Modernizar portos é essencial para segurança
Por O Globo
Quadrilhas do narcotráfico se aproveitam de
atraso para exportar droga e financiar atividades ilegais
Um país acossado por organizações criminosas transnacionais que dependem das rotas do tráfico para enviar drogas ao exterior deveria vigiar melhor seus portos. Lamentavelmente, não é o que acontece. Um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) publicado no mês passado ressalta que as autoridades enfrentam fragilidades tecnológicas, falhas de coordenação institucional e a falta de uma estratégia nacional integrada para combater o narcotráfico, como mostrou reportagem do GLOBO.
Padrão internacional adotado em terminais
europeus e latino-americanos, o Sistema de Informações de Gerenciamento de
Tráfego de Navios (VTMIS) existe apenas no Porto de Vitória. Integra radares,
sensores e outros sistemas permitindo monitoramento contínuo. “O VTMIS é um
plano do Porto de Santos há anos”, diz Gabriel Patriarca, pesquisador do Núcleo
de Estudos da Violência (NEV/USP). “Sua ausência deixa vulneráveis as áreas
mais remotas, longe do cais.” Portos como Santos, Paranaguá, Suape ou Itajaí
não dispõem nem da versão mais simples do sistema, o Serviço de Tráfego de
Embarcações (VTS). Além do aperfeiçoamento tecnológico, o TCU propõe também
melhor integração entre Receita e Polícia
Federal (PF) para evitar sobreposição de atividades.
As quadrilhas têm diversificado seus métodos
e adotado estratégias cada vez mais sofisticadas para burlar a vigilância.
Chegam a prender pacotes de cocaína ao casco dos navios com ajuda de
mergulhadores, içam carregamentos clandestinos em alto-mar ou inserem a droga
em contêineres com cargas insuspeitas. Também têm usado com mais frequência
rotas menos visadas pelas autoridades e portos fora do eixo Rio-São Paulo.
É certo que, dentro de suas limitações, as
autoridades não têm deixado de agir. Somente no Porto de Santos, Receita e PF
apreenderam desde janeiro mais de uma tonelada de cocaína escondida de diferentes
formas: no casco de navios, misturada a carregamentos de papel, óleo de soja ou
no forro do teto de um caminhão que transportava contêineres a uma embarcação.
Mas as ações não são tão eficazes quanto poderiam. Não surpreende que
carregamentos consigam furar os bloqueios. Em janeiro, a polícia da Espanha
apreendeu 10 toneladas de cocaína num navio que fizera escala no Brasil.
É boa notícia que a instalação de VTMIS
esteja prevista no novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para os
portos de Santos, Rio de Janeiro, Itaguaí e Itaqui, ao custo de R$ 50 milhões.
Mas, diante do crescimento das facções criminosas, os sistemas já deveriam
estar em funcionamento. O país precisa dispor de tecnologia de ponta para
vigiar os portos. Não pode ficar para trás.
O combate ao tráfico internacional não
desafia apenas o Brasil. O crime ocorre também em portos do exterior. Mas
precisa ser enfrentado. O país acaba de criar uma Lei Antifacção, e uma
Proposta de Emenda à Constituição com foco na atuação de organizações
criminosas tramita no Congresso. É fundamental agir em todas as frentes. A
exportação de grandes quantidades de droga capitaliza as quadrilhas, permitindo
que comprem armas e equipamentos cada vez mais sofisticados para enfrentar o
Estado. Interceptar esse fluxo, apreendendo a droga, é uma maneira eficaz de
asfixiá-las financeiramente. Quanto mais bem preparado o país estiver para
isso, melhor.
Sem competição, Brasil seguirá na retaguarda
da indústria global
Por O Globo
País ficou na 64ª posição entre 83 países em
ranking que mede expansão da atividade industrial
O Brasil fechou 2025 na vexatória 64ª posição
entre 83 países no ranking global que mede o ritmo de expansão da atividade
industrial, elaborado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento
Industrial (Iedi) a partir de dados da agência da ONU para promoção do
desenvolvimento da indústria. Foi a pior colocação desde 2022, quando o país
ocupou o 71º lugar. O resultado não surpreende. Como a indústria local cresce
abaixo da média global, o Brasil tem lugar quase cativo na metade de baixo da
lista.
