Como não fazer uma legislação sobre jornada de trabalho
Por Folha de S. Paulo
Tramitação do fim da escala 6x1 é apressada
por disputa entre governo e Congresso em ano eleitoral
As piores ideias incluem uma compensação a
ser paga pelo governo aos empregadores; vale dizer, a conta seria repassada ao contribuinte
Governo e Congresso
Nacional dão um exemplo didático de como não se deve elaborar
uma legislação em suas tratativas para a redução da jornada de trabalho.
Uma mostra disso é a tramitação simultânea de propostas de emenda constitucional (PECs) sobre o tema —duas das quais foram aprovadas na quarta-feira (22) pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara— e de um projeto de lei enviado em regime de urgência pelo Executivo.
Trata-se de uma corrida pela paternidade do
fim da jornada de 44 horas semanais e da escala de seis dias de trabalho e um
de folga por semana, bandeira eleitoral encampada de última hora por Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT),
antes de qualquer estudo acerca de impacto e viabilidade.
As perspectivas para o debate pela frente
tampouco são promissoras. A mobilização de deputados e senadores em torno do
tema se dá, principalmente, para evitar que Lula receba sozinho os créditos
pela iniciativa de potencial apelo popular. Secundariamente, busca-se atender a
preocupações de setores econômicos afetados pela medida. Em ano de eleições,
quase ninguém se anima a questionar a proposta.
Justifica-se que ela tramite na forma de PEC
porque a prolixa Constituição de 1988 desce a esses detalhes trabalhistas. Tal
formato não convém ao Planalto, porém, por não permitir a assinatura do
presidente da República no novo regramento.
O projeto de lei do governo tem pouca chance
de prosperar, mas tende a apressar o exame de uma emenda constitucional —que,
por sua natureza, deveria merecer discussão mais aprofundada.
Não são banais as questões a considerar. As
PECs que tiveram a constitucionalidade aprovada preveem jornada máxima de
trabalho de 36 horas, e uma delas, três dias de folga por semana, normas que
mesmo os setores mais pragmáticos da esquerda entendem ser inviáveis.
Mesmo a opção tida como mais realista, de 40
horas e duas folgas, implica perdas para a economia e
riscos de aumento da informalidade no mercado de
trabalho. Ainda que os efeitos colaterais sejam absorvíveis, como
sugerem os primeiros estudos, os
custos certamente serão mais altos para determinadas atividades.
Por isso, parlamentares desejam prever um
prazo para a adaptação das empresas —de 360 dias, em uma das PECs, a dez anos,
na outra, enquanto o governo quer vigência imediata da nova jornada. Como se
vê, mesmo uma solução intermediária tende a tornar bem mais duvidoso o impacto
eleitoral da benesse.
As piores ideias em pauta incluem estabelecer
uma compensação financeira a ser paga pelo governo aos empregadores, de
proporções desconhecidas. Vale dizer, a conta de uma política pública
instituída às pressas seria alegremente repassada ao contribuinte. Não é uma
possibilidade desprezível quando governantes e legisladores se pautam por
ganhos rápidos nas urnas.
Paternalismo contra o tabagismo no Reino
Unido
Por Folha de S. Paulo
Parlamento do país proíbe venda de cigarros,
por toda a vida, para nascidos a partir de 2009
Restrição para menores de idade é necessária,
mas, para adultos, infringe liberdade individual e pode estimular mercado
ilegal
A proibição da venda de cigarro para menores
de idade é um padrão global da regulamentação necessária dessa droga. Agora,
o Reino Unido se
junta às Maldivas num
experimento controverso que vetará o acesso ao produto por um estrato
geracional de adultos.
Na terça-feira (21), o Parlamento
britânico aprovou um projeto de lei que veta, de forma
permanente, a venda de cigarros e vapes para pessoas nascidas a partir de 1º de
janeiro de 2009. Quem tem hoje 17 anos de idade ou menos não poderá adquirir o
produto pelo resto da vida.
As punições são restritas aos comerciantes,
com multas que variam de 200 libras (R$ 1.340) a 2.500 libras (R$ 16.750).
Em 2022, a Nova Zelândia foi
o primeiro país a aplicar uma lei desse tipo (proibição aplicada aos nascidos
após 2008), que acabou sendo revogada no ano seguinte; em 2024, foi a vez das
Maldivas, que delimitou a regra aos nascidos a partir de 2007.
