Valor Econômico
Melhorias do sistema político têm de se
ancorar na aceitação do dissenso, construção de negociações, valorização de
controles democráticos sobre governantes e crença na verdade das urnas
O Brasil nunca viveu período democrático tão
longo e sólido como o inaugurado em 1985 com o fim da ditadura militar. A
consolidação do novo regime veio com a Constituição Cidadã, como Ulysses
Guimarães a definiu. Além dela, o aperfeiçoamento incremental das regras, muita
negociação e controles dos governantes foram as chaves do sucesso. Crises
também ocorreram, mas a democracia permaneceu. A tentativa de golpe liderada
por Bolsonaro fracassou e ele foi preso. O quadro atual, porém, é marcado pelo
crescimento do discurso antissistema e pela dificuldade em respondê-lo.
Muitas críticas podem ser feitas hoje ao sistema político brasileiro, mas a grande questão é saber se o caminho de quem as faz é pelo fortalecimento da democracia ou para gerar seu enfraquecimento. Não basta apontar os erros e problemas. É preciso propor medidas cujo objetivo seja o aperfeiçoamento democrático. A história mostra, ademais, que muitos movimentos que captavam anseios populares e propunham discursos antissistema redundaram em autoritarismo ou totalitarismo. Assim foi com o fascismo italiano ou com o nazismo.
Se é necessário evitar a fulanização das
propostas, algo que só favorece a polarização estéril que tomou conta do país,
não se pode igualmente esquecer onde estavam determinados atores políticos em
momentos estratégicos para a democracia e o que dizem sobre a nossa ditadura
militar ou outras autocracias e autocratas pelo mundo afora. A discussão das
ideias deve ser valorizada, mas é preciso cotejar a relação delas com
trajetórias históricas e posicionamentos de seus proponentes. Se mudaram de
posição em relação à defesa de déspotas e autoritarismos, ótimo, mas que digam
isso em alto e bom som.
Realçar as posições e trajetórias é uma forma
de evitar a fácil hipocrisia política de se construir uma imagem de reformador
das instituições, embora nem sempre tenha defendido a democracia. O espírito de
8 de janeiro de 2023 estava recheado de palavras de ordem vinculadas ao repasse
do poder ao povo. Como se comprovou nos últimos anos, contudo, o que estava por
trás daquilo era um projeto autocrático de golpe de Estado.
Neste sentido, melhorias do sistema político
não dependem apenas de mudanças institucionais. Elas têm de se ancorar,
profundamente, em valores democráticos, que aceitem o dissenso, saibam
construir negociações, valorizem os controles democráticos sobre os governantes
e acreditem na verdade das urnas.
Antes de pensar o que pode ser colocado como
contraponto ao sentimento antissistema que domina o ambiente atual, é essencial
destacar o que gerou o sucesso da democracia pós-1988. Partir do pressuposto de
que deu tudo errado na política contemporânea brasileira ou é pura ignorância
em relação à história brasileira, marcada mais por autoritarismos e falta de
cidadania à maioria da população, ou é uma forma de não entender o significado
da democracia.
Quatro características foram centrais para os
sucessos do presidencialismo de coalizão em seu auge, quando foi, por um lado,
capaz de manter eleições livres, competitivas e justas, e, por outro, propiciou
um ambiente institucional e social que favoreceu melhorias nos direitos de
cidadania dos brasileiros. Desse modo, houve um avanço concomitante da
liberdade e da igualdade.
O primeiro pilar do avanço democrático foi o
aperfeiçoamento incremental das instituições. Várias reformas legais em prol de
maior democratização foram feitas, podendo ser citadas a redução do poder do
Executivo nas medidas provisórias, a proibição das coligações em eleições
proporcionais para evitar a inflação de partidos, o maior controle das contas
públicas com a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Lei da Ficha Limpa, entre
outras. Mesmo uma medida controversa como a permissão da reeleição apresenta,
segundo as pesquisas feitas na ciência política brasileira, mais pontos
positivos do que negativos.
Tais modificações institucionais foram
importantes, mas não seriam suficientes para alicerçar um jogo pluralista
liberal-democrático. Aqui entra um segundo pilar do pós-1988: a construção de
valores democráticos mais sólidos do que noutros períodos históricos, tanto no
plano da classe política como na sociedade. Os políticos aceitaram mais as
derrotas e a necessidade de diálogo e negociação, sobretudo se comparamos com o
pré-1964, quando a intransigência política era tônica e o golpismo, a linguagem
predominante de todas as forças políticas.
