiciliar de um detento condenado a 126 anos de prisão por
tráfico de drogas. A defesa alegou quadro de saúde debilitado. O desenlace foi
o esperado: o condenado fugiu e passou à condição de foragido. Outro na lista
dos “punidos” com a compulsória é Luiz Antônio Araújo Mendonça, desembargador
do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe acusado de venda de decisões
judiciais, ligação com o crime organizado, ocultação de bens, lavagem de
dinheiro e até participação em homicídio.
A aprovação da PEC tenta corrigir erros dessa natureza, levando um mínimo de sentido de justiça para dentro da própria Justiça. A imparcialidade é um dos princípios básicos e condição inegociável para o Judiciário funcionar em sociedades democráticas. Mas não pode servir de escudo para a desmoralização do próprio Judiciário.
Escândalo Master não tem ideologia
Por Folha de S. Paulo
Vorcaro buscava quem pudesse ser útil entre
partidos de todas as orientações, governos e instituições
A nota positiva é que o banco foi liquidado
pelo BC autônomo, a PF mostrou independência e o jornalismo cumpre seu papel
fiscalizador
Como quase tudo no polarizado debate político
nacional, o escândalo do Banco Master se
tornou objeto de disputa de versões e interpretações entre militantes à
esquerda e à direita. Com os dados disponíveis até o momento, trata-se de um
exercício pouco produtivo.
Uma nova leva de informações, desta vez
oriunda de declarações fiscais em poder da CPI do Crime Organizado,
reforça a percepção de que o ex-banqueiro Daniel
Vorcaro não se pautava por preferências ideológicas —atraía, a
peso de milhões, quem pudesse ser útil para sua rede de influência entre
partidos, governos e instituições que incluíam Banco Central e
Supremo Tribunal Federal.
Para tanto, entre outros expedientes, o
Master contratou escritórios
de advocacia e empresas ligadas a um rol suprapartidário de personagens da
política e da administração pública.
Entre eles, a mulher de Alexandre de
Moraes, ministro do STF; familiares
do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD); Henrique
Meirelles, ex-ministro da Fazenda de Michel Temer (MDB) e
ex-presidente do BC sob Luiz Inácio Lula da
Silva (PT);
Guido Mantega, ex-titular da Fazenda em administrações petistas; a nora
de Jaques Wagner (PT-BA),
líder do governo no Senado.
Como se a lista não fosse eclética o
bastante, devem-se acrescentar o próprio Temer; Antônio Rueda,
presidente do União Brasil; Ricardo
Lewandowski, ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça de
Lula; ACM Neto,
ex-prefeito de Salvador (União Brasil); o bolsonarista Fabio Wajngarten; e o
próprio Jaques Wagner.
Não se sabe, de forma individualizada, o que
Vorcaro pretendia de tantos contratados —e também de passageiros em seus jatinhos
e de convidados para suas festas nababescas. Tem-se, ao menos, uma amostra do
que conseguiu dos poderes públicos.
Os exemplos incluem um socorro
a seu banco por parte do estatal BRB, patrocinado pelo então
governador do Distrito
Federal, Ibaneis Rocha (MDB),
além de aportes de fundos previdenciários estaduais e municipais.
No Congresso
Nacional, o centrão ensaiou uma pressão sobre o BC quando a operação
com o BRB ainda estava sob análise. Ainda está por ser esclarecida a extensão
da influência de Vorcaro na autoridade monetária, no Supremo e no Tribunal de
Contas da União (TCU).
A nota positiva é que a vasta teia de
relações de Vorcaro não evitou sua derrocada. O Master foi liquidado pelo BC
autônomo, a Polícia
Federal mostrou independência para prosseguir nas
investigações, mesmo com tantos interesses contrariados, e o
jornalismo profissional cumpre seu papel fiscalizador do poder.
A apuração do caso, no entanto, mal começou
—e terá não poucos obstáculos à frente. Espera-se que uma delação premiada de
Vorcaro permita identificar onde houve falha, omissão e corrupção em suas
múltiplas interações com a política e o Estado. As instituições têm o dever de
avançar e depurar-se com o caso.