As justificativas são as mesmas usadas na
manutenção da ilegalidade de algumas drogas,
como maconha,
LSD e cocaína: proteger a saúde dos
cidadãos e limitar os gastos públicos no setor.
De fato, não há nível seguro de consumo de
tabaco, que é responsável por doenças como pressão alta, infarto, enfisema e
diversos tipos de câncer.
Entretanto a experiência global com diferentes tipos de drogas mostra com
clareza os equívocos do modelo proibicionista em larga escala.
A ilegalidade gera a venda clandestina,
reduzindo a arrecadação de tributos, que poderiam ser aplicados em educação e
saúde, e a qualidade dos produtos, o que eleva riscos sanitários.
Ademais, medidas do tipo invadem liberdades
individuais. Não é papel do Estado interferir em escolhas privadas de adultos
que não causam danos a terceiros.
Não à toa, neste século, diversos países descriminalizaram
a posse de maconha, como Portugal, Chile e
Brasil; alguns legalizaram o uso recreativo, como Uruguai, Canadá e
vários estados dos EUA; e dezenas, o
uso medicinal.
A Organização Mundial da Saúde preconiza
ações de contenção do tabagismo: proibir propaganda e venda para menores de
idade, restringir locais para o fumo, cobrar altos impostos, monitorar o
consumo, oferecer tratamento para o vício e manter campanhas contínuas de
conscientização.
Foram essas medidas que levaram à queda na taxa global estimada de fumantes acima dos 15 anos de idade, de 32,7%, em 2000, para 21,7%, em 2020, segundo um relatório de 2024 da OMS. Regulação e informação são eficazes; a proibição é ilusória.
BRB não deve ser salvo à custa do
contribuinte
Por O Globo
Operação que proteja correntistas e resulte
em privatização é melhor saída para banco envolvido no caso Master
Ainda restam muitas dúvidas sobre as relações
suspeitas entre o governo do Distrito Federal, na administração de Ibaneis Rocha (MDB),
a direção do Banco Regional de Brasília (BRB), quando Paulo
Henrique Costa era o presidente, e o Banco Master,
de Daniel
Vorcaro. Já existem, porém, pelo menos duas certezas.
A primeira é que o Tesouro Nacional está
certo em negar ajuda financeira para tapar o buraco bilionário deixado no banco
estatal. Com capital estimado em R$ 2,3 bilhões, o BRB aprovou nesta semana um
aumento de capital de até R$ 8,8 bilhões. Não está claro de onde o governo do
DF, controlador do banco, tirará recursos para honrar sua parte — e o
contribuinte sempre costuma ser convocado a comparecer nessas horas. O cidadão
brasileiro não deveria arcar com o custo dos desmandos de Vorcaro e companhia.
A segunda certeza: o caso torna evidente que
insistir em manter o BRB nas mãos do Estado não faz sentido. Ele é remanescente
de uma era que — felizmente — já passou, em que os bancos estaduais eram usados
para satisfazer aos caprichos políticos do governador de plantão. O caso Master
mostra que deixá-lo sob o controle do governo do DF significa não apenas
recorrer ao contribuinte para tapar rombos, mas também incentivar tal
promiscuidade.
Desde o início, o relacionamento entre BRB e
Master chamou a atenção. Em março do ano passado, o primeiro anunciou a compra
de 58% do capital do segundo, operação que exigia aprovação do Banco
Central (BC). A aquisição de um banco privado em crise aguda de
liquidez não tinha nexo para ninguém — daí Vorcaro ter recorrido a seus
contatos políticos. O BRB é um dos últimos bancos estatais vulneráveis a esse
tipo de ingerência.
Mesmo enfrentando pressão no Congresso para
dar sinal verde, o BC descobriu uma fraude de R$ 12,2 bilhões na compra de
carteiras de crédito do Master pelo BRB desde 2024. O negócio foi então
barrado, a Polícia Federal abriu inquérito, o Master foi liquidado e, de lá
para cá, a relação entre Vorcaro, BRB, governo distrital, Congresso e
Judiciário se revelou uma usina de escândalos. Pelas últimas descobertas, Costa
recebeu de Vorcaro imóveis avaliados em dezenas de milhões como propina pelas
fraudes.
