domingo, 26 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crescem riscos do controle de preços dos combustíveis

Por Folha de S. Paulo

Governo Lula quer usar receita adicional com alta do petróleo para compensar desoneração dos derivados

Alguma mitigação do choque gerado pela guerra no Irã faz sentido, mas subsídios custosos não podem se prolongar indefinidamente

Há preocupações eleitorais, sobretudo, na proposta do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de reduzir tributos sobre a gasolina e o etanol com recursos oriundos da arrecadação adicional a ser obtida pela União com as cotações mais altas do petróleo.

Desde o início da guerra no Irã, os preços internacionais dispararam —o barril Brent saltou de cerca de US$ 70 para mais de US$ 100, com picos próximos a US$ 110. Até agora, porém, a alta dos preços da gasolina se limitou a 7,5% aqui, enquanto nos Estados Unidos já se aproxima de 50%.

Há defasagem doméstica evidente, que impede importações e ameaça o abastecimento. O repasse é inevitável, pois, e a proposta do governo, protocolada no Congresso Nacional na forma de projeto de lei complementar, visa minimizar o impacto para o consumidor.

O anúncio foi cercado de confusão. Inicialmente, o Planalto indicou apenas que ocorreria queda nos tributos sobre gasolina, mas logo depois esclareceu que haveria compensações por meio do uso de receitas extraordinárias da União com petróleo.

Vale dizer: os ganhos com royalties, Imposto de Renda e contribuição social sobre o lucro das empresas do setor, dividendos da Petrobras e exportações permitirão reduzir a tributação incidente sobre gasolina, etanol, diesel rodoviário e biodiesel.

O mecanismo prevê decretos a cada dois meses durante a guerra, com cálculo exato da receita extra apurada (a parcela não orçada em 2026). A estimativa do Ibre-FGV é de R$ 95,9 bilhões em arrecadação adicional total em 2026 com o barril a US$ 100 — dos quais R$ 48,62 bilhões cabem à União; o Orçamento deste ano previa cotação bem inferior, próxima a US$ 65.

Medidas anteriores de desoneração para diesel e combustível de aviação já somam mais de R$ 30 bilhões em renúncia fiscal.

Pode até fazer sentido mitigar a volatilidade de preços em cenário de choque externo e adiar ajustes abruptos. Deve-se ter em conta que a legislação e o próprio estatuto da Petrobras vedam que a empresa arque com subsídios, que devem vir do Tesouro.

Entretanto, reduzir impostos sobre combustíveis exige pesar custos e benefícios com rigor. Não é socialmente justo subsidiar por prazo indeterminado o consumo de gasolina e etanol para automóveis —benefício regressivo, que favorece as classes médias e altas— num país com déficit público astronômico.

As receitas extraordinárias do petróleo, resultantes de um choque geopolítico, deveriam ser primordialmente direcionadas ao equilíbrio das contas públicas, não a medidas que evitam o necessário ajuste na demanda e postergam a disciplina fiscal.

O afã de evitar mais danos à popularidade presidencial leva à tentação de prolongar os subsídios, um risco que se materializou em larga escala em 2022, sob Jair Bolsonaro (PL). A herança a ser deixada para a próxima administração tende a piorar.

Rachaduras na moradia social

Por Folha de S. Paulo

Prefeitura de SP falha em garantir acesso da população de baixa renda à política pública habitacional

Unidades de HMP e HIS já representam cerca de 75% do setor; é preciso fechar brechas legais que geram distorções e melhorar fiscalização

Denúncias têm exposto problemas graves na regulação e no monitoramento de unidades de habitação social na cidade de São Paulo.

Em um prédio na região da avenida Paulista, construído com incentivos fiscais para moradia social, funciona um hotel quatro estrelas. Apartamentos que receberam os mesmos benefícios são anunciados na plataforma Airbnb para turistas e visitantes.

