Crescem riscos do controle de preços dos combustíveis
Por Folha de S. Paulo
Governo Lula quer usar receita adicional com
alta do petróleo para compensar desoneração dos derivados
Alguma mitigação do choque gerado pela guerra
no Irã faz sentido, mas subsídios custosos não podem se prolongar
indefinidamente
Há preocupações eleitorais, sobretudo, na
proposta do governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
de reduzir tributos sobre a gasolina e o etanol com recursos oriundos da
arrecadação adicional a ser obtida pela União com as cotações mais altas
do petróleo.
Desde o início da guerra no Irã, os preços internacionais dispararam —o barril Brent saltou de cerca de US$ 70 para mais de US$ 100, com picos próximos a US$ 110. Até agora, porém, a alta dos preços da gasolina se limitou a 7,5% aqui, enquanto nos Estados Unidos já se aproxima de 50%.
Há defasagem doméstica evidente, que impede
importações e ameaça o abastecimento. O repasse é inevitável, pois, e a
proposta do governo, protocolada no Congresso
Nacional na forma de projeto de lei complementar, visa
minimizar o impacto para o consumidor.
O anúncio foi cercado de confusão.
Inicialmente, o Planalto indicou apenas que ocorreria queda nos tributos sobre
gasolina, mas logo depois esclareceu que haveria compensações
por meio do uso de receitas extraordinárias da União com petróleo.
Vale dizer: os ganhos com royalties, Imposto de
Renda e contribuição social sobre o lucro das empresas do
setor, dividendos da Petrobras e
exportações permitirão reduzir a tributação incidente sobre gasolina, etanol,
diesel rodoviário e biodiesel.
O mecanismo prevê decretos a cada dois meses
durante a guerra, com cálculo exato da receita extra apurada (a parcela não
orçada em 2026). A estimativa do Ibre-FGV é de R$ 95,9 bilhões em arrecadação
adicional total em 2026 com o barril a US$ 100 — dos quais R$ 48,62 bilhões
cabem à União; o Orçamento deste ano previa cotação bem inferior, próxima a US$
65.
Medidas anteriores de desoneração
para diesel e combustível de aviação já somam mais de R$ 30
bilhões em renúncia fiscal.
Pode até fazer sentido mitigar a volatilidade
de preços em cenário de choque externo e adiar ajustes abruptos. Deve-se ter em
conta que a legislação e o próprio estatuto da Petrobras vedam que a empresa
arque com subsídios, que devem vir do Tesouro.
Entretanto, reduzir impostos sobre
combustíveis exige pesar custos e benefícios com rigor. Não é socialmente justo
subsidiar por prazo indeterminado o consumo de gasolina e etanol para
automóveis —benefício regressivo, que favorece as classes médias e altas— num
país com déficit público astronômico.
As receitas extraordinárias do petróleo,
resultantes de um choque geopolítico, deveriam ser primordialmente direcionadas
ao equilíbrio das contas públicas, não a medidas que evitam o necessário ajuste
na demanda e postergam a disciplina fiscal.
O afã de evitar mais danos à popularidade
presidencial leva à tentação de prolongar os subsídios, um risco que se
materializou em larga escala em 2022, sob Jair
Bolsonaro (PL). A herança a ser
deixada para a próxima administração tende a piorar.
Rachaduras na moradia social
Por Folha de S. Paulo
Prefeitura de SP falha em garantir acesso da
população de baixa renda à política pública habitacional
Unidades de HMP e HIS já representam cerca de
75% do setor; é preciso fechar brechas legais que geram distorções e melhorar
fiscalização
Denúncias têm exposto problemas graves na
regulação e no monitoramento de unidades de habitação social na cidade de São Paulo.
Em um prédio na região da avenida Paulista,
construído com incentivos fiscais para moradia social, funciona um hotel quatro
estrelas. Apartamentos que receberam os mesmos benefícios são anunciados na
plataforma Airbnb para
turistas e visitantes.