Ao mesmo tempo que as investigações devem ir
até o fim, é preciso encaminhar uma solução duradoura para o BRB. Se o governo
do DF não quiser diluir sua participação e quiser manter o controle sobre 56%
do capital do banco, terá de injetar R$ 4,7 bilhões. Para não ficar com menos
de 50% das ações, precisará de no mínimo R$ 2,8 bilhões. Ante a impossibilidade
de tirar recursos do Orçamento, a nova direção do BRB pediu um empréstimo ao
Fundo Garantidor de Créditos (FGC), instituição privada mantida pelos bancos. É
uma operação sem o menor sentido. O FGC existe para proteger o dinheiro de
investidores, não para salvar bancos enrolados em negociatas.
Até o momento, Celina Leão (PP), que assumiu
o governo do DF com a saída de Ibaneis, tem negado a realidade. Diz que o banco
não será vendido, o descreve como “desejado por vários banqueiros” e afirma que
o pior já passou. Protelar a única decisão sensata seria um erro catastrófico.
Somente uma operação que proteja os correntistas e resulte na privatização
garantirá que o BRB não seja usado para outras negociatas — em que o
contribuinte costuma ser chamado a pagar a conta.
Nova morte de motorista a tiros no Rio expõe
despreparo de policiais
Por O Globo
Agentes arriscam a própria vida, mas são
pagos pelo Estado para proteger os cidadãos, não para matá-los
Pouco mais de um mês depois da morte de uma
médica por policiais em Cascadura, Zona Norte do Rio, outro caso trágico em
circunstâncias semelhantes causa perplexidade. Na madrugada de quarta-feira, o
comerciante Daniel Patrício Oliveira, de 29 anos, foi morto quando dirigia uma
picape a caminho de casa, na Pavuna, Zona
Norte. Policiais alegaram que ele não obedeceu à ordem de parar e acelerou em
direção aos agentes. Dispararam mais de 20 tiros. Um deles atravessou o
para-brisa e atingiu o rosto de Oliveira (outros três ocupantes do veículo não
se feriram). Mais uma família foi destruída. Oliveira tinha uma filha de 4 anos
e estava de mudança com a mulher para outro estado, justamente devido à violência na
cidade.
Os policiais afirmaram ter sido alertados
sobre um veículo em atitude suspeita na região, próxima ao Complexo da
Pedreira, área violenta da capital. A vítima, segundo a polícia, tinha uma
anotação criminal por receptação. Mas nada justifica a saraivada de tiros de
fuzil contra um motorista desarmado. Em março, policiais já haviam confundindo
o carro da médica com o de assaltantes. A simples suspeita bastou para que ela
fosse fuzilada (a ação foi tão desastrosa que PMs ordenaram que descesse do
carro quando já estava morta).
Com a repercussão, a Corregedoria da Polícia
Militar determinou a prisão de dois PMs suspeitos de envolvimento na
morte de Oliveira. A despeito das versões dos policiais, as imagens de câmeras
corporais revelaram indícios de homicídio doloso. As armas usadas foram
apreendidas. Mas a questão não pode se encerrar na detenção dos PMs e na
apreensão das armas. Houve mais uma tragédia inaceitável. É angustiante que
situações desse tipo continuem a se repetir.
Em 2015, os mototaxistas Thiago Guimarães e
Jorge Lucas Martins Paes foram mortos por um PM na Pavuna. Lucas carregava um
macaco hidráulico, que o policial pensou ser um fuzil. Em 2019, o músico Evaldo
Rosa foi morto por soldados do Exército em Guadalupe, Zona Norte do Rio. Seu
carro, confundido com o de bandidos, foi alvejado por 62 tiros, mas em 2024 os
acusados foram absolvidos pelo Superior Tribunal Militar por falta de provas.
Neste mês, o entregador Douglas Renato Zwarg, de 39 anos, foi morto por um
guarda civil metropolitano durante abordagem perto do Parque Ibirapuera, em São
Paulo. O agente alegou que o tiro ocorreu de forma acidental quando descia da
viatura, versão que não convenceu a família da vítima.