Regular o trânsito elétrico
Por Folha de S. Paulo
Expansão desse modal de transporte gera
mudanças necessárias na regulação nacional e em cidades como o RJ
É preciso colocar as novas regras em prática
com fiscalização e campanhas educativas, além de melhorar o transporte público
No final de março, a geógrafa Emanoelle
Martins Guedes de Farias, 40, e seu filho de 9 anos morreram atropelados em uma
bicicleta elétrica por um ônibus no Rio. O trágico acidente expôs os riscos da
expansão de modais de transporte elétrico nas cidades brasileiras.
A regulação tem tentado reagir ao fenômeno.
Uma resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran)
de 2023, que entrou em vigor em 1º de janeiro deste ano, diferenciou
ciclomotores de bicicletas elétricas e autopropelidos (como patinetes),
exigindo emplacamento e carteira de habilitação dos primeiros.
Ciclomotores são veículos de duas ou três
rodas com motor a combustão de até 50 cilindradas ou motor elétrico com
potência máxima de 4 kW e velocidade de até 50 km/h; já as bicicletas elétricas
possuem motor auxiliar de até 1 kW e velocidade que não supere os 32 km/h.
Com a exigência de registro e habilitação
para condutores de ciclomotores, empresas do setor já verificam alta nas vendas
de bicicletas elétricas neste ano.
Cabe às autoridades nos três níveis da
federação comunicar com clareza à população as diferenças entre os modais de
transporte, seus riscos e as regras aplicáveis.
Na segunda-feira (6), quase uma semana depois
do acidente com Emanoelle e seu filho, a prefeitura do Rio de
Janeiro publicou um decreto que
endurece as regras para modais elétricos.
O uso de capacete é obrigatório nos três
tipos de veículos, que estão proibidos de circular em vias com velocidade
máxima superior a 60 km/h. Ciclomotores podem trafegar, somente pelo bordo
direito da via, em ruas onde o limite é de até 60 km/h.
Bicicletas elétricas e patinetes só têm
permissão para circular em vias com limite de até 40 km/h, sempre em
ciclofaixas ou, na falta de demarcação dessas zonas, no bordo direito da via.
A atualização das regras é necessária, mas
não suficiente. Deve-se incrementar a fiscalização e promover campanhas
educativas e de conscientização.
A resolução do Contran concedeu mais de dois
anos para a adaptação. Mesmo assim, levantamento do Detran de São Paulo mostra
que, entre 1º de janeiro e 12 de fevereiro, foram registradas 1.309 infrações
com ciclomotores no estado, e 1.009
veículos foram apreendidos —a maioria (773) por falta de
emplacamento.
Ademais, é preciso melhorar a qualidade do transporte público. A expansão do uso de motocicletas e de veículos elétricos também está relacionada a dificuldades enfrentadas pela população na mobilidade urbana.
O esforço do STF para se blindar
Por O Estado de S. Paulo
Ao tirar do limbo uma ação para limitar as
delações premiadas, Moraes reforça a sensação de que há ministros mais
interessados em preservar a si mesmos do que em salvar a imagem do Supremo
A decisão do ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF) Alexandre de Moraes de tirar do limbo uma ação proposta há cinco
anos pelo PT para limitar o alcance das delações premiadas não tem como deixar
de ser interpretada como mais um ato de blindagem do tribunal contra o devido
escrutínio público. A liberação dessa ação para julgamento ocorre justamente
quando Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, negocia um acordo dessa
natureza com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. É bem possível
que o próprio Moraes e seu colega Dias Toffoli estejam entre os principais
alvos da eventual delação de Vorcaro.
Aqui não se trata de discutir a importância
da delação premiada como legítimo meio de obtenção de provas, cuja utilidade já
foi amplamente demonstrada em vários episódios da vida nacional. A questão é
mais singela: por que resgatar essa ação só agora, quando ministros do STF se
veem colhidos pela rede de relações pouco republicanas montada em Brasília pelo
sr. Vorcaro? A resposta é elementar e a percepção de casuísmo é incontornável.
Ainda mais quando recordamos que, há pouquíssimo tempo, num julgamento de
grande repercussão, como foi a ação que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro
a mais de 27 anos de prisão por golpe de Estado, o acordo de delação premiada
firmado por seu ex-ajudante de ordens, Mauro Cid, não despertou maiores
preocupações na Corte.
O movimento de blindagem de indivíduos, não
de defesa da instituição, torna-se ainda mais explícito quando se observa que
Moraes não está sozinho nessa campanha. Há um aparente padrão de conduta entre
alguns ministros do STF que nos autoriza a acreditar que eles perderam a
vergonha de agir explicitamente para se colocarem acima da lei. Dias Toffoli,
por exemplo, tomou decisões esdrúxulas, para dizer o mínimo, enquanto relatou
as investigações contra Vorcaro e executivos do Banco Master e do BRB no STF.