Brechas permitem que empresas construam com
benefícios destinados a moradias sociais e depois, com o prédio pronto, peçam
uma mudança de finalidade para que ele funcione como hotel ou que os
apartamentos não tenham as restrições daqueles destinados aos menos abonados:
servir apenas como moradia fixa e não poder ser revendido por um determinado
período de tempo.
Trata-se de duas categorias de imóveis:
Habitação de Interesse Social (HIS), para famílias com renda mensal de até 3
salários mínimos, na faixa 1, ou de 3 a 6 salários mínimos, na faixa 2; e
Habitação de Mercado Popular (HMP), de 6 a 10 salários mínimos.
Tais categorias ganharam força na revisão da
Lei de Zoneamento de 2016 e foram impulsionadas nas gestões municipais
seguintes.
O incentivo se dá por meio de isenções e
descontos no pagamento da taxa para construir na cidade (outorga onerosa) e do
aumento da área construída em relação ao terreno. Especialistas apontam que há
ainda cerca de 16 benefícios disponíveis.
Pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento (Cebrap), da Fundação Tide Setubal, estima que, entre 2014 e 2024,
a prefeitura deixou de arrecadar R$ 1 bilhão, considerando somente as outorgas
onerosas.
Unidades de HMP e HIS já representam cerca de
75% do setor, de acordo com dados do Sindicato da Habitação do Estado de São
Paulo —segundo o Cebrap, em 2014, a taxa era de 19%.
Mas o crescimento não foi acompanhado por
fiscalização eficiente. A gestão Ricardo Nunes (MDB) afirma ter
aberto 934 processos para apurar denúncias de "desvirtuamento" de 159
mil dessas unidades populares.
Em 2025, o Ministério
Público pediu a suspensão da política pública. Uma CPI na
Câmara Municipal apura, desde 2024, o uso indevido das HIS e HMP.
Urge fechar brechas legais que geram desvios,
fortalecer a fiscalização e melhorar as análises antes de conceder os
benefícios.
É inaceitável que construtoras lucrem com uma política pública, enquanto a Prefeitura perde arrecadação de taxas e a população de baixa renda fica sem acesso a moradias em regiões centrais.
PECs da escala 6x1 não passam de oportunismo
Por O Globo
Legislativo e Executivo estão unidos ao
defender medida nefasta para a economia brasileira
Faltando menos de seis meses para as
eleições, Executivo e Legislativo se uniram no oportunismo. Na quarta-feira, a
Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara deu sinal verde a duas
Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que acabam com a escala de seis dias
de trabalho por um de descanso, a escala 6x1. A aprovação aconteceu depois que
o governo enviou ao Congresso, como forma de pressão, um Projeto de Lei sobre o
mesmo tema com pedido de urgência. Com a aprovação da PEC na CCJ, será
instaurada Comissão Especial para discutir o tema. Pelos cálculos do presidente
da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a votação em plenário deverá ocorrer
até o fim de maio. O açodamento ditado pelo calendário eleitoral reduz a chance
de um debate aprofundado sobre o tema, sem demagogia nem populismo. Mas os
deputados precisam medir as consequências. A irresponsabilidade com a questão
gerará efeitos econômicos nefastos.
Hoje a lei permite uma jornada de trabalho de
até 44 horas semanais, com o limite de oito horas diárias e escala de seis dias
trabalhados por um de folga. A PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG),
estabelece a redução dessa jornada para 36 horas, com cinco dias de trabalho e
dois de descanso. Pela PEC 8/25, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), a jornada
passaria a ser de 36 horas semanais, com escala de no máximo quatro dias
trabalhados. Tudo isso sem redução dos salários. Não é preciso matemática
avançada para entender o significado da mudança: mais custo para as empresas,
onda de demissões, aumento da informalidade e pressão sobre os preços — ou
inflação.
Na visão irrealista e distorcida de seus
defensores, porém, o país só teria a ganhar, pois trabalhadores com mais tempo
para descansar seriam mais produtivos. De tão ingênua, a premissa chega a ser
embaraçosa. A produtividade por hora trabalhada no Brasil se arrasta em ritmo
de tartaruga há décadas. Entre 1981 e 2025, avançou pífio 0,6% ao ano — e o cansaço
de quem trabalha não está entre as causas principais do indicador sofrível.
