sexta-feira, 24 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Como não fazer uma legislação sobre jornada de trabalho

Por Folha de S. Paulo

Tramitação do fim da escala 6x1 é apressada por disputa entre governo e Congresso em ano eleitoral

As piores ideias incluem uma compensação a ser paga pelo governo aos empregadores; vale dizer, a conta seria repassada ao contribuinte

Governo e Congresso Nacional dão um exemplo didático de como não se deve elaborar uma legislação em suas tratativas para a redução da jornada de trabalho.

Uma mostra disso é a tramitação simultânea de propostas de emenda constitucional (PECs) sobre o tema —duas das quais foram aprovadas na quarta-feira (22) pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara— e de um projeto de lei enviado em regime de urgência pelo Executivo.

Trata-se de uma corrida pela paternidade do fim da jornada de 44 horas semanais e da escala de seis dias de trabalho e um de folga por semana, bandeira eleitoral encampada de última hora por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), antes de qualquer estudo acerca de impacto e viabilidade.

As perspectivas para o debate pela frente tampouco são promissoras. A mobilização de deputados e senadores em torno do tema se dá, principalmente, para evitar que Lula receba sozinho os créditos pela iniciativa de potencial apelo popular. Secundariamente, busca-se atender a preocupações de setores econômicos afetados pela medida. Em ano de eleições, quase ninguém se anima a questionar a proposta.

Justifica-se que ela tramite na forma de PEC porque a prolixa Constituição de 1988 desce a esses detalhes trabalhistas. Tal formato não convém ao Planalto, porém, por não permitir a assinatura do presidente da República no novo regramento.

O projeto de lei do governo tem pouca chance de prosperar, mas tende a apressar o exame de uma emenda constitucional —que, por sua natureza, deveria merecer discussão mais aprofundada.

Não são banais as questões a considerar. As PECs que tiveram a constitucionalidade aprovada preveem jornada máxima de trabalho de 36 horas, e uma delas, três dias de folga por semana, normas que mesmo os setores mais pragmáticos da esquerda entendem ser inviáveis.

Mesmo a opção tida como mais realista, de 40 horas e duas folgas, implica perdas para a economia e riscos de aumento da informalidade no mercado de trabalho. Ainda que os efeitos colaterais sejam absorvíveis, como sugerem os primeiros estudos, os custos certamente serão mais altos para determinadas atividades.

Por isso, parlamentares desejam prever um prazo para a adaptação das empresas —de 360 dias, em uma das PECs, a dez anos, na outra, enquanto o governo quer vigência imediata da nova jornada. Como se vê, mesmo uma solução intermediária tende a tornar bem mais duvidoso o impacto eleitoral da benesse.

As piores ideias em pauta incluem estabelecer uma compensação financeira a ser paga pelo governo aos empregadores, de proporções desconhecidas. Vale dizer, a conta de uma política pública instituída às pressas seria alegremente repassada ao contribuinte. Não é uma possibilidade desprezível quando governantes e legisladores se pautam por ganhos rápidos nas urnas.

Paternalismo contra o tabagismo no Reino Unido

Por Folha de S. Paulo

Parlamento do país proíbe venda de cigarros, por toda a vida, para nascidos a partir de 2009

Restrição para menores de idade é necessária, mas, para adultos, infringe liberdade individual e pode estimular mercado ilegal

A proibição da venda de cigarro para menores de idade é um padrão global da regulamentação necessária dessa droga. Agora, o Reino Unido se junta às Maldivas num experimento controverso que vetará o acesso ao produto por um estrato geracional de adultos.

Na terça-feira (21), o Parlamento britânico aprovou um projeto de lei que veta, de forma permanente, a venda de cigarros e vapes para pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009. Quem tem hoje 17 anos de idade ou menos não poderá adquirir o produto pelo resto da vida.

As punições são restritas aos comerciantes, com multas que variam de 200 libras (R$ 1.340) a 2.500 libras (R$ 16.750).

Em 2022, a Nova Zelândia foi o primeiro país a aplicar uma lei desse tipo (proibição aplicada aos nascidos após 2008), que acabou sendo revogada no ano seguinte; em 2024, foi a vez das Maldivas, que delimitou a regra aos nascidos a partir de 2007.