Empresários do setor culpam os juros altos
pela queda recente no ranking. É verdade que o endividamento inibe o consumo, e
o custo do dinheiro penaliza o financiamento ao capital de giro. Mas também é
verdade que, além desses fatores conjunturais, a indústria brasileira enfrenta
problemas estruturais faz tempo. A manufatura nos países mais avançados se
baseia nos ramos de alta tecnologia, onde estão os maiores investimentos em
automação, digitalização e sustentabilidade. No Brasil, esses segmentos mais
dinâmicos não chegam a um terço da indústria, ante quase 50% nos países
avançados.
Historicamente, a indústria brasileira
investe pouco no desenvolvimento de novas tecnologias e apresenta baixa taxa de
adoção de tecnologias desenvolvidas fora do país. Por aqui sempre prevaleceu a
estratégia de manter tarifas alfandegárias nas alturas para proteger um parque
industrial obsoleto. As barreiras podem ter motivado muitos estrangeiros
interessados em explorar o mercado interno a se instalar no Brasil, mas também
serviram de empecilho a que o país conectasse a produção local às cadeias
globais de suprimentos.
Não surpreende que os 25 países mais pobres
sejam os que adotam as tarifas mais altas, o dobro da taxa observada em
economias de alta renda, segundo relatório recente do Banco Mundial. Economias
de renda média-alta são pródigas em subsídios que elevam custos para
praticamente todas as demais empresas e se perpetuam como distorção e
ineficiência no mercado. Um agravante no caso brasileiro foi a manutenção por
décadas de uma estrutura tributária bizantina. Decisões de investimentos eram
tomadas levando em conta vantagens nos impostos, não a eficiência da produção.
É possível que, nos próximos anos, uma nova dinâmica ajude a transformar a realidade da indústria brasileira. A implantação da reforma tributária promete no mínimo reduzir as distorções. E o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia criará um ambiente mais propício ao aumento da competitividade. O Brasil tem de intensificar os esforços para abrir mais a economia à competição internacional. O nível baixo de concorrência garante a sobrevivência dos piores e limita o crescimento dos melhores. Claro que uma política fiscal responsável que ajude a baixar os juros também é fundamental. Mas, sem competição para valer, o Brasil seguirá na retaguarda do ranking da indústria global.
Um Supremo mais contido defenderá melhor a
democracia
Por Folha de S. Paulo
Segundo o Datafolha, maioria acha que a corte
é sustentáculo das liberdades, mas que acumulou poder demais
Demagogia, como a tentativa de indiciar três
ministros, é o que o STF estimula quando evita reformas e protege alguns de
seus membros
Denotam sabedoria popular os principais resultados
da pesquisa Datafolha mais
recente sobre o Supremo Tribunal Federal. Mais de 70% reconhecem o papel
essencial da corte para a democracia. Maioria
equivalente concorda que o colegiado acumulou poder demais.
Implícito no diagnóstico dessa amostra,
representativa de dezenas de milhões de brasileiros, há de estar o valor
atribuído ao tribunal como anteparo intransponível às tentativas de assalto
autoritário encabeçadas por Jair Bolsonaro (PL) enquanto ele ocupou a
Presidência da República.
Decerto também eleva essa conta de alta
estima popular a coragem dos supremos magistrados ao julgarem e condenarem o
ex-presidente e assessores civis e militares que tramaram subverter a ordem
constitucional após terem sido derrotados nas urnas.
De outro lado, as derrapagens e exorbitâncias
de ministros do STF tampouco
passaram despercebidas pelo crivo dos cidadãos. Embasa-se em fatos a percepção
de que o nível de poder acumulado ao longo dos últimos anos, em especial pelos
juízes individualmente, tornou-se excessivo.
Os inquéritos abertos sem a devida provocação
do Ministério
Público e sustentados por anos a fio, a mistura dos papéis de
investigador, vítima e julgador, as ordens de censura, as reviravoltas de
jurisprudência e de balizas processuais e as canetadas que fulminaram multas
por corrupção tornaram-se práticas usuais.
