sexta-feira, 10 de abril de 2026

Quatro pedras no caminho da polarização, por Fernando Luiz Abrucio*

Valor Econômico

Força dos candidatos vai variar conforme lidem com efeito Trump, casos de corrupção, situação nos estados e eleitor independente

O que as eleições presidenciais de 2022 e 2026 têm em comum? Os analistas políticos, de forma quase unânime, responderiam: a permanência da polarização entre o lulismo e o bolsonarismo. Mas isso quer dizer que o enredo da corrida eleitoral será o mesmo? Aqui estão as diferenças.

Há temas que podem afetar ambos os lados, de maneira a enfraquecer um ou outro, gerando maior incerteza do que no pleito passado. Na verdade, existem pelo menos quatro pedras no trajeto cujas dificuldades podem ser antevistas agora, mas cujos desfechos ainda são imprevisíveis.

A história de 2022 foi um samba de uma nota só. Foi uma eleição polarizada e a mais concorrida desde a redemocratização, mas o enredo dividia claramente os presidenciáveis e suas estratégias. O fio condutor era o desempenho do governo Jair Bolsonaro. Os bolsonaristas defendiam com unhas e dentes seu líder, aceitando inclusive algum desfecho “heterodoxo” e golpista, enquanto a oposição comandada por Lula dizia que a reeleição do presidente significaria a continuação da tragédia simbolizada pela política contra a covid-19 e mesmo o fim da própria democracia.

Houve episódios emocionantes durante a campanha, como as loucuras de Roberto Jefferson e Carla Zambelli, porém, o plebiscito da eleição nunca mudou de sentido. O resultado final foi uma vitória apertada e pelo negativo, pois Lula venceu principalmente para que o bolsonarismo não continuasse no poder. Obviamente que agora há também um voto de avaliação do governo lulista, como sempre ocorre em tentativas de reeleição. Só que o jogo de 2026 é mais complexo, pois as forças dos candidatos poderão variar na longa caminhada até outubro conforme lidem com quatro pedras presentes na corrida eleitoral.

A primeira pedra é o cenário geopolítico, derivado basicamente da política externa do governo Trump. Suas políticas podem atrapalhar Lula ou Flávio Bolsonaro, e ambos têm menos controle do que imaginam sobre essa enorme influência exógena. A boa estratégia será usar os efeitos da ação trumpista a seu favor, em meio a uma grande incerteza em acompanhar os momentos de fúria impetuosa ou de confusão do presidente americano - para não falar de suas amareladas, o já famoso Taco (Trump Always Chicken Out).

Lula perde com os efeitos econômicos da política trumpista. O preço do petróleo ou novas tarifas podem atrapalhar o caminho da reeleição, especialmente se tiverem efeitos negativos no custo de vida dos brasileiros. Por quanto tempo a guerra contra o Irã vai afetar a economia mundial? Ninguém honestamente sabe.

O risco para o outro lado é outro: Trump é muito mal visto pelo eleitorado brasileiro, e quem se abraçar demais com ele aumenta suas chances de derrota. Flávio Bolsonaro não se deu conta que esta não é a eleição de seu pai, em 2018, e continua propondo um amor carnal com o presidente americano que a maioria do povo no Brasil não quer.

Imaginem se Trump punir o Brasil por causa do Pix. O culpado dessa desgraça será o presidente americano, e quem estiver ao lado dele será seu cúmplice. Não adianta Flávio Bolsonaro dizer que foi o governo de seu pai o criador dessa instituição nacional. Ele terá que dizer que discorda do trumpismo e que não aceitará tal interferência na política brasileira. Se fizer isso, o bolsonarismo terá de mudar toda a sua cartilha de forma relâmpago. Qual a probabilidade de essa metamorfose ocorrer?

Incertezas grandes podem derivar de uma segunda pedra, relacionada aos casos de corrupção ou desvio ético. A novela do Master tem enormes probabilidades de ser marcante no pleito de 2026. Políticos de muitos lados podem surgir como protagonistas dessa história, que pode tirar muitos votos. Pelos fatos conhecidos até aqui, a maioria dos envolvidos está ligada ao Centrão, cujos caciques vinculados ao escândalo tendem a se tornar muito tóxicos para as candidaturas presidenciais.

Por isso, fazer alianças com alguns desses partidos ou líderes do Centrão pode ser um tiro no pé. Isso atrapalha mais Flávio Bolsonaro, que pretendia ter esses parceiros para se vender como a faceta moderada do bolsonarismo. Se os presidentes do PP e do União Brasil forem colocados no centro da ribalta do caso Master, quem estiver com eles será visto como companheiro de corruptos que roubaram dinheiro público e privado.