As justificativas são as mesmas usadas na manutenção da ilegalidade de algumas drogas, como maconha, LSD e cocaína: proteger a saúde dos cidadãos e limitar os gastos públicos no setor.

De fato, não há nível seguro de consumo de tabaco, que é responsável por doenças como pressão alta, infarto, enfisema e diversos tipos de câncer. Entretanto a experiência global com diferentes tipos de drogas mostra com clareza os equívocos do modelo proibicionista em larga escala.

A ilegalidade gera a venda clandestina, reduzindo a arrecadação de tributos, que poderiam ser aplicados em educação e saúde, e a qualidade dos produtos, o que eleva riscos sanitários.

Ademais, medidas do tipo invadem liberdades individuais. Não é papel do Estado interferir em escolhas privadas de adultos que não causam danos a terceiros.

Não à toa, neste século, diversos países descriminalizaram a posse de maconha, como PortugalChile e Brasil; alguns legalizaram o uso recreativo, como UruguaiCanadá e vários estados dos EUA; e dezenas, o uso medicinal.

A Organização Mundial da Saúde preconiza ações de contenção do tabagismo: proibir propaganda e venda para menores de idade, restringir locais para o fumo, cobrar altos impostos, monitorar o consumo, oferecer tratamento para o vício e manter campanhas contínuas de conscientização.

Foram essas medidas que levaram à queda na taxa global estimada de fumantes acima dos 15 anos de idade, de 32,7%, em 2000, para 21,7%, em 2020, segundo um relatório de 2024 da OMS. Regulação e informação são eficazes; a proibição é ilusória.

BRB não deve ser salvo à custa do contribuinte

Por O Globo

Operação que proteja correntistas e resulte em privatização é melhor saída para banco envolvido no caso Master

Ainda restam muitas dúvidas sobre as relações suspeitas entre o governo do Distrito Federal, na administração de Ibaneis Rocha (MDB), a direção do Banco Regional de Brasília (BRB), quando Paulo Henrique Costa era o presidente, e o Banco Master, de Daniel Vorcaro. Já existem, porém, pelo menos duas certezas.

A primeira é que o Tesouro Nacional está certo em negar ajuda financeira para tapar o buraco bilionário deixado no banco estatal. Com capital estimado em R$ 2,3 bilhões, o BRB aprovou nesta semana um aumento de capital de até R$ 8,8 bilhões. Não está claro de onde o governo do DF, controlador do banco, tirará recursos para honrar sua parte — e o contribuinte sempre costuma ser convocado a comparecer nessas horas. O cidadão brasileiro não deveria arcar com o custo dos desmandos de Vorcaro e companhia.

A segunda certeza: o caso torna evidente que insistir em manter o BRB nas mãos do Estado não faz sentido. Ele é remanescente de uma era que — felizmente — já passou, em que os bancos estaduais eram usados para satisfazer aos caprichos políticos do governador de plantão. O caso Master mostra que deixá-lo sob o controle do governo do DF significa não apenas recorrer ao contribuinte para tapar rombos, mas também incentivar tal promiscuidade.

Desde o início, o relacionamento entre BRB e Master chamou a atenção. Em março do ano passado, o primeiro anunciou a compra de 58% do capital do segundo, operação que exigia aprovação do Banco Central (BC). A aquisição de um banco privado em crise aguda de liquidez não tinha nexo para ninguém — daí Vorcaro ter recorrido a seus contatos políticos. O BRB é um dos últimos bancos estatais vulneráveis a esse tipo de ingerência.

Mesmo enfrentando pressão no Congresso para dar sinal verde, o BC descobriu uma fraude de R$ 12,2 bilhões na compra de carteiras de crédito do Master pelo BRB desde 2024. O negócio foi então barrado, a Polícia Federal abriu inquérito, o Master foi liquidado e, de lá para cá, a relação entre Vorcaro, BRB, governo distrital, Congresso e Judiciário se revelou uma usina de escândalos. Pelas últimas descobertas, Costa recebeu de Vorcaro imóveis avaliados em dezenas de milhões como propina pelas fraudes.