Quem pode muito por vezes alarga as
fronteiras da própria conduta, pois crê-se imune à responsabilização. A
promiscuidade de alguns ministros com escritórios de parentes e as relações
impróprias com empresários interessados em julgamentos são decorrências
compatíveis com a hipertrofia da corte.
A falta de empenho da maioria do tribunal na
autocontenção e na autorreforma soma-se ao espírito de corpo que protege uma
minoria do devido escrutínio. Isso estimula arroubos de demagogia na
política, como
o pedido de indiciamento de Alexandre
de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes pelo
relator da CPI do Crime
Organizado, senador Alessandro
Vieira (MDB-SE).
Vieira faz politicagem com o tema porque seu
faro de candidato à reeleição detectou sangue na água. Um relatório de 200
páginas sobre a relação entre Dias Toffoli e o Banco Master foi
entregue pela Polícia
Federal ao STF, mas isso não deflagrou nenhuma iniciativa
investigatória da corte ou do procurador-geral, Paulo Gonet.
A população, como se vê pelo Datafolha, está
consciente de que é preciso desbastar os superpoderes do Supremo Tribunal
Federal para fortalecer, jamais enfraquecer, o seu papel de sustentáculo dos
direitos fundamentais.
Em vez de sabotar a
agenda reformista absolutamente razoável do presidente Edson Fachin,
a maioria dos ministros deveria abraçá-la já. As consequências de persistir-se
no encastelamento tendem a ser ruins não apenas para a corte mas para todo o
país.
A caótica política peruana
Por Folha de S. Paulo
Eleições para escolher o 10º presidente em
dez anos tiveram de ser prorrogadas devido a falha logística
Hipertrofia do Legislativo, incitada por
dispositivo vago da Constituição, torna a permanência do vencedor no cargo
incerta
Não é exagero usar o termo
"caótico" para qualificar a política peruana. Não somente a população
foi às urnas no último domingo (12) para escolher o 10º presidente em dez anos,
como mais de 50 mil eleitores não conseguiram votar devido a falhas de
logística.
Segundo autoridades, cerca de 13 pontos de
votação não receberam o material eleitoral a tempo; por isso, o
pleito prosseguiu no dia seguinte. Um funcionário do Escritório Nacional de
Processos Eleitorais (ONPE, em espanhol) foi preso após assumir a
responsabilidade pelo problema.
Com mais de 70% das urnas apuradas nesta
terça-feira (14), Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori (1990-2000),
liderava a corrida com 16,8% dos votos válidos. Em seguida, vinha Rafael López
Aliaga (12,6%), representante da direita populista que se apresenta como
um Donald
Trump latino-americano.
Roberto Sánchez —ex-ministro de Pedro
Castillo, presidente que tentou um golpe em 2022— chegou a aparecer em
segundo lugar nas pesquisas eleitorais, mas estava em quarto (10,5%). Com
11,7%, o centrista Jorge Nieto se aproximava de Aliaga.
Uma disputa no segundo turno é, portanto,
inevitável.
Trata-se de um cenário de extrema
fragmentação político-partidária. O pleito contou com 35 candidatos, um recorde
na história eleitoral do país, dissipando votos e aproximando as taxas dos
presidenciáveis. Tal fenômeno também se deu no primeiro turno do último pleito,
em 2021, quando Pedro Castillo obteve 18,9%, e Keiko Fujimori, 13,4%.
Os peruanos também escolheram deputados e,
pela primeira vez em 30 anos, senadores —a Casa foi recriada em 2024. E
é no Legislativo que se concentra o poder. Tal desequilíbrio, aliado a
escândalos de corrupção, é
o responsável pela sucessão de presidentes em tão pouco tempo.
Um
dispositivo vago da Constituição permite que o mandatário seja
retirado do cargo devido a incapacidade moral e a partir de maioria simples no
Parlamento.
Inflamando ainda mais o cenário, em 2025 o
país viveu ondas de protestos, que a princípio reagiam à insegurança e,
rapidamente, se voltaram contra a classe política. A violência é
o tema que mais preocupa os peruanos.