Tais episódios expõem, no mínimo, despreparo dos policiais. Entende-se que eles arriscam a vida diariamente em confrontos com bandidos, mas existem regras para abordagens — e nenhuma delas autoriza disparar contra cidadãos com base em suposições. É verdade que a polícia não tem sido conivente, e os acusados têm ido a julgamento. Mas a tragédia já está consumada. Não há dúvida de que faltam treinamento a integrantes de forças de segurança e rigor no cumprimento dos protocolos. É sempre bom lembrar que policiais são pagos pelo Estado para proteger os cidadãos, não para matá-los.
Há algo de podre na Polícia Militar
Por O Estado de S. Paulo
Suspeitas de vazamento de informações ao PCC
e prevaricação do ex-comandante expõem um quadro perturbador de infiltração
criminosa na elite da PM de São Paulo
A troca do comando da Polícia Militar (PM) de
São Paulo está longe de ser um movimento trivial na rotina administrativa da
corporação. A saída do coronel José Augusto Coutinho e a ascensão da coronel
Glauce Anselmo Cavalli não podem ser explicadas somente à luz da versão
protocolar apresentada pelo governo estadual, segundo a qual “motivos pessoais”
teriam levado Coutinho a se afastar do cargo. Os fatos revelados pelo Estadão indicam outra
coisa: foi uma decisão forçada pela gravíssima suspeita de que o ex-comandante
teria prevaricado, no mínimo, diante da associação criminosa entre membros da
Rota, unidade de elite da PM paulista, e o PCC.
Este jornal teve acesso ao depoimento
sigiloso do promotor Lincoln Gakiya, peça fundamental para a correta decisão do
governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) de trocar o comando da PM.
Gakiya, uma referência nacional no combate ao crime organizado, descreveu um
cenário perturbador à Corregedoria da corporação. Oficiais da Rota teriam
vazado informações policiais estratégicas para a cúpula do PCC em troca de
milhões de reais. E, o que é ainda pior, sob o beneplácito de superiores.
Gakiya sustenta suas conclusões em relatos de
criminosos, testemunhas e outros desdobramentos de investigações das quais
participou. O promotor informou à cúpula da PM que uma reunião fechada com um
delator foi gravada por policiais militares e teve o conteúdo vendido a líderes
do PCC por R$ 5 milhões. Se confirmados, esses fatos não apenas configuram
corrupção, como representam uma quebra intolerável da confiança pública na
cúpula do policiamento ostensivo de São Paulo. Nada menos. Restaurá-la decerto
será a primeira missão da coronel Glauce, oficial com um currículo aparentemente
à altura do desafio.
Mesmo que não se lhe atribua participação
alguma nos crimes relatados por Gakiya, a situação do ex-comandante da PM era
mesmo insustentável. A hipótese de prevaricação, vale dizer, a omissão
deliberada diante da suspeita de crimes, já bastaria para inviabilizar sua
permanência no cargo. Mas, agora, é preciso ir além. Ainda segundo Gakiya,
Coutinho teria sido informado pessoalmente sobre o vazamento de informações
policiais para o PCC. Além disso, o coronel teria tido acesso aos áudios que
sustentam a denúncia do promotor. Mesmo assim, não estão claras que
providências o ex-comandante teria tomado à época dos fatos.
Por mais graves que sejam, as suspeitas não
se limitam a um episódio isolado. Denúncias recebidas pela Corregedoria da PM
apontam para a existência de um “núcleo” de policiais, chamemos assim, que
teriam atuado como intermediários entre a inteligência da corporação e
criminosos de altíssima periculosidade. A menção a pagamentos, à proteção
policial de membros do PCC, à execução de desafetos do bando e à circulação de
informações privilegiadas expõe um grau de contaminação da PM paulista que, se
não for debelada, comprometerá, se não eliminar, a capacidade do Estado mais
rico da Federação de enfrentar o crime organizado.
Nesse sentido, a troca de comando da PM,
assim como o afastamento de oficiais ligados ao ex-secretário da Secretaria
Pública Guilherme Derrite (PP), deve ser entendida como uma bem-vinda medida de
depuração da corporação. O governo de São Paulo agiu corretamente ao sinalizar
que desvios de conduta dessa magnitude não passarão incólumes.