Ao mesmo tempo que as investigações devem ir até o fim, é preciso encaminhar uma solução duradoura para o BRB. Se o governo do DF não quiser diluir sua participação e quiser manter o controle sobre 56% do capital do banco, terá de injetar R$ 4,7 bilhões. Para não ficar com menos de 50% das ações, precisará de no mínimo R$ 2,8 bilhões. Ante a impossibilidade de tirar recursos do Orçamento, a nova direção do BRB pediu um empréstimo ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), instituição privada mantida pelos bancos. É uma operação sem o menor sentido. O FGC existe para proteger o dinheiro de investidores, não para salvar bancos enrolados em negociatas.

Até o momento, Celina Leão (PP), que assumiu o governo do DF com a saída de Ibaneis, tem negado a realidade. Diz que o banco não será vendido, o descreve como “desejado por vários banqueiros” e afirma que o pior já passou. Protelar a única decisão sensata seria um erro catastrófico. Somente uma operação que proteja os correntistas e resulte na privatização garantirá que o BRB não seja usado para outras negociatas — em que o contribuinte costuma ser chamado a pagar a conta.

Nova morte de motorista a tiros no Rio expõe despreparo de policiais

Por O Globo

Agentes arriscam a própria vida, mas são pagos pelo Estado para proteger os cidadãos, não para matá-los

Pouco mais de um mês depois da morte de uma médica por policiais em Cascadura, Zona Norte do Rio, outro caso trágico em circunstâncias semelhantes causa perplexidade. Na madrugada de quarta-feira, o comerciante Daniel Patrício Oliveira, de 29 anos, foi morto quando dirigia uma picape a caminho de casa, na Pavuna, Zona Norte. Policiais alegaram que ele não obedeceu à ordem de parar e acelerou em direção aos agentes. Dispararam mais de 20 tiros. Um deles atravessou o para-brisa e atingiu o rosto de Oliveira (outros três ocupantes do veículo não se feriram). Mais uma família foi destruída. Oliveira tinha uma filha de 4 anos e estava de mudança com a mulher para outro estado, justamente devido à violência na cidade.

Os policiais afirmaram ter sido alertados sobre um veículo em atitude suspeita na região, próxima ao Complexo da Pedreira, área violenta da capital. A vítima, segundo a polícia, tinha uma anotação criminal por receptação. Mas nada justifica a saraivada de tiros de fuzil contra um motorista desarmado. Em março, policiais já haviam confundindo o carro da médica com o de assaltantes. A simples suspeita bastou para que ela fosse fuzilada (a ação foi tão desastrosa que PMs ordenaram que descesse do carro quando já estava morta).

Com a repercussão, a Corregedoria da Polícia Militar determinou a prisão de dois PMs suspeitos de envolvimento na morte de Oliveira. A despeito das versões dos policiais, as imagens de câmeras corporais revelaram indícios de homicídio doloso. As armas usadas foram apreendidas. Mas a questão não pode se encerrar na detenção dos PMs e na apreensão das armas. Houve mais uma tragédia inaceitável. É angustiante que situações desse tipo continuem a se repetir.

Em 2015, os mototaxistas Thiago Guimarães e Jorge Lucas Martins Paes foram mortos por um PM na Pavuna. Lucas carregava um macaco hidráulico, que o policial pensou ser um fuzil. Em 2019, o músico Evaldo Rosa foi morto por soldados do Exército em Guadalupe, Zona Norte do Rio. Seu carro, confundido com o de bandidos, foi alvejado por 62 tiros, mas em 2024 os acusados foram absolvidos pelo Superior Tribunal Militar por falta de provas. Neste mês, o entregador Douglas Renato Zwarg, de 39 anos, foi morto por um guarda civil metropolitano durante abordagem perto do Parque Ibirapuera, em São Paulo. O agente alegou que o tiro ocorreu de forma acidental quando descia da viatura, versão que não convenceu a família da vítima.