Outro devaneio é acreditar que o saldo no mercado formal de trabalho seria
positivo, com as empresas contratando mais funcionários. Tal previsão não leva
em conta o aumento de custos para companhias já operando no limite. Em várias
empresas, já vigoram escalas distintas da 6x1. Na prática, a medida atingiria
menos de um quarto dos trabalhadores, levando boa parte à informalidade.
Usar como argumento a redução da jornada
noutros países é outra falácia. Antes de mudar a legislação, economias
avançadas trabalharam muito. Ficaram ricas e produtivas antes de reduzir horas
trabalhadas. A redução foi sempre compensada com maior produtividade. Levando
isso em conta, no atual nível de desenvolvimento do Brasil, a jornada deveria
ser maior, não menor. Estamos na mão contrária de China, Colômbia, África do
Sul e Rússia, países onde a população trabalha mais.
Se tomarem a decisão errada, os parlamentares
podem desencadear uma sucessão de equívocos para compensar seus efeitos
nefastos. Nos corredores do Congresso, já há quem defenda mais medidas
estapafúrdias, como isenções tributárias para as empresas que sofrerem com a
redução da jornada — proposta absurda mesmo que o país não atravessasse crise
fiscal crônica. No atual estágio da economia brasileira, não passa de
irresponsabilidade reduzir a jornada de trabalho.
Coibir furto de cabos exige trabalho de
inteligência para mapear receptadores
Por O Globo
Crime mais que triplicou no Brasil, e
prejuízo quase dobrou. Polícia tem de se concentrar nos ferros-velhos
Tem sido comum nas cidades brasileiras
motoristas e pedestres passarem durante a noite por vias às escuras. O que à
primeira vista pode parecer problema das empresas de iluminação pública ou
concessionárias de energia tem
se revelado um caso de polícia. Muitas vezes, apagões são provocados pelo furto
de cabos por criminosos que vendem o cobre a ferros-velhos clandestinos,
impondo prejuízos a empresas e consumidores. Por integrarem um serviço
essencial, os cabos de energia estão por toda parte, em redes aéreas ou
subterrâneas. O cidadão que paga impostos, além de ficar no escuro, cedo ou
tarde ainda tem de pagar na conta de luz o prejuízo causado pelos ladrões.
O transtorno se agravou nos últimos anos.
Entre 2024 e 2025, a quantidade de cabos furtados no Brasil mais que triplicou,
de 300 toneladas para 975 toneladas, como mostrou reportagem do Jornal
Nacional. O prejuízo de um ano para outro quase dobrou, de R$ 50 milhões para
R$ 90 milhões, segundo a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia
Elétrica (Abradee). A prática criminosa se espalha de norte a sul. No Ceará, em
2025, foram furtados cerca de 200 quilômetros de fios, deixando ao menos 450
mil clientes sem luz. Em Santa Catarina, os furtos quase dobraram nos últimos
dois anos.
Embora muitas vezes os crimes sejam
praticados à luz do dia, em geral eles ocorrem de noite. Além de agirem
rapidamente, os ladrões têm usado disfarces. Num vídeo gravado em Laranjeiras,
Zona Sul do Rio, dois homens não levam mais do que cinco minutos cronometrados
para abrir um bueiro, furtar os cabos e ir embora na maior desfaçatez. Existem
registros de falsos funcionários de concessionárias, uniformizados, abrindo
buracos na calçada para surrupiar os fios. Há ainda casos em que o gatuno não
se preocupa nem com a própria segurança. Em Belo Horizonte, um homem foi
filmado se equilibrando no alto de fios ao tentar furtá-los. Em janeiro de
2025, até a Cidade da Polícia, no Rio, ficou às escuras devido ao furto de
cabos. Vez por outra, os ladrões se dão mal. No último dia 20, a polícia
fluminense apreendeu uma tonelada de cabos de cobre sendo retirados de uma
galeria e prendeu oito suspeitos em flagrante em Magé, Região Metropolitana do
Rio. Os detidos alegaram ter autorização para fazer o “serviço”, mas a
concessionária negou.