A previsão é que o segundo turno ocorra em 7 de julho. Mas, sem reforma política e maior equilíbrio entre Legislativo e Executivo, a permanência do vencedor no cargo é incerta. Ainda pior, políticas públicas em prol da população perdem espaço para contendas partidárias.
Até Zema tem chance contra Lula
Por O Estado de S. Paulo
Datafolha indica que Lula pode perder no 2º
turno até para candidatos hoje aparentemente inviáveis, revelando que eleitor
farto do PT não depende de um Bolsonaro para derrotá-lo
A mais recente pesquisa Datafolha de intenção
de voto à Presidência mostrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
aparece em dificuldade no segundo turno contra todos os adversários testados –
do hoje favorito Flávio Bolsonaro (PL) ao possível Ronaldo Caiado (PSD) e até
ao improvável Romeu Zema (Novo). Em todos os casos há empate técnico, dentro da
margem de erro.
Isso significa não só que Lula está em
apuros, como também – e talvez principalmente – que o eleitorado farto do PT
não depende de um Bolsonaro para derrotar Lula. Outros candidatos, muito mais
bem preparados que Flávio Bolsonaro para exercer a Presidência da República,
conseguem excelente desempenho no segundo turno. E todos eles têm a vantagem de
ter baixa rejeição, ao contrário de Flávio, um senador medíocre que vai
precisar dar muitas explicações sobre rachadinhas e milicianos ao longo da
campanha, além de carregar o legado pavoroso do pai, Jair Bolsonaro, que inclui
tentativa de golpe e condução irresponsável do País na pandemia de covid-19.
Por tudo isso, levar Flávio ao segundo turno, como “poste” de Jair Bolsonaro,
pode até mesmo aumentar as chances de Lula se reeleger, o que seria desastroso
para o País.
No campo petista, é devastadora a dimensão da
rejeição a Lula e ao seu governo, além do mau humor de parcela significativa do
eleitorado diante de um possível quarto mandato. Quando confrontado com
qualquer alternativa minimamente viável, mesmo incipiente, o presidente vê seu
desempenho travado. Na prática, o Datafolha indica que praticamente metade dos
brasileiros não deseja estender o mandato de Lula e está disposta a votar em
quem surgir para enfrentá-lo. Diante disso, pouco importa, num primeiro
momento, a densidade eleitoral do adversário. Num segundo turno, quando o voto
passa a ser a escolha entre dois polos, até candidaturas hoje frágeis podem se
tornar competitivas. Não por força própria, mas pela rejeição a Lula.
Esse fenômeno é parte do desgaste acumulado
do governo. Como este jornal vem sublinhando, trata-se de uma administração
marcada por mediocridade na entrega, incapacidade de produzir resultados
consistentes e uma dependência excessiva de fórmulas já testadas – e esgotadas.
A economia não se traduz em melhora perceptível no cotidiano, programas e
políticas sociais se concentram em modelos do passado, o estatismo lulopetista
é visto como inadequado para os anseios de autonomia e progresso dos cidadãos e
a condução política permanece refém de um modelo concentrado de exercício do
poder, voltado à companheirada e pouco permeável a forças políticas mais
amplas. Sem esquecer o vício incorrigível de Lula e do PT de operar sob a
lógica da divisão da sociedade.
Há também um elemento menos conjuntural e
mais profundo: a fadiga de material. Após décadas no centro da vida política
nacional, o lulopetismo dá sinais de envelhecimento. Suas ideias, antes
mobilizadoras, hoje soam repetitivas. Seu modelo de Estado encontra resistência
num país que se transformou social e economicamente. Isso ajuda a explicar por
que Lula, mesmo na Presidência, não consegue converter sua posição em vantagem
eleitoral sólida.
A eleição ainda está muito distante, mas já é
possível dizer que o antipetismo está fortemente arraigado no eleitorado. Ou
seja, todos os candidatos de oposição obviamente precisam explorar essa
realidade. No entanto, trata-se de condição necessária, mas não suficiente:
quem quiser ter sucesso na eleição precisa ir além do discurso contra o PT e
Lula. Aqueles que apresentarem propostas concretas para melhorar
estruturalmente a vida dos brasileiros, convidando o eleitor a pensar não no
presente, mas no futuro, podem ir além da polarização e conquistar corações e
mentes hoje capturados pelo bolsonarismo, que nada tem a propor a não ser o
velho reacionarismo do patriarca. O Brasil não pode perder a chance de sair
desta mediocridade que drena as energias dos cidadãos sem nos levar a lugar
algum.