Tais episódios expõem, no mínimo, despreparo dos policiais. Entende-se que eles arriscam a vida diariamente em confrontos com bandidos, mas existem regras para abordagens — e nenhuma delas autoriza disparar contra cidadãos com base em suposições. É verdade que a polícia não tem sido conivente, e os acusados têm ido a julgamento. Mas a tragédia já está consumada. Não há dúvida de que faltam treinamento a integrantes de forças de segurança e rigor no cumprimento dos protocolos. É sempre bom lembrar que policiais são pagos pelo Estado para proteger os cidadãos, não para matá-los.

Há algo de podre na Polícia Militar

Por O Estado de S. Paulo

Suspeitas de vazamento de informações ao PCC e prevaricação do ex-comandante expõem um quadro perturbador de infiltração criminosa na elite da PM de São Paulo

A troca do comando da Polícia Militar (PM) de São Paulo está longe de ser um movimento trivial na rotina administrativa da corporação. A saída do coronel José Augusto Coutinho e a ascensão da coronel Glauce Anselmo Cavalli não podem ser explicadas somente à luz da versão protocolar apresentada pelo governo estadual, segundo a qual “motivos pessoais” teriam levado Coutinho a se afastar do cargo. Os fatos revelados pelo Estadão indicam outra coisa: foi uma decisão forçada pela gravíssima suspeita de que o ex-comandante teria prevaricado, no mínimo, diante da associação criminosa entre membros da Rota, unidade de elite da PM paulista, e o PCC.

Este jornal teve acesso ao depoimento sigiloso do promotor Lincoln Gakiya, peça fundamental para a correta decisão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) de trocar o comando da PM. Gakiya, uma referência nacional no combate ao crime organizado, descreveu um cenário perturbador à Corregedoria da corporação. Oficiais da Rota teriam vazado informações policiais estratégicas para a cúpula do PCC em troca de milhões de reais. E, o que é ainda pior, sob o beneplácito de superiores.

Gakiya sustenta suas conclusões em relatos de criminosos, testemunhas e outros desdobramentos de investigações das quais participou. O promotor informou à cúpula da PM que uma reunião fechada com um delator foi gravada por policiais militares e teve o conteúdo vendido a líderes do PCC por R$ 5 milhões. Se confirmados, esses fatos não apenas configuram corrupção, como representam uma quebra intolerável da confiança pública na cúpula do policiamento ostensivo de São Paulo. Nada menos. Restaurá-la decerto será a primeira missão da coronel Glauce, oficial com um currículo aparentemente à altura do desafio.

Mesmo que não se lhe atribua participação alguma nos crimes relatados por Gakiya, a situação do ex-comandante da PM era mesmo insustentável. A hipótese de prevaricação, vale dizer, a omissão deliberada diante da suspeita de crimes, já bastaria para inviabilizar sua permanência no cargo. Mas, agora, é preciso ir além. Ainda segundo Gakiya, Coutinho teria sido informado pessoalmente sobre o vazamento de informações policiais para o PCC. Além disso, o coronel teria tido acesso aos áudios que sustentam a denúncia do promotor. Mesmo assim, não estão claras que providências o ex-comandante teria tomado à época dos fatos.

Por mais graves que sejam, as suspeitas não se limitam a um episódio isolado. Denúncias recebidas pela Corregedoria da PM apontam para a existência de um “núcleo” de policiais, chamemos assim, que teriam atuado como intermediários entre a inteligência da corporação e criminosos de altíssima periculosidade. A menção a pagamentos, à proteção policial de membros do PCC, à execução de desafetos do bando e à circulação de informações privilegiadas expõe um grau de contaminação da PM paulista que, se não for debelada, comprometerá, se não eliminar, a capacidade do Estado mais rico da Federação de enfrentar o crime organizado.

Nesse sentido, a troca de comando da PM, assim como o afastamento de oficiais ligados ao ex-secretário da Secretaria Pública Guilherme Derrite (PP), deve ser entendida como uma bem-vinda medida de depuração da corporação. O governo de São Paulo agiu corretamente ao sinalizar que desvios de conduta dessa magnitude não passarão incólumes.