Brechas permitem que empresas construam com benefícios destinados a moradias sociais e depois, com o prédio pronto, peçam uma mudança de finalidade para que ele funcione como hotel ou que os apartamentos não tenham as restrições daqueles destinados aos menos abonados: servir apenas como moradia fixa e não poder ser revendido por um determinado período de tempo.

Trata-se de duas categorias de imóveis: Habitação de Interesse Social (HIS), para famílias com renda mensal de até 3 salários mínimos, na faixa 1, ou de 3 a 6 salários mínimos, na faixa 2; e Habitação de Mercado Popular (HMP), de 6 a 10 salários mínimos.

Tais categorias ganharam força na revisão da Lei de Zoneamento de 2016 e foram impulsionadas nas gestões municipais seguintes.

O incentivo se dá por meio de isenções e descontos no pagamento da taxa para construir na cidade (outorga onerosa) e do aumento da área construída em relação ao terreno. Especialistas apontam que há ainda cerca de 16 benefícios disponíveis.

Pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), da Fundação Tide Setubal, estima que, entre 2014 e 2024, a prefeitura deixou de arrecadar R$ 1 bilhão, considerando somente as outorgas onerosas.

Unidades de HMP e HIS já representam cerca de 75% do setor, de acordo com dados do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo —segundo o Cebrap, em 2014, a taxa era de 19%.

Mas o crescimento não foi acompanhado por fiscalização eficiente. A gestão Ricardo Nunes (MDB) afirma ter aberto 934 processos para apurar denúncias de "desvirtuamento" de 159 mil dessas unidades populares.

Em 2025, o Ministério Público pediu a suspensão da política pública. Uma CPI na Câmara Municipal apura, desde 2024, o uso indevido das HIS e HMP.

Urge fechar brechas legais que geram desvios, fortalecer a fiscalização e melhorar as análises antes de conceder os benefícios.

É inaceitável que construtoras lucrem com uma política pública, enquanto a Prefeitura perde arrecadação de taxas e a população de baixa renda fica sem acesso a moradias em regiões centrais.

PECs da escala 6x1 não passam de oportunismo

Por O Globo

Legislativo e Executivo estão unidos ao defender medida nefasta para a economia brasileira

Faltando menos de seis meses para as eleições, Executivo e Legislativo se uniram no oportunismo. Na quarta-feira, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara deu sinal verde a duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que acabam com a escala de seis dias de trabalho por um de descanso, a escala 6x1. A aprovação aconteceu depois que o governo enviou ao Congresso, como forma de pressão, um Projeto de Lei sobre o mesmo tema com pedido de urgência. Com a aprovação da PEC na CCJ, será instaurada Comissão Especial para discutir o tema. Pelos cálculos do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a votação em plenário deverá ocorrer até o fim de maio. O açodamento ditado pelo calendário eleitoral reduz a chance de um debate aprofundado sobre o tema, sem demagogia nem populismo. Mas os deputados precisam medir as consequências. A irresponsabilidade com a questão gerará efeitos econômicos nefastos.

Hoje a lei permite uma jornada de trabalho de até 44 horas semanais, com o limite de oito horas diárias e escala de seis dias trabalhados por um de folga. A PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), estabelece a redução dessa jornada para 36 horas, com cinco dias de trabalho e dois de descanso. Pela PEC 8/25, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), a jornada passaria a ser de 36 horas semanais, com escala de no máximo quatro dias trabalhados. Tudo isso sem redução dos salários. Não é preciso matemática avançada para entender o significado da mudança: mais custo para as empresas, onda de demissões, aumento da informalidade e pressão sobre os preços — ou inflação.