Como relator, o ministro assumiu um protagonismo incompatível com sua posição
de juiz, selecionando peritos, acautelando provas em seu gabinete e realizando
diligências atípicas, como acareações antes da tomada de depoimentos. À luz do
conflito de interesses em que o ministro se meteu por suas ligações pessoais
com o caso Master, não se pode condenar quem veja nas suas decisões uma
tentativa de atrapalhar ou retardar as investigações.
O decano Gilmar Mendes, por sua vez, decidiu
reescrever monocraticamente dispositivos da Lei do Impeachment de modo a
dificultar a eventual responsabilização política de ministros do STF perante o
Senado. O ministro também tomou decisões que limitaram o poder de investigação
do Congresso por meio de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs). Foi do
sr. Mendes a decisão de anular a quebra de sigilo do fundo Arleen,
regimentalmente aprovada pela CPI do Crime Organizado, e, assim, impedir que se
conhecesse melhor a natureza dos negócios entre esse fundo, ligado ao Banco
Master, e a Maridt, empresa de seu colega Dias Toffoli.
Tomadas em conjunto, essas ações mal escondem
a recalcitrância de alguns ministros do STF em prestar contas à sociedade
diante de indícios tão abundantes de má conduta, no melhor cenário. A
autoridade do Supremo, como sempre lembramos neste espaço, não deriva apenas de
suas competências constitucionais, mas da confiança que a Corte inspira na
sociedade. Quando ministros usam o poder do cargo de forma tão escancarada para
salvar a própria pele, essa confiança, por óbvio, se esvai. Não há instituição
imune ao desgaste provocado por suspeitas de acobertamentos mútuos ou pela
percepção de que as leis, que deveriam valer igualmente para todos os cidadãos,
valem mais para uns e menos para outros, a depender de sua posição na
hierarquia da República.
Ministros do STF, por mais elevadas que sejam
suas funções, não estão acima da lei nem desobrigados do dever de responder por
seus atos. Ao contrário: quanto maior o poder, maior deve ser a transparência e
mais forte o espírito público. Essa deliberada campanha de blindagem, hoje
explícita, compromete não apenas as biografias dos ministros, de resto
irrelevantes para o País, mas a força do próprio Supremo.
Liberdade de expressão, ainda que tardia
Por O Estado de S. Paulo
O arquivamento do caso Monark corrige um erro
flagrante, mas expõe um vício renitente: a disposição de parte da sociedade e
das instituições em criminalizar opiniões controversas
O Ministério Público de São Paulo acertou ao
pedir o arquivamento da ação contra o influenciador Bruno Aiub, conhecido como
“Monark”, por apologia ao nazismo. Mas acertou tarde. A decisão reconhece, após
quatro anos de processo, exposição e desgaste, o que era evidente desde o
início. Resolve o caso, mas expõe um problema maior.
Ao dizer que “o nazista tinha que ter o
partido nazista reconhecido por lei”, Monark não fez apologia ao nazismo, só
sustentou, de forma confusa, uma tese sobre as liberdades de expressão e
associação. A rigor, apenas defendeu que a legislação brasileira deveria ser
igual à de outras democracias, como a dos Estados Unidos. Defender o direito de
alguém promover abjeções não é promover abjeções. Foi essa distinção elementar
que parte da opinião pública e das instituições não conseguiu (ou não quis)
fazer.
O processo não só se alongou indevidamente;
ele nunca deveria ter existido. E, como em tantos outros casos, o percurso já
produziu seus efeitos: estigmatização, perda de espaço profissional, incentivo
ao assédio. Quando veio a revisão, o dano já estava consumado.
O caso está longe de ser isolado. A feminista
Isabella Cêpa respondeu a processo criminal provocado pela deputada transexual
Erika Hilton por chamá-la de “homem”, chegando a obter asilo na Europa, como
perseguida política, antes de ver as ações contra ela serem arquivadas. O
humorista Léo Lins foi condenado a oito anos de prisão por piadas sobre
minorias, em decisão depois revista – mas ainda sob risco de reversão.
É um padrão. Primeiro vem a fala controversa.