Não há sinal de que a voracidade dos ladrões dará trégua. Mas, dado que os bandidos têm lançado mão da criatividade, as autoridades precisam agir com a mesma desenvoltura. Em julho do ano passado, entrou em vigor uma lei aumentando a pena para roubo, furto e receptação de cabos. É boa iniciativa, mas coibir os furtos exige primeiro trabalho de inteligência da polícia. É praticamente impossível monitorar as vias 24 horas por dia, apesar da profusão de câmeras de segurança públicas e privadas. Sabe-se, contudo, que os cabos são vendidos a ferros-velhos. Se não houvesse mercado, o furto não se justificaria. Por isso, é nos grandes receptadores que a polícia deve concentrar esforços. Precisa mapeá-los, prendê-los e desbaratar seus negócios.
Lula 4 será Dilma ao quadrado
Por O Estado de S. Paulo
Lula diz que já foi austero até demais, e o
PT, a julgar por seu programa, quer pedalar aceleradamente rumo a mais gastos e
subsídios – e seu corolário: mais dívida, impostos e juros
Em Barcelona, num fórum progressista, o
presidente e eterno candidato Luiz Inácio Lula da Silva lamentou que a esquerda
tenha “sucumbido à ortodoxia” e sido obrigada a governar com “austeridade”. O
diagnóstico ecoa o programa elaborado no último congresso do PT, que volta a
enxovalhar o “neoliberalismo” e promete turbinar o Estado como motor da
economia.
O País acumula mais de uma década de déficits
primários. A dívida bruta saltou de cerca de 52% do PIB em 2013 para algo
próximo de 86% nas projeções para 2027. O arcabouço fiscal, vendido como
âncora, multiplica exceções que somam dezenas de bilhões de reais e tolera
metas fictícias. Ano sim, ano também, o governo promete superávits e entrega
déficits. Eis a ideia de “austeridade” do PT.
A escalada de gastos estimula a demanda num
ambiente de oferta limitada, pressiona a inflação e obriga o Banco Central a
manter juros elevados. O efeito se propaga: crédito caro, investimento retraído
e crescimento medíocre viciado em estímulos. Em 2026, estimativas de mercado
indicam que quase metade da expansão do PIB pode vir de injeções fiscais e
parafiscais. O que o governo vende como “prosperidade” é só poder de compra
adiantado a juros escorchantes.
Longe de rediscutir essa mecânica, o PT quer
robustecê-la. Fala em “Estado indutor”, expansão de crédito público, políticas
industriais e uso estratégico de estatais. Na prática, esse Estado não induz
produtividade. Induz apenas dependência, clientelismo e captura. O
“planejamento” se resume à distribuição política de crédito. Não há novidade na
bolha populista: expansão artificial da demanda sem ganho real de
produtividade.
Entre 2011 e 2016, a aplicação mais ambiciosa
dessa agenda produziu inflação desancorada, perda de confiança e uma retração
acumulada do PIB superior a 7%. A Presidência de Dilma Rousseff não foi nenhum
desvio. Foi só a expressão mais voluntariosa dessas ideias. A diferença é que
nos primeiros governos petistas ainda havia algum colchão externo. Hoje, ele
desapareceu.
O superciclo de commodities, que permitiu a
Lula nutrir a ilusão de que sabe como fazer o País crescer, não se repete. A
despesa obrigatória cresce no piloto automático, enquanto as renúncias fiscais
se aproximam de 5% do PIB. Com juros elevados, o setor público precisaria gerar
superávits robustos apenas para estabilizar a dívida – algo distante do
horizonte.
Ainda assim, o lulopetismo recicla seu combo
de mistificações: rebatiza gasto corrente como “investimento”, culpa terceiros
pelos efeitos da própria política e trata limites fiscais como imposições
ideológicas. Essa narrativa excita suas claques, mas não altera a aritmética. O
mercado não inventa a dívida, apenas cobra o preço de financiá-la a um governo
que combate os juros com a política que os produz.