Na visão irrealista e distorcida de seus defensores, porém, o país só teria a ganhar, pois trabalhadores com mais tempo para descansar seriam mais produtivos. De tão ingênua, a premissa chega a ser embaraçosa. A produtividade por hora trabalhada no Brasil se arrasta em ritmo de tartaruga há décadas. Entre 1981 e 2025, avançou pífio 0,6% ao ano — e o cansaço de quem trabalha não está entre as causas principais do indicador sofrível. Outro devaneio é acreditar que o saldo no mercado formal de trabalho seria positivo, com as empresas contratando mais funcionários. Tal previsão não leva em conta o aumento de custos para companhias já operando no limite. Em várias empresas, já vigoram escalas distintas da 6x1. Na prática, a medida atingiria menos de um quarto dos trabalhadores, levando boa parte à informalidade.

Usar como argumento a redução da jornada noutros países é outra falácia. Antes de mudar a legislação, economias avançadas trabalharam muito. Ficaram ricas e produtivas antes de reduzir horas trabalhadas. A redução foi sempre compensada com maior produtividade. Levando isso em conta, no atual nível de desenvolvimento do Brasil, a jornada deveria ser maior, não menor. Estamos na mão contrária de China, Colômbia, África do Sul e Rússia, países onde a população trabalha mais.

Se tomarem a decisão errada, os parlamentares podem desencadear uma sucessão de equívocos para compensar seus efeitos nefastos. Nos corredores do Congresso, já há quem defenda mais medidas estapafúrdias, como isenções tributárias para as empresas que sofrerem com a redução da jornada — proposta absurda mesmo que o país não atravessasse crise fiscal crônica. No atual estágio da economia brasileira, não passa de irresponsabilidade reduzir a jornada de trabalho.

Coibir furto de cabos exige trabalho de inteligência para mapear receptadores

Por O Globo

Crime mais que triplicou no Brasil, e prejuízo quase dobrou. Polícia tem de se concentrar nos ferros-velhos

Tem sido comum nas cidades brasileiras motoristas e pedestres passarem durante a noite por vias às escuras. O que à primeira vista pode parecer problema das empresas de iluminação pública ou concessionárias de energia tem se revelado um caso de polícia. Muitas vezes, apagões são provocados pelo furto de cabos por criminosos que vendem o cobre a ferros-velhos clandestinos, impondo prejuízos a empresas e consumidores. Por integrarem um serviço essencial, os cabos de energia estão por toda parte, em redes aéreas ou subterrâneas. O cidadão que paga impostos, além de ficar no escuro, cedo ou tarde ainda tem de pagar na conta de luz o prejuízo causado pelos ladrões.

O transtorno se agravou nos últimos anos. Entre 2024 e 2025, a quantidade de cabos furtados no Brasil mais que triplicou, de 300 toneladas para 975 toneladas, como mostrou reportagem do Jornal Nacional. O prejuízo de um ano para outro quase dobrou, de R$ 50 milhões para R$ 90 milhões, segundo a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). A prática criminosa se espalha de norte a sul. No Ceará, em 2025, foram furtados cerca de 200 quilômetros de fios, deixando ao menos 450 mil clientes sem luz. Em Santa Catarina, os furtos quase dobraram nos últimos dois anos.

Embora muitas vezes os crimes sejam praticados à luz do dia, em geral eles ocorrem de noite. Além de agirem rapidamente, os ladrões têm usado disfarces. Num vídeo gravado em Laranjeiras, Zona Sul do Rio, dois homens não levam mais do que cinco minutos cronometrados para abrir um bueiro, furtar os cabos e ir embora na maior desfaçatez. Existem registros de falsos funcionários de concessionárias, uniformizados, abrindo buracos na calçada para surrupiar os fios. Há ainda casos em que o gatuno não se preocupa nem com a própria segurança. Em Belo Horizonte, um homem foi filmado se equilibrando no alto de fios ao tentar furtá-los. Em janeiro de 2025, até a Cidade da Polícia, no Rio, ficou às escuras devido ao furto de cabos. Vez por outra, os ladrões se dão mal. No último dia 20, a polícia fluminense apreendeu uma tonelada de cabos de cobre sendo retirados de uma galeria e prendeu oito suspeitos em flagrante em Magé, Região Metropolitana do Rio. Os detidos alegaram ter autorização para fazer o “serviço”, mas a concessionária negou.