Depois, a reação indignada. Em seguida, a pressão por punição. Então entra o
aparato estatal. Confunde-se ofensa com crime, crítica com discriminação,
incômodo com dano. Categorias moralistas substituem critérios jurídicos. O
sistema reage antes de qualificar. Mais tarde, na melhor das hipóteses, vem a
correção – cada vez mais incerta.
A sociedade civil é livre para reprovar,
boicotar, protestar, exagerar e até mentir – desde que sem fraude, calúnia ou
incitação direta ao crime. Cancelamentos podem ser irresponsáveis e injustos –
além de contraproducentes –, mas fazem parte do jogo democrático. A responsabilidade
do poder público, contudo, é de outra ordem. Sua função é conter excessos, não
amplificá-los. Cabe ao Executivo não se imiscuir em guerras culturais nem se
arvorar em gestor do debate público, e ao Legislativo resistir à tentação de
leis vagas que transformam opiniões controversas em infração, como já ocorre na
Lei Antirracismo, que pode ser turbinada por projetos sobre misoginia. À
Justiça, por sua vez, cabe não agir sob impulso nem validar acusações
flagrantemente infundadas.
Quando denúncias ineptas são admitidas,
promovidas e corrigidas apenas muito tempo depois, o sistema transmite um sinal
perigoso de permissividade com a intolerância, corroendo a previsibilidade que
o pluralismo exige.
O episódio expõe uma certa imaturidade no
Brasil em relação à liberdade de expressão. Há dificuldade em lidar com falas
erradas, ofensivas ou impopulares sem recorrer ao Direito Penal. O desconforto
é rapidamente tratado como violação, e a crítica, como agressão. Em vez de
responder com mais discurso, busca-se silenciar.
O arquivamento do caso Monark foi o mínimo
necessário. Mas não repara totalmente os danos de um processo que nem deveria
ter começado. E, como prova de que muitos agentes públicos não esqueceram nada
e não aprenderam nada, o Ministério Público Federal acaba de abrir uma ação
contra o apresentador de TV Ratinho por provocação da mesma Erika Hilton e
pelos mesmos motivos que embasaram o achaque a Isabella Cêpa.
A liberdade de expressão não se mede quando
protegemos o que aprovamos, mas quando resistimos à tentação de criminalizar o
que nos desagrada. Antes corrigir tardiamente do que nunca. Mas o
reconhecimento tardio, quando já houve custo para o acusado e a liberdade de
expressão já foi debilitada, é apenas uma justiça incompleta. A justiça plena
depende de que o Ministério Público e o Judiciário aprendam a cortar o mal pela
raiz, dando a esse tipo de denúncia o destino que ela merece: a lata de lixo.
O oportunismo de sempre
Por O Estado de S. Paulo
Em busca de votos, governo Lula usa conflito
no Irã como desculpa para ajudar companhias aéreas
Na tentativa de mitigar os efeitos da guerra
travada por EUA e Israel contra o Irã sobre os preços dos combustíveis, o
governo Lula vem ampliando um pacote de bondades composto por renúncias fiscais
e subvenção extra ao preço do diesel e do gás de cozinha.
Mundo afora, diversos governos têm adotado
medidas para reduzir o impacto da disparada do preço do petróleo, o que é
compreensível, já que a forte alta da commodity pressiona toda a cadeia
econômica, nacional e global. É o preço que se paga pelo fechamento do Estreito
do Ormuz, por onde passa parte relevante da produção mundial de petróleo.
Logo, ainda que sempre caibam críticas ao
governo petista por gastar desenfreadamente como se eventos como a covid-19 e o
conflito no Irã fossem permanentes, e que haja dúvidas quanto à eficácia do
grosso das medidas propostas até aqui, reconhece-se que o governo não poderia
ficar sem nada fazer.
Ocorre que a emergência da guerra coincide
com a queda da popularidade de Lula, que tentará um quarto mandato presidencial
nas eleições de outubro. Nesse cenário, o conflito no Irã serve de desculpa
para que o governo também tente melhorar seu potencial de votos entre as
camadas da população que lhe são refratárias, como as classes de rendas média e
alta.
Não é por outro motivo que o recém-empossado
ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, anunciou uma linha de crédito
bilionária para as companhias aéreas. O governo também zerou as alíquotas de
PIS e Cofins sobre o querosene de aviação (QAV).