O vício de origem é que o lulopetismo trata a
política econômica como tecnologia de sustentação política. Crescimento,
investimento e disciplina fiscal são contingentes. Quando exigem limites, viram
“neoliberalismo”, “austeridade” ou “fetiche dos mercados”. Enquanto o programa
petista dá tintas ideológicas a uma engenharia macroeconômica abstrata, o País
real opera no crédito rotativo.
Cerca de 80% das famílias estão endividadas e
uma parcela relevante já não consegue honrar compromissos. O PIB pode avançar
morosamente, mas o orçamento doméstico está sob pressão. Estatísticas bem
selecionadas não conseguem eliminar a distância entre as narrativas fabricadas
no Planalto e a experiência no chão duro da economia familiar.
Lula se queixa de ter vencido com um discurso
e sido forçado a governar com outro. A história eleitoral do PT mostra o
oposto: quando radicaliza, perde; quando modera, vence. A “Carta ao Povo
Brasileiro” foi condição de viabilidade. Agora, porém, já não quer sequer
preservar as aparências. O programa do PT promete flexibilizar ainda mais as
regras fiscais e ampliar a intervenção estatal – a começar pelo Banco Central.
O País já testou esse modelo, conhece seus efeitos, sabe quanto custou.
Repeti-lo seria masoquismo. Os marqueteiros lulopetistas podem dourar a pílula,
mas a conta chega, na forma de dívida, impostos, juros e ausência de futuro.
Amazônia está longe da ‘savanização’
Por O Estado de S. Paulo
Novo estudo questiona advertência de
catastrofistas sobre a modificação radical da floresta. Não se pode baixar a guarda,
mas é preciso qualificar o debate ambiental
Uma pesquisa publicada na revista
científica Proceedings of the National
Academy of Sciences (PNAS) trouxe uma má e uma boa notícia
sobre a Amazônia: embora as queimadas degradem parte das características da
floresta, o bioma está longe de caminhar para a “savanização”, como denunciavam
ambientalistas.
Há anos ganham força previsões apocalípticas
para a maior floresta tropical do planeta, como um suposto “ponto de não
retorno”, segundo o qual a densidade da vegetação da Amazônia cederia lugar às
gramíneas, como o capim. Para testar essa hipótese, pesquisadores americanos e
brasileiros saíram a campo.
Em 2004, com o desmatamento e as queimadas em
alta, cientistas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam)
iniciaram os trabalhos: eles identificaram um problema, delimitaram o objeto,
lançaram suas perguntas e foram em busca das respostas.
O objetivo era simples: descobrir se o bioma
amazônico se recuperaria e manteria as características de floresta ou se
viraria uma savana, conforme alardeado por alguns modelos climáticos. E, para
isso, os cientistas analisaram queimadas controladas em áreas de floresta da
Estação de Pesquisa Tanguro, em Querência (MT).
O estudo foi realizado em três parcelas de
floresta: uma de “controle”, que não sofreu queimada experimental; uma que foi
alvo do fogo anualmente, de 2004 a 2010; e uma parcela que foi incendiada a
cada três anos, em 2004, 2007 e 2010. A partir daí, o fogo foi interrompido
para que os pesquisadores pudessem avaliar a degradação e a recuperação das
áreas.
Como explicou ao Estadão Leandro
Maracahipes, um dos coordenadores do estudo e pesquisador da Universidade Yale
apoiado pelo Instituto Serrapilheira, a hipótese mais radical só se confirmaria
se houvesse a redução das espécies típicas da Amazônia e o aumento das espécies
de savana. E não foi isso o que aconteceu.
Nas bordas da floresta, houve a redução das
espécies típicas da Amazônia e o aumento das espécies generalistas da própria
floresta, que são aquelas árvores com casca fina, madeira leve e raízes
superficiais. No início, o capim até avançou, mas o posterior retorno das
árvores, com suas copas, eliminou a luz de que as gramíneas precisam para
progredir.