Mais uma volta no torniquete orçamentário
Por O Estado de S. Paulo
Avanço de pisos constitucionais, como o da
PEC da assistência social, engessa ainda mais o Orçamento, comprimindo o espaço
de decisão do governo e pressionando Estados e municípios
A Câmara aprovou, em primeiro turno, a PEC
que cria um piso para a assistência social. O texto obriga União, Estados e
municípios a destinar ao menos 1% da receita corrente líquida ao setor. A
votação foi ampla, quase sem resistência. Ao mesmo tempo, o debate público é
dominado por alertas sobre a falta de espaço no Orçamento e o risco de
paralisia fiscal. As duas coisas avançam juntas.
Em ano eleitoral, esse mutirão dos deputados
em prol do “social” não é novidade. Diante de demandas legítimas – assistência,
saúde, educação –, a resposta padrão do sistema político é transformá-las em
obrigação permanente de gasto. Em vez de disputar prioridades dentro do
Orçamento, prefere-se retirá-las da disputa. A despesa já não é objeto de
negociações e escolhas sujeitas a revisão periódica – é gravada na
Constituição.
Vinculações à receita e mecanismos de
indexação operam de formas distintas, mas produzem efeitos semelhantes: elevam
a despesa por força própria. No primeiro caso, o gasto acompanha a arrecadação;
no segundo, responde a indexadores como o salário mínimo. Em ambos, reduz-se o
espaço de decisão e consolida-se o Orçamento num conjunto de compromissos
automáticos.
Cerca de 92% das despesas primárias já estão
comprometidas. Sobra menos de um décimo do Orçamento para tudo o que depende de
decisão de governo – do investimento em infraestrutura ao custeio da máquina
pública. Para 2026, as projeções apontam para quase R$ 2,9 trilhões em despesas
obrigatórias, ante pouco mais de R$ 200 bilhões de gastos discricionários.
A tendência é de aperto adicional. Uma
parcela relevante dessas despesas cresce acima da inflação, impulsionada por
indexações e vinculações à receita. Segundo estudo dos economistas Samuel
Pessôa e Fábio Serrano, do BTG Pactual, mantidas as regras atuais, o
crescimento automático do gasto pode adicionar perto de R$ 1,4 trilhão às
despesas públicas na próxima década. Mesmo períodos de maior arrecadação não
produzem alívio duradouro. O aumento de receita tende a ser acompanhado por
aumento do gasto.
Só na União, estima-se que a nova PEC traria
um impacto de R$ 16 bilhões por ano após implementação gradual. Estados e
municípios também serão pressionados. Pouco mais de mil cidades – em geral
pequenas – terão de elevar significativamente seus gastos, sem transição, o que
pode comprometer o equilíbrio fiscal local e ampliar a dependência de
transferências federais.
Tudo isso significa mais investimentos
adiados ou reduzidos. Programas encolhem e despesas básicas disputam espaço
escasso. O chamado gasto discricionário inclui desde obras de infraestrutura
até o funcionamento de universidades, hospitais e políticas públicas
essenciais, como em ciência e tecnologia, por exemplo. Quanto mais a margem se
estreita, menos o governo governa. Um estudo da Consultoria de Orçamento da
Câmara prevê que, sem mudanças, já a partir de 2027 os gastos obrigatórios
tenderão a ocupar todo o espaço disponível.
Os candidatos continuam a distribuir
promessas nos palanques, as eleições continuam a ignorar projetos e
prioridades, e a capacidade de implementá-los encolhe. A execução orçamentária
passa a depender menos de planejamento e mais de acomodação. A negociação
política se desloca para a disputa por parcelas cada vez menores de recursos
livres, frequentemente fragmentadas e de baixo impacto.