“Recentemente, alcançamos recorde no número
de passageiros no transporte aéreo, e o governo tem a preocupação de manter
essa trajetória de crescimento e da conectividade regional”, tentou justificar
Franca.
Além de ter impacto incerto sobre o humor do
eleitor – é com o voto que o governo está realmente preocupado –, segurar o
preço das passagens aéreas pode prejudicar os mais pobres, que acabarão pagando
a conta mesmo sem andar de avião.
Especialistas apontam ainda para as
distorções que essa intervenção pode causar sobre o sistema de preços de
passagens aéreas, que podem se alongar no tempo. Nesse caso, melhor seria
deixar que os preços se ajustassem à realidade momentânea.
A guerra e seus efeitos não durarão para
sempre, enquanto preços que não refletem o valor real de um serviço, como voar
de avião, podem se converter numa questão de difícil resolução no longo prazo.
Ademais, a pressão para que um governo em
busca de reeleição estenda o prazo de medidas transitórias – e custosas – não
deve ser desprezada.
Por fim, há também o risco de que setores
que, ao contrário do aéreo, ainda não foram contemplados no pacote de bondades
lulopetista busquem os mesmos privilégios. O governo joga um jogo perigoso ao
escolher segmentos vencedores e perdedores da economia, abrindo brechas para
mais demandas.
Enroscado com a queda de sua popularidade, Lula se arrisca ao empurrar para os mais pobres o custo de medidas que estão extrapolando o próprio escopo. E há sinais de que há muitas outras a caminho.
Proteção às crianças deve ir além do ECA
digital
Por Valor Econômico
A entrada em vigor da legislação não pode
eclipsar a necessidade de um debate mais amplo sobre a ulterior restrição de
acesso das crianças a certos serviços digitais
A Grécia será o primeiro país europeu a
proibir o acesso às redes sociais para crianças menores de 15 anos a partir de
1º de janeiro de 2027. A medida anunciada esta semana conta com o apoio
esmagador da população grega, segundo uma pesquisa de fevereiro, e vem a
atender as angústias das famílias com o aumento de casos de ansiedade e
problemas de sono das crianças, capturadas pelo design viciante das plataformas
online. No Brasil, entrou em vigor em março a Lei do Estatuto Digital da
Criança e do Adolescente, o chamado ECA digital, que impõe regras mais
rigorosas para a proteção de menores de 18 anos nas plataformas online, como
redes sociais, jogos e apps. No entanto, a lei corre o risco de ser leniente
demais diante do comportamento contumaz dessas plataformas, exposto, por
exemplo, no recente processo em que Meta e Google foram condenados pela Justiça
americana. As evidências trazidas no julgamento indicam que essas empresas
utilizaram deliberadamente mecanismos que buscam viciar os jovens e ignoraram
procedimentos para protegê-los. O governo e o Congresso brasileiro deveriam,
séria e rapidamente, iniciar a discussão sobre passos mais duros em relação ao
acesso de menores a esses serviços digitais, como já fez a Austrália e agora, a
Grécia.
O ECA digital foi uma reação tempestiva do
Legislativo brasileiro à grande repercussão social e política das denúncias de
exploração sexual e adultização de crianças na internet, feitas pelo
influenciador Felipe Bressamin, o Felca. Buscou-se então garantir que direitos
e proteções previstos para o mundo físico pelo Estatuto da Criança e do
Adolescente fossem também estendidos ao ambiente virtual. Entre outras medidas,
a lei prevê a verificação obrigatória de idade (acaba a autodeclaração) e a
configuração automática do maior nível de segurança e privacidade para contas
de menores de 16 anos; veda a coleta excessiva de dados, o rastreamento para
exibição de publicidade comportamental e a monetização de perfis de menores;
avança na responsabilização das plataformas quanto à remoção de conteúdos
inadequados ou prejudiciais; fortalece a supervisão parental; e estabelece
punições.
Essas medidas reforçarão, sem dúvida, a
proteção dos menores contra abusos praticados por terceiros no ambiente
virtual. Mas dois processos julgados em março nos EUA sugerem que o ECA Digital
corre o risco de já nascer defasado diante de abusos que parecem estar sendo
cometidos pelas próprias plataformas digitais.