Mas mudança de nomes, por si só, não basta. É preciso que o Palácio dos Bandeirantes assegure o bom andamento das investigações e, ademais, aja com a responsabilidade que lhe cabe para a punição exemplar de todos os policiais, militares ou civis, mancomunados com o crime organizado. A melhor política de segurança pública do mundo sucumbe à corrupção do guarda da esquina.

Ao longo de décadas, a PM de São Paulo construiu uma reputação de excelência operacional que não pode ser dilapidada por práticas criminosas de alguns de seus quadros podres. Das polícias de São Paulo não se espera outra coisa senão integridade absoluta de seus agentes, respeito estrito à legalidade e compromisso inarredável com o Estado Democrático de Direito. A base de sua legitimidade e de sua fé pública está aí.

Judiciário no escuro

Por O Estado de S. Paulo

Estudo da OCDE mostra que faltam dados consolidados sobre ganhos dos magistrados e sobre potenciais conflitos de interesse, o que compromete a integridade do Judiciário brasileiro

Embora ainda rara na administração pública, transparência não é concessão do poder, mas exigência de sua legitimidade. Quanto maior a autoridade de uma instituição, sobretudo quando não se submete ao voto popular, maior deve ser sua disposição de se expor ao escrutínio público. No Judiciário, essa relação é particularmente sensível. A confiança em suas decisões não decorre apenas da letra da lei, mas da percepção de imparcialidade, integridade e responsabilidade de seus membros. Onde essas garantias não são visíveis, instala-se a dúvida e, com ela, o desgaste institucional.

É nesse ponto que o Judiciário brasileiro, incluído, por óbvio, o Supremo Tribunal Federal (STF), revela fragilidades incompatíveis com uma democracia madura. Antes fossem apenas dificuldades operacionais ou imperfeições pontuais. Trata-se, na verdade, de uma cultura institucional que ainda resiste à prestação plena de contas à sociedade, em seu sentido amplo. Temas sensíveis como declarações de bens e interesses de magistrados, a verificação dessas informações e a apuração de conflitos permanecem envoltos em névoa que impede aferir, com segurança, a lisura do sistema e a regularidade das condutas.

A edição mais recente do Panorama Anticorrupção e Integridade, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), deu contornos objetivos ao problema. O relatório aponta que o Brasil não dispõe de dados públicos consolidados sobre o cumprimento dessas obrigações nem sobre os mecanismos de controle ou a ocorrência e o tratamento de conflitos de interesse. Tem-se aí uma lacuna elementar, que compromete tanto a transparência como a própria capacidade de prevenir, identificar e corrigir desvios.

Ainda assim, o diagnóstico pode ser considerado brando à luz de avaliações feitas no próprio País. Especialistas têm ressaltado que o quadro real é ainda mais grave, marcado pela ausência de informações estruturadas e acessíveis. Muitas vezes, os dados não estão apenas fora do alcance do público – simplesmente não existem de forma sistematizada, organizada e comparável, o que mostra que a transparência ainda não foi incorporada como princípio estruturante do funcionamento do Judiciário.

Esse déficit ajuda a explicar a erosão da confiança pública, especialmente em relação ao STF. A Corte, que deveria simbolizar a segurança jurídica, tornou-se alvo frequente de críticas e suspeitas. Parte dessas contestações é movida por interesses políticos liberticidas, mas encontra terreno fértil na escassez de informações verificáveis. A opacidade, assim, a um só tempo fragiliza a instituição e amplia sua exposição a ataques, ao permitir que dúvidas legítimas se confundam com narrativas oportunistas.

Não faltam, contudo, iniciativas formais para enfrentar o problema. A criação, no Conselho Nacional de Justiça, de um observatório para monitorar transparência, integridade e riscos de corrupção indica preocupação institucional. Mas a experiência recomenda cautela. Sem publicidade ativa de dados, padronização de informações e mecanismos efetivos de controle, há o risco de que tais estruturas se limitem ao plano declaratório, sem impacto real sobre práticas arraigadas.