Mas mudança de nomes, por si só, não basta. É
preciso que o Palácio dos Bandeirantes assegure o bom andamento das
investigações e, ademais, aja com a responsabilidade que lhe cabe para a
punição exemplar de todos os policiais, militares ou civis, mancomunados com o
crime organizado. A melhor política de segurança pública do mundo sucumbe à
corrupção do guarda da esquina.
Ao longo de décadas, a PM de São Paulo
construiu uma reputação de excelência operacional que não pode ser dilapidada
por práticas criminosas de alguns de seus quadros podres. Das polícias de São
Paulo não se espera outra coisa senão integridade absoluta de seus agentes,
respeito estrito à legalidade e compromisso inarredável com o Estado
Democrático de Direito. A base de sua legitimidade e de sua fé pública está aí.
Judiciário no escuro
Por O Estado de S. Paulo
Estudo da OCDE mostra que faltam dados
consolidados sobre ganhos dos magistrados e sobre potenciais conflitos de
interesse, o que compromete a integridade do Judiciário brasileiro
Embora ainda rara na administração pública,
transparência não é concessão do poder, mas exigência de sua legitimidade.
Quanto maior a autoridade de uma instituição, sobretudo quando não se submete
ao voto popular, maior deve ser sua disposição de se expor ao escrutínio
público. No Judiciário, essa relação é particularmente sensível. A confiança em
suas decisões não decorre apenas da letra da lei, mas da percepção de
imparcialidade, integridade e responsabilidade de seus membros. Onde essas garantias
não são visíveis, instala-se a dúvida e, com ela, o desgaste institucional.
É nesse ponto que o Judiciário brasileiro,
incluído, por óbvio, o Supremo Tribunal Federal (STF), revela fragilidades
incompatíveis com uma democracia madura. Antes fossem apenas dificuldades
operacionais ou imperfeições pontuais. Trata-se, na verdade, de uma cultura
institucional que ainda resiste à prestação plena de contas à sociedade, em seu
sentido amplo. Temas sensíveis como declarações de bens e interesses de
magistrados, a verificação dessas informações e a apuração de conflitos
permanecem envoltos em névoa que impede aferir, com segurança, a lisura do
sistema e a regularidade das condutas.
A edição mais recente do Panorama Anticorrupção e Integridade, da
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), deu contornos
objetivos ao problema. O relatório aponta que o Brasil não dispõe de dados
públicos consolidados sobre o cumprimento dessas obrigações nem sobre os
mecanismos de controle ou a ocorrência e o tratamento de conflitos de
interesse. Tem-se aí uma lacuna elementar, que compromete tanto a transparência
como a própria capacidade de prevenir, identificar e corrigir desvios.
Ainda assim, o diagnóstico pode ser
considerado brando à luz de avaliações feitas no próprio País. Especialistas
têm ressaltado que o quadro real é ainda mais grave, marcado pela ausência de
informações estruturadas e acessíveis. Muitas vezes, os dados não estão apenas
fora do alcance do público – simplesmente não existem de forma sistematizada,
organizada e comparável, o que mostra que a transparência ainda não foi
incorporada como princípio estruturante do funcionamento do Judiciário.
Esse déficit ajuda a explicar a erosão da
confiança pública, especialmente em relação ao STF. A Corte, que deveria simbolizar
a segurança jurídica, tornou-se alvo frequente de críticas e suspeitas. Parte
dessas contestações é movida por interesses políticos liberticidas, mas
encontra terreno fértil na escassez de informações verificáveis. A opacidade,
assim, a um só tempo fragiliza a instituição e amplia sua exposição a ataques,
ao permitir que dúvidas legítimas se confundam com narrativas oportunistas.
Não faltam, contudo, iniciativas formais para
enfrentar o problema. A criação, no Conselho Nacional de Justiça, de um observatório
para monitorar transparência, integridade e riscos de corrupção indica
preocupação institucional. Mas a experiência recomenda cautela. Sem publicidade
ativa de dados, padronização de informações e mecanismos efetivos de controle,
há o risco de que tais estruturas se limitem ao plano declaratório, sem impacto
real sobre práticas arraigadas.