No Novo México, um júri condenou a Meta, dona
do WhatsApp, do Instagram e do Facebook, a pagar US$ 375 milhões em multas por
violação da lei de proteção ao consumidor. A empresa foi acusada de enganar
usuários sobre a segurança de suas plataformas e não coibir a exploração sexual
infantil, permitindo até que abusadores tivessem acesso a usuários menores de
idade, o que levou a casos físicos de violência sexual. A Meta negou as
acusações, dizendo que mantém amplas medidas de proteção de usuários mais
jovens.
Na Califórnia, também um júri popular
considerou a Meta (Instagram) e o Google (YouTube) culpados de negligência em
relação ao vício em redes sociais e de contribuir para a crise de saúde mental
de uma adolescente, identificada como Kaley, hoje com 20 anos. No processo,
foram apresentados documentos que mostraram que as empresas sabiam que certos
recursos poderiam causar dependência similar à química, mas que prosseguiram,
priorizando o engajamento e a rentabilidade.
O impacto da internet na saúde mental das
crianças e adolescentes ainda é um debate aberto na comunidade científica.
Alguns pesquisadores afirmam que há danos. Outros contra-argumentam que as
evidências ainda não são sólidas e que outros fatores podem estar por trás do
aumento nos casos de transtornos mentais entre jovens.
Como ficou exposto nos processos nos EUA,
essas plataformas foram concebidas para gerar dependência, e essa dependência
tem efeitos deletérios na vida dos jovens. Devido ao vício, eles passam a se
isolar e a interagir menos com família e amigos, além de transcurar os estudos.
A Austrália se tornou, em dezembro do ano
passado, o primeiro país a aprovar a proibição do uso de redes sociais por
menores de 16 anos. A França já aprovou a restrição em primeira votação. Vários
outros países, como Dinamarca, Alemanha, Indonésia, Espanha, Índia e Malásia,
devem anunciar proibições similares. Nos EUA, entrou em vigor em dezembro, no
republicano Estado da Flórida, a proibição para menores de 14 anos de manterem
conta em sites de redes sociais. Isso mostra que o tema é de interesse tanto da
esquerda como da direita. Afinal, não se trata de censura, e sim de uma medida
de proteção preventiva em favor da saúde mental e da plena inserção social das
nossas crianças.
No Brasil, a entrada em vigor do ECA digital não pode eclipsar a necessidade de um debate mais amplo sobre a ulterior restrição de acesso das crianças a certos serviços digitais. Os primeiros bons resultados da proibição do uso de celulares nas escolas sugerem que esse possivelmente é o caminho correto.
Um respiro incerto no Golfo
Por Correio Braziliense
A eventual reabertura do Estreito de Ormuz
não deve ser celebrada como uma concessão benevolente de Teerã ou como um
triunfo estratégico da Casa Branca
O frágil cessar-fogo entre os Estados Unidos
e o Irã oferece ao mundo um respiro momentâneo em meio à asfixia geopolítica
dos últimos meses. A simples perspectiva de reabertura do Estreito de Ormuz,
artéria por onde escoa a maior parte do petróleo global, já foi suficiente para
trazer um alívio imediato aos mercados. O momento, porém, exige frieza
diplomática para conter qualquer otimismo precipitado. Afinal, o que se desenha
no horizonte não é a pacificação da região, mas apenas uma pausa provisória em
um conflito que continua a emitir sinais de alerta máximo.
Basta olhar para o cenário adjacente.
Enquanto Washington e Teerã negociam um recuo tático no Golfo Pérsico, o Líbano
continua sob fogo. Os ataques de Israel em território libanês evidenciam o
perigoso transbordamento da guerra, que espalha a instabilidade para além das
fronteiras iniciais do conflito. A tensão regional segue altíssima, e a fumaça
nos céus de Beirute prova que um acordo isolado sobre rotas marítimas é incapaz
de desarmar a bomba-relógio do Oriente Médio, enquanto os aliados de ambas as
partes continuarem alimentando a engrenagem do conflito.
Nesse contexto, é crucial resgatar a memória
recente: antes da desastrosa escalada militar em andamento, o Estreito de Ormuz
operava normalmente. O bloqueio da via não foi uma fatalidade incontrolável,
mas o subproduto direto de uma guerra desnecessária que transformou o comércio
global em refém.