Ainda assim, os parlamentares seguem forjando
novas obrigações. A cada legislatura, pavimenta-se um novo piso. Raramente se
discute o conjunto. Quase nunca se revisam compromissos anteriores. O
diagnóstico do engessamento é amplamente conhecido, mas não altera o
comportamento que o produz. Medidas que ampliam despesas permanentes avançam
com rapidez; iniciativas que exigem contenção ou reavaliação enfrentam
resistência difusa e acabam postergadas.
A nova PEC insere-se nesse processo.
Isoladamente, pode parecer modesta. No conjunto, reforça uma trajetória de
engessamento. O Estado segue ampliando compromissos permanentes sem impor a si
mesmo limites equivalentes. Os pisos vão sendo justapostos no Orçamento. O teto
fica em segundo plano. Quanto mais se acumulam as boas intenções, mais se
multiplicam os maus resultados.
A genuflexão da Petrobras
Por O Estado de S. Paulo
Após ameaça de Lula, companhia informa que
devolverá o dinheiro extra arrecadado em leilão de gás
A diretoria executiva da Petrobras aprovou o
que chamou de “neutralização dos efeitos de preço decorrente do leilão de gás
liquefeito de petróleo (GLP)”, palavrório utilizado em nota para justificar o
injustificável: a devolução do dinheiro extra arrecadado num leilão de gás de
cozinha no qual a diferença em relação ao preço de tabela da companhia superou
os 100%.
De acordo com a empresa, a decisão
sustenta-se em “análises econômicas e de risco”, leva em conta a
“excepcionalidade” que o conflito no Oriente Médio provoca no mercado de
energia e, também, teria lastro em manifestações de órgãos como a Agência
Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Ainda não está claro nem como a empresa fará
o ressarcimento dos valores nem como tal medida beneficiará os consumidores. É
cristalino, porém, que a insólita decisão atende aos desígnios do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, para quem o certame foi uma “cretinice” e uma
“bandidagem”.
Lula prometeu cancelar o leilão, o que de
certa forma está ocorrendo sob o arranjo pouco ortodoxo da devolução de valores
previamente acordados entre o fornecedor, a Petrobras, e os compradores.
É como se alguém arrematasse uma obra de arte
por um determinado valor e, posteriormente, descobrisse que terá de desembolsar
menos do que se comprometeu a pagar pelo item desejado.
Não será surpresa se algum acionista da
empresa optar por questionar a devolução, pela Petrobras, de recursos que
clientes haviam ofertado pelo GLP distribuído pela empresa.
A medida só comprova que as reprimendas
públicas de Lula geram um clima de terror na Petrobras. Antes de “neutralizar”
o acertado no leilão, a empresa já havia promovido o “encerramento antecipado
do mandato” do diretor executivo de Logística e Comercialização, Claudio
Schlosser. Analistas ouvidos pelo Estadão alertaram que a exoneração
de Schlosser, a quem estava subordinada a área responsável pelo leilão que
provocou a ira de Lula, denota pressão política.
“A demissão após crítica pública do
presidente é um episódio que acende um alerta muito sério. A sinalização ao
mercado é clara: decisões técnicas podem estar sendo substituídas por pressões
políticas”, afirmou Lígia Maura Costa, coordenadora do Centro de Estudos em
Ética, Transparência, Integridade e Compliance da Fundação Getulio Vargas.
Em busca de seu quarto mandato presidencial, Lula vem amargando queda na popularidade, além do crescimento de seu provável oponente, Flávio Bolsonaro, na preferência do eleitor. Em algumas pesquisas, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro aparece à frente do petista. Por isso Lula vem abusando da criatividade e anunciando medidas que, supostamente, protegerão os mais pobres. A guerra no Oriente Médio tem servido de pretexto para que o presidente da República trate a Petrobras como sua propriedade. Para ele, pouco importa que a imagem da companhia saia mais uma vez prejudicada. O que interessa é que a Petrobras faça o que ele mandar.