A controvérsia sobre os chamados
“penduricalhos” ilustra o impasse. A dificuldade de obtenção, por grande parte
da sociedade, de dados inteligíveis sobre remunerações, indenizações e
benefícios compromete um debate qualificado. Tentativas de limitar esses
pagamentos esbarram na opacidade que ainda cerca sua composição e
justificativa. Em decisões recentes, o próprio STF deixou escapar a
oportunidade de impor maior clareza sobre o tema, optando por soluções que
preservam zonas de sombra.
Não há integridade possível sem transparência
efetiva. Para um Poder de funções contramajoritárias, a legitimidade depende de
demonstrar, de forma contínua e verificável, que atua dentro de padrões éticos
elevados. Isso exige tanto normas formais como dados abertos, auditorias
consistentes e disposição genuína para o acompanhamento da sociedade. Enquanto
persistirem lacunas tão básicas quanto as apontadas pela OCDE, o Judiciário conviverá
com um paradoxo: exige confiança, mas não oferece os instrumentos para
sustentá-la. Num ambiente democrático já tensionado, a opacidade se afirma como
um elevadíssimo risco institucional que o País não pode mais ignorar.
Um bom acordo entre Brasil e EUA
Por O Estado de S. Paulo
Em meio a ruídos, países acertam ao ampliar
esforços para interceptação de drogas e armamentos
Os governos de Brasil e EUA acabam de fechar
um acordo de cooperação para intensificar o combate ao crime organizado
transnacional, numa demonstração de que, quando o pragmatismo impera, é maior a
chance de colher bons frutos.
O acordo envolve ações que miram a
interceptação de cargas de armamentos e drogas transportadas ilegalmente entre
os dois países, bem como a adoção de um programa de compartilhamento de
informações em tempo real.
Do lado brasileiro, o acordo foi encabeçado
pela Receita Federal; pelo americano, responde a U.S. Customs and Border
Protection (CBP), a agência de fronteiras dos EUA. De acordo com o Ministério
da Fazenda, pasta à qual a Receita Federal é subordinada, a construção da
agenda conjunta teve início em janeiro de 2026, após um encontro em Foz do
Iguaçu, no Paraná.
Isoladamente, é óbvio, o acordo não é uma
bala de prata para resolver o cada vez mais complexo problema do crime
organizado transnacional, até porque não existe uma solução única e infalível
para acabar com uma atividade cada vez mais sofisticada e internacionalizada.
Pesquisadores, contudo, avaliam a cooperação
como positiva, sobretudo em relação ao combate ao tráfico de armamentos, uma
vez que parte das armas apreendidas em território brasileiro é de origem
americana.
Há que destacar ainda que o acordo ocorre em
momento tenso na relação entre os dois países. Como se sabe, a gestão Donald
Trump vem sinalizando que pretende classificar o Comando Vermelho (CV) e o
Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, tal como já
fez com outros grupos criminosos da América Latina.
Apesar de aterrorizarem a vida da população,
nem o CV nem o PCC são grupos terroristas, uma vez que não se pautam por
objetivos políticos ou ideológicos. Ademais, tratar as máfias brasileiras como
terroristas pode até mesmo inibir a troca de informações entre Brasil e EUA, na
contramão do acordo recém-assinado.
Além disso, uma potencial designação do CV e
do PCC como terroristas pode resultar em sanções financeiras que afetam pessoas
e empresas não diretamente envolvidas com tais organizações.
Como o governo Lula é contra uma mudança na
classificação dos EUA em relação ao CV e ao PCC, parte da oposição resolveu
fazer coro à proposta de Trump, esperando capitalizar a linha dura contra a
criminalidade embutida na iniciativa americana e, ao mesmo tempo, vincular ao
governo petista a imagem de defensor de criminosos.
O governo petista, por sua vez, errou feio ao
transformar a detenção nos EUA do ex-deputado Alexandre Ramagem num espetáculo
midiático. Tudo o que conseguiu foi a expulsão de um delegado da Polícia
Federal que até então trabalhava em solo americano, o que definitivamente em
nada ajuda a relação entre Brasil e EUA.
Ações efetivas contra a criminalidade exigem mais pragmatismo do que gritaria. Tanto oposição quanto governo precisam baixar o tom, evitando tanto o alinhamento quanto a crítica automática a Trump. Que o acordo entre a Receita e a CBP seja um norte.