A controvérsia sobre os chamados “penduricalhos” ilustra o impasse. A dificuldade de obtenção, por grande parte da sociedade, de dados inteligíveis sobre remunerações, indenizações e benefícios compromete um debate qualificado. Tentativas de limitar esses pagamentos esbarram na opacidade que ainda cerca sua composição e justificativa. Em decisões recentes, o próprio STF deixou escapar a oportunidade de impor maior clareza sobre o tema, optando por soluções que preservam zonas de sombra.

Não há integridade possível sem transparência efetiva. Para um Poder de funções contramajoritárias, a legitimidade depende de demonstrar, de forma contínua e verificável, que atua dentro de padrões éticos elevados. Isso exige tanto normas formais como dados abertos, auditorias consistentes e disposição genuína para o acompanhamento da sociedade. Enquanto persistirem lacunas tão básicas quanto as apontadas pela OCDE, o Judiciário conviverá com um paradoxo: exige confiança, mas não oferece os instrumentos para sustentá-la. Num ambiente democrático já tensionado, a opacidade se afirma como um elevadíssimo risco institucional que o País não pode mais ignorar.

Um bom acordo entre Brasil e EUA

Por O Estado de S. Paulo

Em meio a ruídos, países acertam ao ampliar esforços para interceptação de drogas e armamentos

Os governos de Brasil e EUA acabam de fechar um acordo de cooperação para intensificar o combate ao crime organizado transnacional, numa demonstração de que, quando o pragmatismo impera, é maior a chance de colher bons frutos.

O acordo envolve ações que miram a interceptação de cargas de armamentos e drogas transportadas ilegalmente entre os dois países, bem como a adoção de um programa de compartilhamento de informações em tempo real.

Do lado brasileiro, o acordo foi encabeçado pela Receita Federal; pelo americano, responde a U.S. Customs and Border Protection (CBP), a agência de fronteiras dos EUA. De acordo com o Ministério da Fazenda, pasta à qual a Receita Federal é subordinada, a construção da agenda conjunta teve início em janeiro de 2026, após um encontro em Foz do Iguaçu, no Paraná.

Isoladamente, é óbvio, o acordo não é uma bala de prata para resolver o cada vez mais complexo problema do crime organizado transnacional, até porque não existe uma solução única e infalível para acabar com uma atividade cada vez mais sofisticada e internacionalizada.

Pesquisadores, contudo, avaliam a cooperação como positiva, sobretudo em relação ao combate ao tráfico de armamentos, uma vez que parte das armas apreendidas em território brasileiro é de origem americana.

Há que destacar ainda que o acordo ocorre em momento tenso na relação entre os dois países. Como se sabe, a gestão Donald Trump vem sinalizando que pretende classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, tal como já fez com outros grupos criminosos da América Latina.

Apesar de aterrorizarem a vida da população, nem o CV nem o PCC são grupos terroristas, uma vez que não se pautam por objetivos políticos ou ideológicos. Ademais, tratar as máfias brasileiras como terroristas pode até mesmo inibir a troca de informações entre Brasil e EUA, na contramão do acordo recém-assinado.

Além disso, uma potencial designação do CV e do PCC como terroristas pode resultar em sanções financeiras que afetam pessoas e empresas não diretamente envolvidas com tais organizações.

Como o governo Lula é contra uma mudança na classificação dos EUA em relação ao CV e ao PCC, parte da oposição resolveu fazer coro à proposta de Trump, esperando capitalizar a linha dura contra a criminalidade embutida na iniciativa americana e, ao mesmo tempo, vincular ao governo petista a imagem de defensor de criminosos.

O governo petista, por sua vez, errou feio ao transformar a detenção nos EUA do ex-deputado Alexandre Ramagem num espetáculo midiático. Tudo o que conseguiu foi a expulsão de um delegado da Polícia Federal que até então trabalhava em solo americano, o que definitivamente em nada ajuda a relação entre Brasil e EUA.

Ações efetivas contra a criminalidade exigem mais pragmatismo do que gritaria. Tanto oposição quanto governo precisam baixar o tom, evitando tanto o alinhamento quanto a crítica automática a Trump. Que o acordo entre a Receita e a CBP seja um norte.