A disputa entre PT e PSDB no auge do
presidencialismo de coalizão, que se dava não só no plano nacional como também
em estados e cidades importantes, é a maior prova de uma cultura política de
competição democrática que se manteve, pelo menos até 2014, nos trilhos do jogo
político pluralista e tolerante. Uma boa discussão sobre esse processo pode ser
vista no livro “Democracia negociada: política partidária no Brasil da Nova
República” (FGV Editora), de Leonardo Weller e Fernando Limongi.
A democracia sempre tem de ser vista sob um
duplo aspecto: ela dá poder de escolha soberana aos eleitores, mas também
estabelece limites aos governantes eleitos. Esse é um terceiro ponto que foi
central para o desenvolvimento recente do regime democrático brasileiro. O
controle democrático se fortaleceu de quatro maneiras.
Uma foi a maior força dada à Constituição e
às leis, cujo cumprimento ganhou maior peso na prática dos governos, com forte
contribuição do STF. Além disso, os órgãos de controle, como os tribunais de
contas e ministérios públicos, ganharam maior capacidade de atuação para
garantir direitos e evitar corrupção. O Congresso se tornou um ator central do
sistema político, e não é possível - ainda bem - governar autocraticamente sem
coalizão. E ainda foram criados mecanismos de participação social,
especialmente em políticas públicas no plano local, que constituíram uma
pressão popular nova na história brasileira.
Completando o conjunto de avanços, uma marca
do período pós-1988 foi uma luta constante pela republicanização e transparência
do poder público. Nem sempre esse processo foi bem-sucedido, e isso deixou
problemas até hoje não resolvidos. No entanto, muitas legislações e formas de
funcionamento do Estado geraram uma administração pública mais aberta e
mecanismos mais efetivos de combate à corrupção.
Exemplos nesta linha foram a Lei de Acesso à
Informação e a ampliação do poder e da competência da Polícia Federal e da
Receita Federal. Para quem tem dúvidas das melhorias republicanas, basta
lembrar que foi uma burocracia mais autônoma e de qualidade que resistiu aos
arroubos autoritários do governo Bolsonaro, em lugares como o Itamaraty ou
entre os servidores do SUS.
Os avanços democráticos sofreram reveses nos
últimos anos, ao que se somam problemas mais estruturais que não foram
resolvidos. De todo modo, não se pode jogar a criança com a água do banho: o
legado da Constituição Cidadã deve ser o alicerce de qualquer proposta de
aperfeiçoamento do sistema político. É preciso valer seus princípios de
soberania popular, transparência governamental, garantia de direitos e um
sistema de divisão de Poderes.
A necessidade de algum grau de mudança é
verdadeira. Isso se deve ao desequilíbrio no presidencialismo de coalizão, ao
crescimento de emendas parlamentares pouco transparentes, ao aumento da
descrença no Sistema de Justiça, ao reforço da polarização estéril e de um
comportamento antissistêmico de representantes eleitos, cujo maior exemplo foi
a patética tomada da mesa da Câmara pelos bolsonaristas.
O desejo da mudança, para não ser casuístico,
precisa dizer o que quer para a democracia brasileira. É fundamental melhorar o
desempenho do Judiciário, combater seus privilégios e tornar o STF um órgão
mais colegiado e transparente. Mas isso deve ser feito também corrigindo os
problemas do Congresso, especialmente o emendismo desmedido e que, da maneira
como se estabeleceu, tem piorado a qualidade dos gastos públicos, o que afeta a
efetividade da cidadania.
O mesmo vale para a melhoria da qualidade das
instituições públicas subnacionais, pois o caso do Rio de Janeiro, em especial,
mostra que o buraco profundo do sistema político está de braços dados com o
crime organizado. Transparência e republicanismo para todos, e não só para
alguns, deveria ser o lema de quem quer aperfeiçoar o modelo democrático
brasileiro.
Para levar adiante uma agenda sistêmica de
aperfeiçoamento de nossa democracia, e que não vise apenas os “inimigos”
eleitorais ou se ancore em demagogias antidemocráticas, será necessário olhar
crítico e independência, mas também capacidade de sustentar um diálogo baseado
na universalidade da mudança: o que vale para um, vale para todos. Será que as
forças políticas brasileiras estão preparadas para essa visão ampla e
essencialmente democrática?
Numa eleição que deve ser marcada por intensa
polarização, por uma facilidade em defender argumentos antissistêmicos e por
grandes chances de tentativa de interferência externa, será preciso uma
combinação rara de coragem e moderação para propor melhorias que fortaleçam a
democracia brasileira. Uma agenda mais ampla e sistêmica exigirá coragem; sua
implementação dependerá de muita negociação e responsabilidade para evitar a
abertura de portas para os autoritários que estão à espreita.
*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas

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