Guerra eleva inflação global e acumulação de
estoques
Por Valor Econômico
Índice composto de gerente de compras da
S&P Global de abril, que engloba 40 países, aponta pressões inflacionárias
e expansão da atividade industrial
A guerra de Estados Unidos e Israel contra o
Irã, perto de completar dois meses, provocou uma onda de reajustes de preços
global só comparável à ocorrida durante a pandemia de covid-19. Segundo o
índice composto de gerente de compras da S&P Global de abril, que engloba
40 países, há pressões inflacionárias por toda parte e as empresas estão
repassando em boa medida a elevação dos custos dos insumos aos consumidores. As
consequências inflacionárias do fechamento do Estreito de Ormuz estão se
concretizando, enquanto as de estagnação, ainda não completamente. Pelo
contrário, as atividades industriais nos Estados Unidos, zona do euro, Reino
Unido e Japão avançaram no mês passado, por motivos também relacionados ao
conflito: as fábricas aumentaram estoques de produtos acabados e de insumos
precavendo-se de possível escassez e mais altas de preços. As interrupções no
fornecimento de matérias-primas para a produção se tornaram mais frequentes no
mês passado.
O panorama geral da inflação é agora o mais
preocupante em quase 4 anos”, alerta Chris Williamson, economista-chefe da
S&P Global Market Intelligence. Em março, os preços ao produtor nos Estados
Unidos subiram 0,5%, a maior alta desde fevereiro de 2023. A elevação dos
custos dos insumos, provocada pela guerra contra o Irã e ainda alimentada pelo
choque tarifário decretado pelo presidente Donald Trump há um ano, não derrubou
ainda as atividades econômicas na principal economia do mundo. O índice para os
EUA subiu de 50,3 para 52,4 em março (acima de 50 pontos significa expansão;
abaixo, retração), mostrando recuperação. O PIB americano cresceu 0,5% no
primeiro trimestre. Esse crescimento, porém, tem grande motivação defensiva:
acumulação de estoques. Executivos ouvidos para a pesquisa relataram compras de
“emergência” ou “pânico” para escapar de disparadas de preços e interrupção de
fornecimento de insumos no curto prazo, pelo menos. Com isso, preços de vários
produtos estão subindo, não apenas os de energia. Assim como na saída da
pandemia, em meados de 2022, as fábricas relataram grandes intervalos entre
pedidos e entrega de suprimentos. O custo dos insumos em abril teve a maior
alta desde julho de 2022.
Nos primeiros quatro meses do ano, o setor de
serviços nos EUA teve a primeira queda desde janeiro de 2023, segundo a S&P
Global. A guerra teve impacto nos gastos com turismo e viagens, as exportações
de serviços recuaram e a percepção de alta rápida dos preços derrubaram as
atividades. Nem por isso a inflação do setor, que vinha impedindo que o Federal
Reserve (Fed, o banco central americano) conseguisse colocar o índice de preços
de volta à meta de 2%, arrefeceu. Ao contrário, a inflação do setor voltou a
crescer acima da tendência de longo prazo e atingiu seu mais alto nível em oito
meses.
A zona do euro sofre igualmente com a alta de
preços e interrupção no fornecimento de insumos, mas com perspectiva diferente.
Ela caminha para a retração, que pode se cristalizar caso se confirmem as
expectativas do mercado de duas altas de juros pelo Banco Central Europeu até o
fim do ano em reação à montante pressão inflacionária. O setor de serviços se
retraiu, mas não as atividades industriais, para formação de estoques e pelo
aumento dos investimentos em defesa nos orçamentos de vários países do bloco
monetário. Mas a inflação voltou a ameaçar. “Excluída a pandemia, é o maior
aumento das pressões de custos registrada desde 2000”, afirma Williamson. As
fábricas aumentaram suas encomendas de matérias-primas no maior volume desde o
início de 2022. Abril interrompeu uma sequências de 15 meses no índice. Os
serviços declinaram pela primeira vez em quase um ano a uma velocidade só
comparável à de fevereiro de 2021, marcado por lockdowns na pandemia.
China, Japão e Índia, respectivamente
segunda, quarta e quinta maiores economias do mundo, mostram expansão, apesar
de redução das atividades exportadoras. A ameaça deflacionária chinesa está
sendo contida pela maior pressão na inflação dos insumos desde março de 2022.
Os preços ao produtor subiram com força nunca vista em quatro anos.