Não há sinal de que a voracidade dos ladrões dará trégua. Mas, dado que os bandidos têm lançado mão da criatividade, as autoridades precisam agir com a mesma desenvoltura. Em julho do ano passado, entrou em vigor uma lei aumentando a pena para roubo, furto e receptação de cabos. É boa iniciativa, mas coibir os furtos exige primeiro trabalho de inteligência da polícia. É praticamente impossível monitorar as vias 24 horas por dia, apesar da profusão de câmeras de segurança públicas e privadas. Sabe-se, contudo, que os cabos são vendidos a ferros-velhos. Se não houvesse mercado, o furto não se justificaria. Por isso, é nos grandes receptadores que a polícia deve concentrar esforços. Precisa mapeá-los, prendê-los e desbaratar seus negócios.

Lula 4 será Dilma ao quadrado

Por O Estado de S. Paulo

Lula diz que já foi austero até demais, e o PT, a julgar por seu programa, quer pedalar aceleradamente rumo a mais gastos e subsídios – e seu corolário: mais dívida, impostos e juros

Em Barcelona, num fórum progressista, o presidente e eterno candidato Luiz Inácio Lula da Silva lamentou que a esquerda tenha “sucumbido à ortodoxia” e sido obrigada a governar com “austeridade”. O diagnóstico ecoa o programa elaborado no último congresso do PT, que volta a enxovalhar o “neoliberalismo” e promete turbinar o Estado como motor da economia.

O País acumula mais de uma década de déficits primários. A dívida bruta saltou de cerca de 52% do PIB em 2013 para algo próximo de 86% nas projeções para 2027. O arcabouço fiscal, vendido como âncora, multiplica exceções que somam dezenas de bilhões de reais e tolera metas fictícias. Ano sim, ano também, o governo promete superávits e entrega déficits. Eis a ideia de “austeridade” do PT.

A escalada de gastos estimula a demanda num ambiente de oferta limitada, pressiona a inflação e obriga o Banco Central a manter juros elevados. O efeito se propaga: crédito caro, investimento retraído e crescimento medíocre viciado em estímulos. Em 2026, estimativas de mercado indicam que quase metade da expansão do PIB pode vir de injeções fiscais e parafiscais. O que o governo vende como “prosperidade” é só poder de compra adiantado a juros escorchantes.

Longe de rediscutir essa mecânica, o PT quer robustecê-la. Fala em “Estado indutor”, expansão de crédito público, políticas industriais e uso estratégico de estatais. Na prática, esse Estado não induz produtividade. Induz apenas dependência, clientelismo e captura. O “planejamento” se resume à distribuição política de crédito. Não há novidade na bolha populista: expansão artificial da demanda sem ganho real de produtividade.

Entre 2011 e 2016, a aplicação mais ambiciosa dessa agenda produziu inflação desancorada, perda de confiança e uma retração acumulada do PIB superior a 7%. A Presidência de Dilma Rousseff não foi nenhum desvio. Foi só a expressão mais voluntariosa dessas ideias. A diferença é que nos primeiros governos petistas ainda havia algum colchão externo. Hoje, ele desapareceu.

O superciclo de commodities, que permitiu a Lula nutrir a ilusão de que sabe como fazer o País crescer, não se repete. A despesa obrigatória cresce no piloto automático, enquanto as renúncias fiscais se aproximam de 5% do PIB. Com juros elevados, o setor público precisaria gerar superávits robustos apenas para estabilizar a dívida – algo distante do horizonte.