Só que o caso Master é um combo muito amplo, aparentemente envolvendo muita gente, e não só do mundo da política. Embora envolva empresários, funcionários públicos e até uma igreja, seu impacto maior, por ora, está no possível relacionamento espúrio com ministros do Supremo Tribunal Federal. Por conta disso, esse escândalo ganha no momento um caráter maior de crise do sistema político brasileiro.

Ainda não se sabe a dimensão que esse fenômeno terá na corrida eleitoral, mas duas coisas são certas. A primeira é que Lula, mesmo não havendo nenhum indício de participação no caso, é mais prejudicado do que a oposição. O presidente é visto como o fiador último das instituições para o povo e, ademais, o lulismo aliou-se fortemente com o STF nos últimos anos, especialmente para contrabalançar sua fragilidade no Congresso Nacional. Uma segunda coisa também é bem provável: o discurso bolsonarista contra a “ditadura” do Supremo vai se fortalecer nas eleições, ajudando Flávio Bolsonaro.

A discussão sobre a corrupção e desvios éticos, no entanto, não termina no caso Master. Em especial, o que Flávio Bolsonaro, junto com o bolsonarismo do Rio de Janeiro, fez nos verões passados pode ser uma pedra muito pesada no meio do caminho eleitoral. O escândalo da rachadinha e suas derivações em lojas de chocolate de fachada com certeza voltarão à boca do povo. Neste episódio, há uma contradição para o discurso bolsonarista: quem salvou Flávio Bolsonaro dessa investigação foram dois ministros do STF que os bolsonaristas querem mandar para casa. Com certeza, o passado não será apagado numa situação de crise.

A terceira pedra já é velha conhecida da política brasileira, mas parece que suas armadilhas estão mais perigosas em 2026. Trata-se da dinâmica regional que afeta as alianças políticas e as estratégias de conquista do voto majoritário do povo brasileiro. Por exemplo, a entrada de Ronaldo Caiado na disputa presidencial influenciará eleições estaduais, como as de Goiás e do Paraná, além de ter o potencial de retirar votos de Flávio no agro e entre os evangélicos.

Além disso, Bolsonaro filho construiu poucos palanques bons no Nordeste e há incertezas em Minas Gerais que não existiam em 2022. Mesmo no Rio, onde o bolsonarismo é forte, o legado desastrado de Cláudio Castro, cassado por corrupção e com parceiros presos por ligação com o Comando Vermelho, poderá ter um peso maior do que se imagina.

Lula não escapa dessas armadilhas. Em São Paulo terá uma disputa duríssima. Há ainda muitas incertezas em Minas. Nos estados do Sul pouco se avançou eleitoralmente desde a última disputa presidencial, o que se complica ainda com a briga do PT nacional com a seção gaúcha do partido. E mesmo no Nordeste, onde o lulismo tem sua maior fortaleza eleitoral, o cenário não é tão róseo como no passado, com uma disputa difícil no Ceará e uma forte indefinição no Maranhão.

A quarta e última pedra é o sentimento de cansaço de parte decisiva do eleitorado, particularmente dos chamados independentes. É um grupo que sozinho não vence a eleição presidencial. Contudo, dado o quase empate entre os grupos polarizados, o voto que decidirá o pleito nacional virá de quem não se perfila automaticamente a nenhum dos polos.

Se em 2022 tais eleitores votaram em Lula porque queriam se livrar de Bolsonaro e mudar o governo, seu desejo hoje é de renovação, algo que para os independentes não está representado pelas duas principais candidaturas ao Palácio do Planalto.

Como as pedras relativas ao trumpismo e aos escândalos de corrupção podem ter efeitos diversos e ainda incertos sobre Flávio Bolsonaro e Lula, os eleitores independentes vão esperar para ver, observando o comportamento desses candidatos para punir o que se tornar o mais rejeitado entre eles. Afora isso, a dinâmica das eleições estaduais também mexerá com esse voto não polarizado, de modo que bolsonarismo e lulismo dependem em parte dos resultados das eleições estaduais.

Outras questões e fatos novos - o Imponderável da Silva, como diria Nelson Rodrigues - podem surgir no meio do caminho da polarização. Embora Caiado tenha dificuldades de ultrapassar Flávio Bolsonaro, até porque demorou para se desvencilhar do bolsonarismo, o seu crescimento em torno de experiência governamental ou de erros de seu adversário na extrema direita pode, sim, tornar as eleições mais competitivas e emocionantes.

Até que ponto? É difícil dizer isso agora, mas o caminho para romper a dualidade presidencial é duro. Surgiram candidatos antissistema que podem tirar poucos votos dos líderes, mas sua importância maior é gerar caminhos de decisão eleitoral, sobretudo no segundo turno, para os cansados eleitores independentes.

De todo modo, a polarização vai ser, no mínimo, moldada por quatro grandes pedras na corrida eleitoral. Quem lidar melhor com elas vencerá a disputa presidencial de 2026.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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