O que os pesquisadores constataram é que os
incêndios frequentes causam a perda de biodiversidade e a homogeneização
ecológica, principalmente nas bordas da floresta, mas não a savanização. E, de
positivo, ainda descobriram que a biodiversidade no interior da floresta
permaneceu relativamente estável.
Os resultados, claro, não autorizam
comemorações. Como bem afirmou Maracahipes, “a floresta está se recuperando,
mas, pensando na sua composição, é um processo que ainda vai levar muito mais
tempo”, o que, por óbvio, “é uma mensagem positiva”, mas que exige “cautela”.
Não menos importante, a pesquisa do Ipam é
inovadora. Diferentemente da maioria dos estudos de sensoriamento remoto sobre
o fogo na Amazônia, que usa imagens de satélite para localizar o incêndio ou a
chamada cicatriz deixada pelo fogo na floresta, a recente pesquisa conseguiu
avaliar, no longo prazo, o impacto das queimadas sobre a biodiversidade “no
chão” da floresta.
O estudo não dissipa as preocupações com a
proteção da Amazônia. O Brasil deve seguir seu firme compromisso de combate ao
desmatamento e às queimadas, manter a floresta de pé e promover políticas de
desenvolvimento sustentável na região. Aliás, o País tem um sólido arcabouço
legal de preservação, como o Código Florestal, adota medidas de enfrentamento
do crime na floresta e ainda conta com um agronegócio sustentável e
responsável.
O grande feito da pesquisa do Ipam é restituir
a sensatez. Os cientistas foram atrás das respostas corretas – ou seja, não as
que desejavam encontrar, mas as que a realidade estava disposta a lhes
entregar. Seus achados, portanto, representam o triunfo da ciência sobre os
exageros e as narrativas da militância. Trata-se de uma boa oportunidade para
qualificar o debate ambiental no Brasil, deixando de lado o catastrofismo.
O pré-natal negligenciado
Por O Estado de S. Paulo
Pesquisa diz quem são e onde estão as
mulheres sem atendimento; basta o poder público agir
Uma pesquisa do Centro Internacional de
Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel) feita em
parceria com a Umane, uma organização da sociedade civil com foco em saúde
pública, revelou um quadro nada abonador sobre o pré-natal no Brasil: uma em
cada cinco mulheres não realiza o número mínimo de consultas durante a
gravidez.
A recomendação do Ministério da Saúde hoje é
de que as mulheres passem por sete consultas na gestação. Nesse período, elas
são acolhidas na rede pública, com o atendimento médico, a atenção das equipes
de saúde e a realização de exames e outros procedimentos. Em bom português, as
mulheres e os seus bebês recebem cuidados.
Mas a meta de consultas estabelecida não tem
sido alcançada. O pré-natal até começa bem no Sistema Único de Saúde (SUS), mas
ao longo dos meses a adesão cai: segundo a pesquisa feita com dados públicos do
Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), a cobertura passa de 99%
na primeira consulta para 78% na última.
E, se os dados gerais sobre o pré-natal já
são suficientemente preocupantes, os recortes por cor, idade e região, conforme
apresentados pelo estudo, alarmam ainda mais. Segundo a pesquisa, o índice de
realização da última consulta pré-natal é menor entre as mulheres sem
escolaridade (44%), as indígenas (51%), as moradoras da Região Norte (63%), as
adolescentes (68%) e entre as mulheres pretas e pardas (75%).
Significa dizer que a atenção adequada às
grávidas e aos seus filhos não tem sido oferecida de modo satisfatório no País.
E, para piorar, esse atendimento – ou a falta dele – acentua as profundas
desigualdades que grassam na sociedade brasileira. Isso porque o número de
consultas na atenção pré-natal vai recuando paulatinamente durante a gestação.
A esse processo os especialistas dão o nome
de hipótese da equidade inversa: ou seja, há avanços nas intervenções de saúde
na fase inicial da gestação, mas essas ações se mantêm de forma consistente
apenas entre os grupos sociais mais privilegiados da população.