Ainda assim, o lulopetismo recicla seu combo de mistificações: rebatiza gasto corrente como “investimento”, culpa terceiros pelos efeitos da própria política e trata limites fiscais como imposições ideológicas. Essa narrativa excita suas claques, mas não altera a aritmética. O mercado não inventa a dívida, apenas cobra o preço de financiá-la a um governo que combate os juros com a política que os produz.

O vício de origem é que o lulopetismo trata a política econômica como tecnologia de sustentação política. Crescimento, investimento e disciplina fiscal são contingentes. Quando exigem limites, viram “neoliberalismo”, “austeridade” ou “fetiche dos mercados”. Enquanto o programa petista dá tintas ideológicas a uma engenharia macroeconômica abstrata, o País real opera no crédito rotativo.

Cerca de 80% das famílias estão endividadas e uma parcela relevante já não consegue honrar compromissos. O PIB pode avançar morosamente, mas o orçamento doméstico está sob pressão. Estatísticas bem selecionadas não conseguem eliminar a distância entre as narrativas fabricadas no Planalto e a experiência no chão duro da economia familiar.

Lula se queixa de ter vencido com um discurso e sido forçado a governar com outro. A história eleitoral do PT mostra o oposto: quando radicaliza, perde; quando modera, vence. A “Carta ao Povo Brasileiro” foi condição de viabilidade. Agora, porém, já não quer sequer preservar as aparências. O programa do PT promete flexibilizar ainda mais as regras fiscais e ampliar a intervenção estatal – a começar pelo Banco Central. O País já testou esse modelo, conhece seus efeitos, sabe quanto custou. Repeti-lo seria masoquismo. Os marqueteiros lulopetistas podem dourar a pílula, mas a conta chega, na forma de dívida, impostos, juros e ausência de futuro.

Amazônia está longe da ‘savanização’

Por O Estado de S. Paulo

Novo estudo questiona advertência de catastrofistas sobre a modificação radical da floresta. Não se pode baixar a guarda, mas é preciso qualificar o debate ambiental

Uma pesquisa publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) trouxe uma má e uma boa notícia sobre a Amazônia: embora as queimadas degradem parte das características da floresta, o bioma está longe de caminhar para a “savanização”, como denunciavam ambientalistas.

Há anos ganham força previsões apocalípticas para a maior floresta tropical do planeta, como um suposto “ponto de não retorno”, segundo o qual a densidade da vegetação da Amazônia cederia lugar às gramíneas, como o capim. Para testar essa hipótese, pesquisadores americanos e brasileiros saíram a campo.

Em 2004, com o desmatamento e as queimadas em alta, cientistas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) iniciaram os trabalhos: eles identificaram um problema, delimitaram o objeto, lançaram suas perguntas e foram em busca das respostas.

O objetivo era simples: descobrir se o bioma amazônico se recuperaria e manteria as características de floresta ou se viraria uma savana, conforme alardeado por alguns modelos climáticos. E, para isso, os cientistas analisaram queimadas controladas em áreas de floresta da Estação de Pesquisa Tanguro, em Querência (MT).

O estudo foi realizado em três parcelas de floresta: uma de “controle”, que não sofreu queimada experimental; uma que foi alvo do fogo anualmente, de 2004 a 2010; e uma parcela que foi incendiada a cada três anos, em 2004, 2007 e 2010. A partir daí, o fogo foi interrompido para que os pesquisadores pudessem avaliar a degradação e a recuperação das áreas.

Como explicou ao Estadão Leandro Maracahipes, um dos coordenadores do estudo e pesquisador da Universidade Yale apoiado pelo Instituto Serrapilheira, a hipótese mais radical só se confirmaria se houvesse a redução das espécies típicas da Amazônia e o aumento das espécies de savana. E não foi isso o que aconteceu.

Nas bordas da floresta, houve a redução das espécies típicas da Amazônia e o aumento das espécies generalistas da própria floresta, que são aquelas árvores com casca fina, madeira leve e raízes superficiais. No início, o capim até avançou, mas o posterior retorno das árvores, com suas copas, eliminou a luz de que as gramíneas precisam para progredir.