O índice da S&P Global coloca mais
desafios para o Banco Central. Ele já havia subido de 47,3 para 49 em março
(último dado disponível), com a indústria mostrando seu melhor desempenho em 10
meses. Embora a tendência seja de redução do crescimento, as exportações estão
em alta, em especial as de petróleo, e têm compensado em parte a perda de
dinamismo de setores ligados à demanda doméstica. A inflação voltou a subir, o
que, ao lado do início da campanha eleitoral, com mais gastos do governo para
reeleger o presidente Lula, coloca dúvidas sobre até onde pode ir o ciclo de
redução de juros iniciado pelo BC.
Alguma austeridade oficial teria permitido ao BC iniciar antes a redução da Selic, mas a política fiscal expansionista conduziu a autoridade monetária a iniciar os cortes pouco antes de imprevisíveis e fortes pressões inflacionárias externas criadas pela guerra. Mais uma vez, o país desperdiçou a chance de consertar as contas públicas em ambiente estável, para ser novamente acossado por turbulências vindas de fora.
É preciso que cada vez mais brasileiros se
vacinem
Por O Povo (CE)
Alguns fatores ajudam a explicar a baixa
adesão às vacinas, como desigualdades sociais, desinformação e "fake
news"
A vacinação é uma das intervenções médicas
que mais salvaram vidas na história da humanidade — e continua salvando.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de cinco milhões de
vidas são preservadas anualmente, em todo o mundo, devido à vacinação.
No entanto, esse é um procedimento que
precisa da contribuição das pessoas para seu bom funcionamento. Isto é, que a
população compreenda a importância da imunização e busque os postos
de saúde nos quais possam se vacinar e a seus filhos.
O problema é que, mesmo com a oferta gratuita
das vacinas mais necessárias à disposição dos brasileiros nos postos
de saúde, um número significativo de pessoas deixa de imunizar-se contra
doenças que seriam evitáveis com caderneta em dia.
Conforme mostra reportagem sobre o assunto na
edição de quinta-feira, é o que está acontecendo agora, em Fortaleza, com
o papilomavírus humano (HPV), uma das infecções sexualmente transmissíveis
(IST) mais prevalentes no mundo.
Segundo dados do Ministério da Saúde, o
contágio acomete cerca de 54% das mulheres e 41% dos homens sexualmente ativos.
Porém, mesmo com o esforço da Prefeitura, até agora, menos de 5% da meta
projetada foi alcançada. Fora da rede pública, essa vacina pode custar até R$ 3
mil.
A transmissão do HPV pode se dar apenas com o
contato com a pele, podendo provocar desde verrugas genitais até o
desenvolvimento de câncer. A afecção é assintomática, um desafio adicional para
o controle da doença, alerta o médico infectologista Luan Victor, ouvido pelo O
POVO.
Jovens entre 9 e 14 anos são alvo prioritário
da campanha. "A vacinação contra o HPV, iniciada na adolescência, é uma
grande estratégia de saúde pública na prevenção dos cânceres", afirmou à
reportagem a médica pediatra e diretora técnica de uma clínica de vacinação, Vanuza
Chagas.
Em períodos mais recentes, 2023, por exemplo,
registrou-se queda no total de pessoas vacinadas, ano em que nenhum estado
conseguiu atingir a meta de cobertura para as quatro principais vacinas
aplicadas em crianças até um ano de idade. Mas, nesse mesmo ano, iniciou-se um
processo de recuperação. Em 2025, o Brasil registrou aumento na cobertura de 15
das 16 vacinas do calendário nacional, "revertendo o cenário de queda
desde 2016", segundo o Ministério da Saúde.
Alguns fatores ajudam a exemplificar a baixa
adesão às vacinas, como desigualdades sociais, desinformação e
"fake news" (informações mentirosas divulgadas deliberadamente).
O Brasil dispõe de uma instituição, o Programa
Nacional de Imunizações (PNI) que é referência mundial, devido à sua ampla
cobertura e por disponibilizar 32 vacinas, além de soros, imunobiológicos e
imunoglobulinas, que contemplam todas as fases da vida das crianças e dos
adultos.
Portanto, é preciso que os brasileiros demandem cada vez mais o PNI para manter a própria saúde e da coletividade.

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