Trump eleva risco de pior cenário para
economia global
Por Valor Econômico
Apesar do cessar-fogo frágil e temporário, os
impactos da guerra dos EUA e Israel contra o Irã estão evoluindo de uma fase
“aguda” para uma fase “duradoura”
A economia global corre o risco de
desacelerar para o ritmo mais fraco de crescimento desde a pandemia de
covid-19, em consequência da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, que
provocou o pior choque na oferta de petróleo desde 1973, segundo o mais recente
Panorama Econômico Mundial (WEO) do Fundo Monetário Internacional (FMI). A
guerra também ameaça a estabilidade financeira global, embora os investidores
se mostrem complacentes e sigam apostando em um desfecho positivo para o
conflito no Oriente Médio — ignorando as vulnerabilidades no sistema financeiro
que poderiam ser expostas por um choque mais prolongado. O bloqueio americano
do Estreito de Ormuz, que começou na segunda-feira, adicionou mais uma camada
de incerteza sobre a retomada do comércio de petróleo, gás e derivados por meio
dessa via, por onde antes passavam 20% do fluxo global dessas mercadorias.
Os impactos da guerra no Oriente Médio são
cada vez mais palpáveis ao redor do globo. Alguns dos países mais pobres do
mundo correm agora o risco de precisar de resgates do FMI, e espera-se que
solicitem apoio para lidar com a alta nos preços da energia e no custo dos
fertilizantes. O Fundo estima que cerca de metade da alta nos preços dos
fertilizantes se transforme em aumento nos preços dos alimentos após 12 meses.
O choque nos preços do petróleo — que saiu ao
redor de US$ 70 por barril antes da guerra para em torno de US$ 100 — fez a
Agência Internacional de Energia (AIE) reduzir sua previsão para a demanda
global este ano para 104,26 milhões de barris por dia, uma queda anual de 84
mil b/d. Em março, a previsão era de um aumento de 644 mil b/d. Os cortes mais
profundos vêm da região da Ásia-Pacífico.
“O bloqueio do Estreito de Ormuz
desestabilizou as cadeias de suprimentos para a Ásia”, com os produtos
petroquímicos “no centro da destruição da demanda”, segundo a AIE. “Nafta, GLP
e etano foram os produtos que sofreram a destruição de demanda mais evidente.
Os impactos mais severos foram observados no Oriente Médio e na Ásia, mas os
efeitos colaterais se espalharão para produtores em todas as regiões”,
acrescentou a agência. No comércio, o impacto estimado é uma desaceleração no
ritmo de crescimento em volume de 5,1% em 2025 para 2,8% este ano, segundo o
FMI, bem abaixo da taxa de 4,1% estimada em janeiro.
A escalada militar em curso no Oriente Médio
coloca dezenas de milhões de pessoas em risco de cair na pobreza em 162 países,
de acordo com novas projeções do Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (Pnud). Embora os impactos estejam concentrados nos países
diretamente afetados pelo conflito e naqueles dependentes de energia importada,
a agência aponta danos significativos a longo prazo em países mais pobres,
distantes dos combates.
Com a guerra em sua sexta semana, e apesar do
cessar-fogo frágil e temporário, os impactos estão evoluindo de uma fase
“aguda” para uma fase “duradoura”. Quanto mais tempo essa fase continuar, maior
será o risco de aceleração do aumento da pobreza em países vulneráveis, revela
o relatório. No pior cenário, mais 32 milhões de pessoas podem ser empurradas
para a pobreza.
“A guerra é o desenvolvimento ao contrário.
Um conflito pode desfazer em semanas o que os países construíram ao longo de
anos”, segundo Alexander De Croo, Administrador do Pnud e subsecretário-geral
da ONU.
“A cada dia que passa, o risco econômico
aumenta cada vez mais”, disse o economista-chefe do FMI, Pierre-Olivier
Gourinchas, ao Financial Times.
Se as perturbações provocadas pela guerra
persistirem muito, o crescimento econômico mundial poderá cair para cerca de 2%
em 2026, uma taxa vista apenas durante as duas grandes crises deste século: a
financeira global de 2008 e a covid em 2020. Nesse cenário, o mais “grave” do
FMI, a inflação global poderia atingir 6%. Mesmo se o conflito no Oriente Médio
acabar rapidamente, o estrago na economia global já está feito. Nesse cenário,
que seria o “de referência”, a produção global poderia crescer 3,1% este ano,
abaixo da expansão de 3,4% em 2025 e da taxa de 3,3% projetada pelo FMI em
janeiro.