O que os pesquisadores constataram é que os incêndios frequentes causam a perda de biodiversidade e a homogeneização ecológica, principalmente nas bordas da floresta, mas não a savanização. E, de positivo, ainda descobriram que a biodiversidade no interior da floresta permaneceu relativamente estável.

Os resultados, claro, não autorizam comemorações. Como bem afirmou Maracahipes, “a floresta está se recuperando, mas, pensando na sua composição, é um processo que ainda vai levar muito mais tempo”, o que, por óbvio, “é uma mensagem positiva”, mas que exige “cautela”.

Não menos importante, a pesquisa do Ipam é inovadora. Diferentemente da maioria dos estudos de sensoriamento remoto sobre o fogo na Amazônia, que usa imagens de satélite para localizar o incêndio ou a chamada cicatriz deixada pelo fogo na floresta, a recente pesquisa conseguiu avaliar, no longo prazo, o impacto das queimadas sobre a biodiversidade “no chão” da floresta.

O estudo não dissipa as preocupações com a proteção da Amazônia. O Brasil deve seguir seu firme compromisso de combate ao desmatamento e às queimadas, manter a floresta de pé e promover políticas de desenvolvimento sustentável na região. Aliás, o País tem um sólido arcabouço legal de preservação, como o Código Florestal, adota medidas de enfrentamento do crime na floresta e ainda conta com um agronegócio sustentável e responsável.

O grande feito da pesquisa do Ipam é restituir a sensatez. Os cientistas foram atrás das respostas corretas – ou seja, não as que desejavam encontrar, mas as que a realidade estava disposta a lhes entregar. Seus achados, portanto, representam o triunfo da ciência sobre os exageros e as narrativas da militância. Trata-se de uma boa oportunidade para qualificar o debate ambiental no Brasil, deixando de lado o catastrofismo.

O pré-natal negligenciado

Por O Estado de S. Paulo

Pesquisa diz quem são e onde estão as mulheres sem atendimento; basta o poder público agir

Uma pesquisa do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel) feita em parceria com a Umane, uma organização da sociedade civil com foco em saúde pública, revelou um quadro nada abonador sobre o pré-natal no Brasil: uma em cada cinco mulheres não realiza o número mínimo de consultas durante a gravidez.

A recomendação do Ministério da Saúde hoje é de que as mulheres passem por sete consultas na gestação. Nesse período, elas são acolhidas na rede pública, com o atendimento médico, a atenção das equipes de saúde e a realização de exames e outros procedimentos. Em bom português, as mulheres e os seus bebês recebem cuidados.

Mas a meta de consultas estabelecida não tem sido alcançada. O pré-natal até começa bem no Sistema Único de Saúde (SUS), mas ao longo dos meses a adesão cai: segundo a pesquisa feita com dados públicos do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), a cobertura passa de 99% na primeira consulta para 78% na última.

E, se os dados gerais sobre o pré-natal já são suficientemente preocupantes, os recortes por cor, idade e região, conforme apresentados pelo estudo, alarmam ainda mais. Segundo a pesquisa, o índice de realização da última consulta pré-natal é menor entre as mulheres sem escolaridade (44%), as indígenas (51%), as moradoras da Região Norte (63%), as adolescentes (68%) e entre as mulheres pretas e pardas (75%).

Significa dizer que a atenção adequada às grávidas e aos seus filhos não tem sido oferecida de modo satisfatório no País. E, para piorar, esse atendimento – ou a falta dele – acentua as profundas desigualdades que grassam na sociedade brasileira. Isso porque o número de consultas na atenção pré-natal vai recuando paulatinamente durante a gestação.

A esse processo os especialistas dão o nome de hipótese da equidade inversa: ou seja, há avanços nas intervenções de saúde na fase inicial da gestação, mas essas ações se mantêm de forma consistente apenas entre os grupos sociais mais privilegiados da população.