O efeito de tamanha negligência é perverso.
Se o pré-natal é fundamental para prevenir as mortes maternas e infantis, as
complicações gestacionais, o parto prematuro e o baixo peso do bebê ao nascer,
significa dizer que a persistência das desigualdades está condenando mulheres e
crianças.
Sem exagero nenhum, a depender da formação
escolar, da cor e da região onde vivem, as mulheres e os seus filhos terão mais
ou menos chances de morrer ou de enfrentarem uma vida mais sofrida, com
sequelas de problemas gestacionais que, ao tempo certo, poderiam ter sido
evitadas em razão do pré-natal adequado.
As autoridades sabem quem são e onde vivem as mulheres que precisam de reforço na atenção pré-natal. De posse das evidências e dos dados, ao poder público cabe elaborar e executar boas políticas públicas. Receber um atendimento adequado é um direito de todas as mulheres e de todas as crianças. E buscá-las, encontrá-las e atendê-las, seja lá onde for, é um dever do Estado.
Emagrecendo com segurança
Por Correio Braziliense
A busca pela perda de peso é uma motivação
legítima, mas deve ser feita com responsabilidade
A popularização das canetas emagrecedoras no
Brasil é um fenômeno de duas faces. Por um lado, a chegada desses medicamentos
é vista por especialistas como o início de uma nova era no combate à obesidade
e à diabetes tipo 2. Por outro lado, os problemas derivados desse avanço da
medicina — uso sem orientação médica, descaminho e comércio clandestino, para
citar alguns — exigem uma fiscalização firme e uma atuação esclarecedora das
autoridades regulatórias.
Os medicamentos à base de substâncias como
semaglutida, liraglutida e dulaglutida — capazes de provocar a saciedade e o
controle da glicose no organismo — representam uma ferramenta importante para
um fenômeno avassalador no Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, o
número de adultos com diabetes aumentou 135% entre 2006 e 2024, passando de
5,5% para 12,9% da população. Significa dizer que mais de 16 milhões de
brasileiros entre 15 e 64 anos contêm altas taxas de açúcar no sangue, com
risco de desenvolver graves comorbidades provocadas por essa doença silenciosa.
Ainda segundo o Ministério da Saúde, o Brasil
registrou, no intervalo de 18 anos, um crescimento significativo de outras
condições de risco na população adulta: hipertensão, 31%; obesidade, 118%; e
excesso de peso, 47%. Considerando fatores sociais e econômicos, como estilo de
vida, sedentarismo e má alimentação, está formado um cenário desafiador para as
autoridades sanitárias, a classe médica e a sociedade. É preciso agir
prontamente para impedir que a saúde do brasileiro se deteriore cada vez mais,
com impactos crescentes nos serviços públicos. É nesse contexto que deve ser
compreendida e saudada a vinda de medicamentos como Mounjaro, Ozempic e
similares.
A questão é que o uso desses remédios, com efeitos
visíveis e em alguns casos impressionantes, traz um risco. O sucesso das
canetas emagrecedoras tem provocado uma altíssima demanda na sociedade, e esse
fenômeno se torna uma oportunidade para desvios, golpes e esquemas. São cada
vez mais frequentes operações da Polícia Federal e da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária para coibir o descaminho e o comércio irregular desses
produtos.
Nos aeroportos brasileiros, surgem a cada dia
novas modalidades de flagrantes de passageiros trazendo dezenas de ampolas e
seringas para vender no mercado interno. Há ainda apreensão de carregamentos
ilegais e desmonte de laboratórios clandestinos. Nesse conluio, há a
participação de médicos. Não bastasse a atividade criminosa que veio à
tona em paralelo às canetas emagrecedoras, observa-se outro fenômeno perigoso:
o uso desses remédios por meras razões estéticas, sem o devido acompanhamento
de um profissional de saúde.