Guerra eleva inflação global e acumulação de estoques

Por Valor Econômico

Índice composto de gerente de compras da S&P Global de abril, que engloba 40 países, aponta pressões inflacionárias e expansão da atividade industrial

A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, perto de completar dois meses, provocou uma onda de reajustes de preços global só comparável à ocorrida durante a pandemia de covid-19. Segundo o índice composto de gerente de compras da S&P Global de abril, que engloba 40 países, há pressões inflacionárias por toda parte e as empresas estão repassando em boa medida a elevação dos custos dos insumos aos consumidores. As consequências inflacionárias do fechamento do Estreito de Ormuz estão se concretizando, enquanto as de estagnação, ainda não completamente. Pelo contrário, as atividades industriais nos Estados Unidos, zona do euro, Reino Unido e Japão avançaram no mês passado, por motivos também relacionados ao conflito: as fábricas aumentaram estoques de produtos acabados e de insumos precavendo-se de possível escassez e mais altas de preços. As interrupções no fornecimento de matérias-primas para a produção se tornaram mais frequentes no mês passado.

O panorama geral da inflação é agora o mais preocupante em quase 4 anos”, alerta Chris Williamson, economista-chefe da S&P Global Market Intelligence. Em março, os preços ao produtor nos Estados Unidos subiram 0,5%, a maior alta desde fevereiro de 2023. A elevação dos custos dos insumos, provocada pela guerra contra o Irã e ainda alimentada pelo choque tarifário decretado pelo presidente Donald Trump há um ano, não derrubou ainda as atividades econômicas na principal economia do mundo. O índice para os EUA subiu de 50,3 para 52,4 em março (acima de 50 pontos significa expansão; abaixo, retração), mostrando recuperação. O PIB americano cresceu 0,5% no primeiro trimestre. Esse crescimento, porém, tem grande motivação defensiva: acumulação de estoques. Executivos ouvidos para a pesquisa relataram compras de “emergência” ou “pânico” para escapar de disparadas de preços e interrupção de fornecimento de insumos no curto prazo, pelo menos. Com isso, preços de vários produtos estão subindo, não apenas os de energia. Assim como na saída da pandemia, em meados de 2022, as fábricas relataram grandes intervalos entre pedidos e entrega de suprimentos. O custo dos insumos em abril teve a maior alta desde julho de 2022.

Nos primeiros quatro meses do ano, o setor de serviços nos EUA teve a primeira queda desde janeiro de 2023, segundo a S&P Global. A guerra teve impacto nos gastos com turismo e viagens, as exportações de serviços recuaram e a percepção de alta rápida dos preços derrubaram as atividades. Nem por isso a inflação do setor, que vinha impedindo que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) conseguisse colocar o índice de preços de volta à meta de 2%, arrefeceu. Ao contrário, a inflação do setor voltou a crescer acima da tendência de longo prazo e atingiu seu mais alto nível em oito meses.

A zona do euro sofre igualmente com a alta de preços e interrupção no fornecimento de insumos, mas com perspectiva diferente. Ela caminha para a retração, que pode se cristalizar caso se confirmem as expectativas do mercado de duas altas de juros pelo Banco Central Europeu até o fim do ano em reação à montante pressão inflacionária. O setor de serviços se retraiu, mas não as atividades industriais, para formação de estoques e pelo aumento dos investimentos em defesa nos orçamentos de vários países do bloco monetário. Mas a inflação voltou a ameaçar. “Excluída a pandemia, é o maior aumento das pressões de custos registrada desde 2000”, afirma Williamson. As fábricas aumentaram suas encomendas de matérias-primas no maior volume desde o início de 2022. Abril interrompeu uma sequências de 15 meses no índice. Os serviços declinaram pela primeira vez em quase um ano a uma velocidade só comparável à de fevereiro de 2021, marcado por lockdowns na pandemia.

China, Japão e Índia, respectivamente segunda, quarta e quinta maiores economias do mundo, mostram expansão, apesar de redução das atividades exportadoras. A ameaça deflacionária chinesa está sendo contida pela maior pressão na inflação dos insumos desde março de 2022. Os preços ao produtor subiram com força nunca vista em quatro anos.