O efeito de tamanha negligência é perverso. Se o pré-natal é fundamental para prevenir as mortes maternas e infantis, as complicações gestacionais, o parto prematuro e o baixo peso do bebê ao nascer, significa dizer que a persistência das desigualdades está condenando mulheres e crianças.

Sem exagero nenhum, a depender da formação escolar, da cor e da região onde vivem, as mulheres e os seus filhos terão mais ou menos chances de morrer ou de enfrentarem uma vida mais sofrida, com sequelas de problemas gestacionais que, ao tempo certo, poderiam ter sido evitadas em razão do pré-natal adequado.

As autoridades sabem quem são e onde vivem as mulheres que precisam de reforço na atenção pré-natal. De posse das evidências e dos dados, ao poder público cabe elaborar e executar boas políticas públicas. Receber um atendimento adequado é um direito de todas as mulheres e de todas as crianças. E buscá-las, encontrá-las e atendê-las, seja lá onde for, é um dever do Estado.

Emagrecendo com segurança

Por Correio Braziliense

A busca pela perda de peso é uma motivação legítima, mas deve ser feita com responsabilidade

A popularização das canetas emagrecedoras no Brasil é um fenômeno de duas faces. Por um lado, a chegada desses medicamentos é vista por especialistas como o início de uma nova era no combate à obesidade e à diabetes tipo 2. Por outro lado, os problemas derivados desse avanço da medicina — uso sem orientação médica, descaminho e comércio clandestino, para citar alguns — exigem uma fiscalização firme e uma atuação esclarecedora das autoridades regulatórias.

Os medicamentos à base de substâncias como semaglutida, liraglutida e dulaglutida — capazes de provocar a saciedade e o controle da glicose no organismo — representam uma ferramenta importante para um fenômeno avassalador no Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de adultos com diabetes aumentou 135% entre 2006 e 2024, passando de 5,5% para 12,9% da população. Significa dizer que mais de 16 milhões de brasileiros entre 15 e 64 anos contêm altas taxas de açúcar no sangue, com risco de desenvolver graves comorbidades provocadas por essa doença silenciosa.

Ainda segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou, no intervalo de 18 anos, um crescimento significativo de outras condições de risco na população adulta: hipertensão, 31%; obesidade, 118%; e excesso de peso, 47%. Considerando fatores sociais e econômicos, como estilo de vida, sedentarismo e má alimentação, está formado um cenário desafiador para as autoridades sanitárias, a classe médica e a sociedade. É preciso agir prontamente para impedir que a saúde do brasileiro se deteriore cada vez mais, com impactos crescentes nos serviços públicos. É nesse contexto que deve ser compreendida e saudada a vinda de medicamentos como Mounjaro, Ozempic e similares.

A questão é que o uso desses remédios, com efeitos visíveis e em alguns casos impressionantes, traz um risco. O sucesso das canetas emagrecedoras tem provocado uma altíssima demanda na sociedade, e esse fenômeno se torna uma oportunidade para desvios, golpes e esquemas. São cada vez mais frequentes operações da Polícia Federal e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para coibir o descaminho e o comércio irregular desses produtos.

Nos aeroportos brasileiros, surgem a cada dia novas modalidades de flagrantes de passageiros trazendo dezenas de ampolas e seringas para vender no mercado interno. Há ainda apreensão de carregamentos ilegais e desmonte de laboratórios clandestinos. Nesse conluio, há a participação de médicos. Não bastasse a atividade criminosa que veio à tona em paralelo às canetas emagrecedoras, observa-se outro fenômeno perigoso: o uso desses remédios por meras razões estéticas, sem o devido acompanhamento de um profissional de saúde.