Segundo a literatura médica, o tratamento é
indicado para indivíduos com Índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 30, ou
para quem comprovadamente se encontra com diabetes tipo 2, hipertensão e outras
ocorrências. Note-se, portanto, que é fundamental haver um aconselhamento
médico antes de procurar o balcão da farmácia ou um site na internet.
A busca pela perda de peso é uma motivação
legítima, mas deve ser feita com responsabilidade. São conhecidos e demandam
observação rigorosa efeitos adversos como náusea, vômito, diarreia e
constipação intestinal. Mais recentemente, a Anvisa anunciou que investiga o aumento
de casos de pancreatite supostamente relacionados ao uso desses medicamentos —
efeito colateral previsto na bula, ainda que de rara ocorrência.
É inegável que as canetas emagrecedoras, até aqui, têm representado um avanço notável no combate à obesidade e à diabetes 2, problema de saúde pública em escala global. Cabe aos consumidores, contudo, o uso consciente desse tratamento, sob risco de comprometer ainda mais a própria saúde. É fundamental, também, que as autoridades e a classe médica se mantenham atuantes contra criminosos e vigaristas que visam o lucro à custa da vida das pessoas.
Guerra agrava a pobreza no mundo
Por O Povo (CE)
Segundo a ONU, mais de 30 milhões de pessoas
voltarão à pobreza devido aos impactos da guerra no Irã
A guerra que os Estados Unidos e Israel movem
contra o Irã já deixou cerca de três mil mortos somente no território
iraniano, a maioria civis, que nada tinham a ver com o conflito. Entre os
mortos, mais de 200 jornalistas alvejados enquanto trabalhavam. Ao mesmo tempo,
a disputa provocou danos severos na economia mundial, afetando praticamente
todos os países do mundo.
No entanto, é bem possível que ninguém possa
responder ao certo o que motivou o ataque dos Estados Unidos ao território
iraniano, resumindo-se agora a um frágil cessar-fogo que, quando muito, poderá chegar
a uma solução que já existia antes da guerra.
A pergunta, então, é: por que o conflito foi
iniciado? Talvez nem o próprio Trump saiba responder conclusivamente
a essa pergunta, pois suas declarações variam a cada minuto — e os motivos para
a guerra e para o cessar-fogo também. Isso indica que o presidente
norte-americano está sem rumo, o que torna tudo mais perigoso.
Outra tragédia humanitária se
desenrola fora dos campos de batalha. Segundo declarou, nesta quinta-feira, à
agência Reuters, Alexander De Croo, chefe de Desenvolvimento da Organização
das Nações Unidas (ONU), mais de 30 milhões de pessoas voltarão à pobreza
devido aos impactos da guerra do Irã.
"A insegurança alimentar atingirá seu
nível máximo em alguns meses, e não há muito que se possa fazer a
respeito", disse ele, acrescentando outras consequências do confronto,
incluindo falta de energia e a queda do financiamento em programas de ajuda.
Além disso, afirmou De Croo, as necessidades
estão aumentando em locais que já enfrentam emergências graves, como Sudão,
Gaza e Ucrânia. "Teremos que dizer a essas pessoas: sinto muito, mas não
podemos ajudá-las". Elas "serão empurradas para uma vulnerabilidade
ainda maior."
Enquanto isso, segundo divulgou a plataforma
de notícias DW, a guerra no Irã custa US$ 1 bilhão por dia. Como o conflito
dura 57 dias, já foi gasto o valor de R$ 57 bilhões em uma disputa que ninguém
se atreve a dizer quando vai terminar.
Segundo cálculos da Oxfam (2022), ONG que
atua no combate à desigualdade, seriam necessários cerca de US$ 37 bilhões por
ano entre 2022 (data do cálculo) e 2030 para acabar com a fome no mundo.
Portanto, o que já se gastou na guerra, representaria recursos necessários para
dar um primeiro passo para acabar com a fome no mundo.
Esses dados revelam o absurdo da guerra com que os líderes que a iniciam parecem não se importar, principalmente quando faltam justificativas razoáveis para começar um conflito cujas consequências se espalharam por todo o planeta, atingindo principalmente, as pessoas mais vulneráveis.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.