O custo do confronto está sendo cobrado nas
bombas de combustível e nas prateleiras dos supermercados ao redor do globo. A
interrupção prolongada no fluxo de energia não atinge apenas os painéis das
bolsas de valores, mas encarece o frete, trava a cadeia produtiva e penaliza,
de forma desproporcional, os países em desenvolvimento e as populações mais
vulneráveis. Aceitar a normalização desse tipo de chantagem — seja por
bloqueios marítimos ou por bombardeios preventivos — é permitir que disputas de
poder no Golfo Pérsico ditem o empobrecimento de cidadãos a milhares de
quilômetros de distância.
A eventual reabertura do canal, portanto, não
deve ser celebrada como uma concessão benevolente de Teerã ou como um triunfo
estratégico da Casa Branca. Trata-se, unicamente, do fim temporário de um
absurdo que vem punindo países que nada têm a ver com o conflito.
A comunidade internacional não pode,
portanto, dar-se ao luxo de atuar apenas como espectadora aliviada desse frágil
armistício. É hora de a ONU, a Rússia e a China, além de blocos econômicos,
como o Mercosul, abandonarem a letargia e usarem essa breve janela de
oportunidade diplomática para exercer uma pressão sobre todos os atores
envolvidos.
O objetivo não pode ser apenas estender uma trégua frágil para que os navios voltem a passar, mas forçar um fim definitivo das hostilidades e a garantia de longo prazo para a segurança de Ormuz. É imperativo transformar o alívio temporário em um acordo permanente. Do contrário, se o mundo apenas cruzar os braços à espera do bom senso de líderes belicosos, esse cessar-fogo entrará para a história apenas como o breve e ilusório silêncio que antecedeu uma tragédia ainda maior.
Praia do Futuro: acordo põe fim a impasse
Por O Povo (CE)
O tempo vai dizer se o consenso formado em
torno do assunto vai se manter, quanto aos limites para a utilização das áreas
pertencentes à União
Depois de mais de duas décadas, chega ao fim
um impasse que mobilizou a sociedade cearense para discutir se as
"barracas" deveriam ser removidas da Praia do Futuro e,
caso permanecessem, em que condições deveriam funcionar.
É de se registrar que Fortaleza é
praticamente o único caso no Brasil em que grandes estruturas fixas ocupam a faixa
de areia, em área pertencente à União.
Porém, a Associação dos Empresários da Praia
do Futuro (AEPF) argumenta que as barracas fazem parte da cultura do
fortalezense, alertando ainda que são um ativo turístico, por isso deveriam ser
mantidas. Em outras praias brasileiras, o mais comum são quiosques ou barracas
padronizadas, distantes das áreas de banho ou lazer.
Essa "evolução" de simples barracas
de uma antiga Praia do Futuro para empreendimentos de grande porte foi
acontecendo ao longo dos anos, sem nenhum critério, sempre sob contestação do
Ministério Público Federal (MPF). Afinal, a praia é um bem público, que deve
estar desimpedida para o uso comum. No entanto, as grandes estruturas fixas
instaladas na Praia do Futuro contrariam a legislação e inibem a circulação de
banhistas.
Ao longo dos anos, procurou-se uma saída para
resolver o impasse. Entre negociações e ações judiciais para a retirada
completa das estruturas, passaram-se 21 anos até chegar-se a um acordo, assinado na quarta-feira, entre União, Governo do
Ceará, Prefeitura de Fortaleza, MPF e a associação de empresários.
A partir deste ano, os proprietários das
barracas deverão pagar pela cessão de uso onerosa dos terrenos. Em
contrapartida, a União reconhece a legalidade das atividades, garantindo segurança
jurídica para novos investimentos.
O acordo também prevê mudanças estruturais, como
a limitação do tamanho das barracas, que deverão ter entre 500 m² e 1.500 m².
Além disso, fica proibido o uso da área para a instalação de grandes
equipamentos de lazer, como parques aquáticos.
Melhor o acordo do que continuar o litígio,
pois é de se considerar que a retirada completa das barracas se tornaria
inviável, por questões econômicas, e também porque frequentar as barracas da
Praia do Futuro é um hábito arraigado entre os moradores de Fortaleza.
O tempo vai dizer se o consenso formado em torno do assunto vai se manter, quanto aos limites para a utilização das áreas pertencentes à União. Ou se as promessas de "requalificação" do local serão mesmo efetuadas pela Prefeitura de Fortaleza, que passa a ser responsável pela administração da Praia do Futuro. E, ainda, se haverá fiscalização efetiva — espera-se que com contribuição de todas as partes — para que as balizas estabelecidas para os empreendimentos comerciais sejam respeitadas.

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