O Brasil, por sua vez, teve sua projeção de
crescimento revisada para cima pelo FMI em 0,3 ponto percentual, para 1,9%, uma
vez que, como exportador líquido de energia, o país tende a se beneficiar com o
choque. Porém, para 2027, a projeção de crescimento caiu 0,3 ponto percentual
em relação à projeção de janeiro, para 2%, como consequência da desaceleração
da demanda global, do aumento dos custos de insumos (incluindo fertilizantes) e
das expectativas de condições financeiras mais apertadas.
O governo brasileiro faria bem em aproveitar a receita extra com o aumento dos preços do petróleo para adotar uma estratégia mais conservadora, começar a arrumar a casa no lado fiscal para poder ter espaço orçamentário para absorver choques futuros. Os ziguezagues do presidente americano Donald Trump na guerra e em outros conflitos fabricados por ele apenas aumentam a incerteza no cenário global.
A lição desperdiçada na crise em Ormuz
Por Correio Braziliense
A escassez de energia fóssil que a guerra
impõe agora pela força bélica será provocada, logo mais, pelo próprio
esgotamento climático e ambiental do planeta
Na história das civilizações, quando um
sistema entra em colapso, a dor imediata frequentemente atua como o mais
poderoso catalisador para a inovação. É exatamente sob essa lente histórica que
o atual estrangulamento do Estreito de Ormuz, causado ora pelo Irã, ora pelos
EUA, deve ser interpretado. A situação é a prova incontestável da dependência
da humanidade em petróleo e escancara a urgência da transição energética.
A asfixia imediata da economia global,
causada pelo bloqueio militar da rota por onde passa um quarto do óleo consumido
no planeta, deveria servir como o ultimato perfeito para forçar a transição
definitiva rumo às matrizes limpas. Em vez de tratar o caos no Golfo Pérsico
apenas como uma emergência bélica a ser contornada, a humanidade tem diante de
si a oportunidade histórica para decretar, de uma vez por todas, o fim da era
dos combustíveis fósseis.
O fato de que a estabilidade econômica global
pode ser asfixiada, em questão de dias, por ditadores, aiatolás e chefes de
Estado belicosos expõe a fragilidade patológica da nossa matriz energética. Em
um mundo governado pela racionalidade e pelo instinto de sobrevivência, o
bloqueio de Ormuz soaria como o alarme definitivo. Seria o momento em que
governos e mercados decidiriam direcionar a fortuna gasta para proteger e
subsidiar rotas petroleiras rumo à transição energética sustentável e
definitiva.
Ocorre que a governança global tem se
mostrado míope para os perigos da crise climática e apegada a soluções de curto
prazo. Longe de enxergar o gargalo no Golfo Pérsico como um ultimato para a
descarbonização, a reação instintiva das superpotências ilustra o tamanho do
problema.
A prioridade absoluta nos países ocidentais e
nas suas periferias — incluindo o Brasil — não é libertar a economia da
dependência do petróleo, mas garantir que as bombas de combustível continuem
cheias a qualquer custo. Em vez de injetar capital massivo na infraestrutura de
matrizes limpas com senso de urgência, a energia política do mundo se esvai em
manobras navais e manobras artificiais para conter a fúria inflacionária do
eleitorado.
O fechamento de Ormuz funciona hoje como um
rascunho sombrio do futuro. A escassez de energia fóssil que a guerra impõe
agora pela força bélica será provocada, logo mais, pelo próprio esgotamento
climático e ambiental do planeta. A crise que virá pela escassez do petróleo
deveria ser o empurrão que nos faltava para pular do barco antes que ele afunde
por completo.
Contudo, tudo indica que a humanidade deixará mais essa janela histórica se fechar. Quando a tensão militar eventualmente ceder, os acordos provisórios forem assinados e os superpetroleiros voltarem a cruzar o estreito, as bolsas de valores e as lideranças globais celebrarão com alívio o fim da crise. Mas, na prática, estaremos apenas comemorando o direito de voltar à exata mesma armadilha fóssil da qual, por um breve e doloroso momento, a humanidade teve a chance de escapar para criar um futuro mais sustentável e limpo — e que parece cada vez mais distante e impossível, para a tragédia das futuras gerações.

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