Segundo a literatura médica, o tratamento é indicado para indivíduos com Índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 30, ou para quem comprovadamente se encontra com diabetes tipo 2, hipertensão e outras ocorrências. Note-se, portanto, que é fundamental haver um aconselhamento médico antes de procurar o balcão da farmácia ou um site na internet.

A busca pela perda de peso é uma motivação legítima, mas deve ser feita com responsabilidade. São conhecidos e demandam observação rigorosa efeitos adversos como náusea, vômito, diarreia e constipação intestinal. Mais recentemente, a Anvisa anunciou que investiga o aumento de casos de pancreatite supostamente relacionados ao uso desses medicamentos — efeito colateral previsto na bula, ainda que de rara ocorrência.

É inegável que as canetas emagrecedoras, até aqui, têm representado um avanço notável no combate à obesidade e à diabetes 2, problema de saúde pública em escala global. Cabe aos consumidores, contudo, o uso consciente desse tratamento, sob risco de comprometer ainda mais a própria saúde. É fundamental, também, que as autoridades e a classe médica se mantenham atuantes contra criminosos e vigaristas que visam o lucro à custa da vida das pessoas.

Guerra agrava a pobreza no mundo

Por O Povo (CE)

Segundo a ONU, mais de 30 milhões de pessoas voltarão à pobreza devido aos impactos da guerra no Irã

A guerra que os Estados Unidos e Israel movem contra o Irã já deixou cerca de três mil mortos somente no território iraniano, a maioria civis, que nada tinham a ver com o conflito. Entre os mortos, mais de 200 jornalistas alvejados enquanto trabalhavam. Ao mesmo tempo, a disputa provocou danos severos na economia mundial, afetando praticamente todos os países do mundo.

No entanto, é bem possível que ninguém possa responder ao certo o que motivou o ataque dos Estados Unidos ao território iraniano, resumindo-se agora a um frágil cessar-fogo que, quando muito, poderá chegar a uma solução que já existia antes da guerra.

A pergunta, então, é: por que o conflito foi iniciado? Talvez nem o próprio Trump saiba responder conclusivamente a essa pergunta, pois suas declarações variam a cada minuto — e os motivos para a guerra e para o cessar-fogo também. Isso indica que o presidente norte-americano está sem rumo, o que torna tudo mais perigoso.

Outra tragédia humanitária se desenrola fora dos campos de batalha. Segundo declarou, nesta quinta-feira, à agência Reuters, Alexander De Croo, chefe de Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 30 milhões de pessoas voltarão à pobreza devido aos impactos da guerra do Irã.

"A insegurança alimentar atingirá seu nível máximo em alguns meses, e não há muito que se possa fazer a respeito", disse ele, acrescentando outras consequências do confronto, incluindo falta de energia e a queda do financiamento em programas de ajuda.

Além disso, afirmou De Croo, as necessidades estão aumentando em locais que já enfrentam emergências graves, como Sudão, Gaza e Ucrânia. "Teremos que dizer a essas pessoas: sinto muito, mas não podemos ajudá-las". Elas "serão empurradas para uma vulnerabilidade ainda maior."

Enquanto isso, segundo divulgou a plataforma de notícias DW, a guerra no Irã custa US$ 1 bilhão por dia. Como o conflito dura 57 dias, já foi gasto o valor de R$ 57 bilhões em uma disputa que ninguém se atreve a dizer quando vai terminar.

Segundo cálculos da Oxfam (2022), ONG que atua no combate à desigualdade, seriam necessários cerca de US$ 37 bilhões por ano entre 2022 (data do cálculo) e 2030 para acabar com a fome no mundo. Portanto, o que já se gastou na guerra, representaria recursos necessários para dar um primeiro passo para acabar com a fome no mundo.

Esses dados revelam o absurdo da guerra com que os líderes que a iniciam parecem não se importar, principalmente quando faltam justificativas razoáveis para começar um conflito cujas consequências se espalharam por todo o planeta, atingindo principalmente, as pessoas mais vulneráveis.

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