O índice da S&P Global coloca mais desafios para o Banco Central. Ele já havia subido de 47,3 para 49 em março (último dado disponível), com a indústria mostrando seu melhor desempenho em 10 meses. Embora a tendência seja de redução do crescimento, as exportações estão em alta, em especial as de petróleo, e têm compensado em parte a perda de dinamismo de setores ligados à demanda doméstica. A inflação voltou a subir, o que, ao lado do início da campanha eleitoral, com mais gastos do governo para reeleger o presidente Lula, coloca dúvidas sobre até onde pode ir o ciclo de redução de juros iniciado pelo BC.

Alguma austeridade oficial teria permitido ao BC iniciar antes a redução da Selic, mas a política fiscal expansionista conduziu a autoridade monetária a iniciar os cortes pouco antes de imprevisíveis e fortes pressões inflacionárias externas criadas pela guerra. Mais uma vez, o país desperdiçou a chance de consertar as contas públicas em ambiente estável, para ser novamente acossado por turbulências vindas de fora.

É preciso que cada vez mais brasileiros se vacinem

Por O Povo (CE)

Alguns fatores ajudam a explicar a baixa adesão às vacinas, como desigualdades sociais, desinformação e "fake news"

A vacinação é uma das intervenções médicas que mais salvaram vidas na história da humanidade — e continua salvando. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de cinco milhões de vidas são preservadas anualmente, em todo o mundo, devido à vacinação.

No entanto, esse é um procedimento que precisa da contribuição das pessoas para seu bom funcionamento. Isto é, que a população compreenda a importância da imunização e busque os postos de saúde nos quais possam se vacinar e a seus filhos.

O problema é que, mesmo com a oferta gratuita das vacinas mais necessárias à disposição dos brasileiros nos postos de saúde, um número significativo de pessoas deixa de imunizar-se contra doenças que seriam evitáveis com caderneta em dia.

Conforme mostra reportagem sobre o assunto na edição de quinta-feira, é o que está acontecendo agora, em Fortaleza, com o papilomavírus humano (HPV), uma das infecções sexualmente transmissíveis (IST) mais prevalentes no mundo.

Segundo dados do Ministério da Saúde, o contágio acomete cerca de 54% das mulheres e 41% dos homens sexualmente ativos. Porém, mesmo com o esforço da Prefeitura, até agora, menos de 5% da meta projetada foi alcançada. Fora da rede pública, essa vacina pode custar até R$ 3 mil.

A transmissão do HPV pode se dar apenas com o contato com a pele, podendo provocar desde verrugas genitais até o desenvolvimento de câncer. A afecção é assintomática, um desafio adicional para o controle da doença, alerta o médico infectologista Luan Victor, ouvido pelo O POVO.

Jovens entre 9 e 14 anos são alvo prioritário da campanha. "A vacinação contra o HPV, iniciada na adolescência, é uma grande estratégia de saúde pública na prevenção dos cânceres", afirmou à reportagem a médica pediatra e diretora técnica de uma clínica de vacinação, Vanuza Chagas.

Em períodos mais recentes, 2023, por exemplo, registrou-se queda no total de pessoas vacinadas, ano em que nenhum estado conseguiu atingir a meta de cobertura para as quatro principais vacinas aplicadas em crianças até um ano de idade. Mas, nesse mesmo ano, iniciou-se um processo de recuperação. Em 2025, o Brasil registrou aumento na cobertura de 15 das 16 vacinas do calendário nacional, "revertendo o cenário de queda desde 2016", segundo o Ministério da Saúde.

Alguns fatores ajudam a exemplificar a baixa adesão às vacinas, como desigualdades sociais, desinformação e "fake news" (informações mentirosas divulgadas deliberadamente).

O Brasil dispõe de uma instituição, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) que é referência mundial, devido à sua ampla cobertura e por disponibilizar 32 vacinas, além de soros, imunobiológicos e imunoglobulinas, que contemplam todas as fases da vida das crianças e dos adultos.

Portanto, é preciso que os brasileiros demandem cada vez mais o PNI para manter a própria saúde e da coletividade.


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