Master mostrou fragilidades a corrigir no BC e na CVM
Por Folha de S. Paulo
Banco Central detectou indícios de corrupção,
e Comissão mal aparelhada falhou no controle de fundos
É preciso endurecer regulação e promover ação
conjunta das duas instituições; BC alocou 40 novos servidores na área de
fiscalização
O escândalo do Banco Master revelou,
de forma dramática, a
obsolescência do arcabouço regulatório do sistema financeiro brasileiro.
Sob a guarda conjunta da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central, o conglomerado de Daniel Vorcaro montou um sofisticado esquema de pirâmide que se sustentou por anos, explorando brechas normativas, falhas de fiscalização e fragilidades institucionais.
As captações agressivas de recursos por meio
de plataformas digitais, lastreadas no Fundo Garantidor de Créditos (FGC),
foram apenas a ponta de lança de uma vasta teia de fraudes.
O caso envolveu uma rede de 216 fundos de
investimento e 143 empresas interligadas, com patrimônio inicial mapeado em R$
102,4 bilhões. Ativos de baixa liquidez circulavam entre fundos, com avaliações
irrealistas.
A CVM, responsável pela fiscalização dos
fundos, falhou de forma evidente, pois movimentações atípicas eram detectadas
desde 2022. A facilidade com que dezenas dessas entidades trocavam ativos
superfaturados deveria ter acendido alertas.
O BC tampouco saiu ileso. Investigação
interna identificou indícios graves de corrupção —dirigentes
de fiscalização e supervisão bancária cooptados pelo controlador do Master. O uso
temerário do FGC como estratégia de captação —prometendo
retornos acima do mercado com garantia de terceiros— transferiu riscos à
sociedade.
Ficaram expostos ainda pontos cegos na
regulação de bancos pequenos, fintechs e estruturas não bancárias como fundos
de investimento em direitos creditórios (FIDCs).
Em parte, o episódio só foi possível porque
tanto BC quanto CVM operaram enfraquecidos: o primeiro perdeu quadros
experientes em fiscalização, enquanto a segunda enfrentou déficit crônico de
pessoal e diretoria incompleta, além de indicações controversas para a cúpula.
Debates recentes no Congresso
Nacional e relatórios de CPIs, como a do Crime Organizado,
destacam a necessidade de maior complementaridade entre as autarquias.
No âmbito bancário, avanços pontuais são
bem-vindos, mas insuficientes. O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou, por
exemplo, mudanças no FGC que exigem ativos de maior qualidade para captações
garantidas.
No entanto, o crescimento explosivo de
fintechs e estruturas de crédito paralelas ainda ameaça a estabilidade
financeira. Cabem exigências mais rigorosas de capital, governança e liquidez.
O BC também alocou 40 novos servidores (25%
dos concursados de janeiro) na área de fiscalização, com foco em supervisão
bancária e conduta, e revisa seu plano de integridade, incluindo rodízio de
chefias.
Endurecer a regulação, fortalecer quadros
técnicos e garantir comunicação fluida e clara divisão de responsabilidades
entre BC e CVM são condições para restaurar a confiança no sistema.
Não é papel da AGU regular informação
Por Folha de S. Paulo
Órgão expande seu raio de ação, como mostra a
notificação para remoção de postagens sobre projeto de lei
Regular opiniões sobre os Poderes e seus
agentes definitivamente não é função da AGU, órgão responsável por representar
a União na Justiça
Uma certa Procuradoria Nacional de Defesa da
Democracia (PNDD), estrutura interna da Advocacia-Geral da União, enviou
notificação para a rede social X pedindo a exclusão ou a rotulagem de dez
postagens que faziam referência ao projeto de lei destinado a punir a misoginia
—aprovado pelo Senado em
março e tramitando na Câmara dos
Deputados.
A AGU alega
que as postagens atribuíram ao texto aprovado trechos de outro projeto, o que
"ataca a integridade do processo legislativo e confunde a opinião pública
sobre uma política pública relevante".
De fato, algumas postagens confundiram as
duas propostas; outras fizeram referência àquela não aprovada no Senado para
criticar o ímpeto legislativo que busca criminalizar a misoginia.
Trata-se de controvérsia política e jurídica
legítima, com as distorções, os enganos e os exageros que fazem parte do debate
público nas democracias liberais.
A função da AGU é representar a União
judicial e extrajudicialmente, além de prestar consultoria jurídica ao Poder
Executivo.
Regular opiniões sobre os Poderes e seus
agentes definitivamente não faz parte desse escopo. Mas isso
mudou com a criação da PNDD no primeiro dia do governo Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT).
O "enfrentamento à desinformação sobre políticas públicas" é uma de
suas atribuições, o que expande de modo temerário o raio de ação da AGU.
As notificações extrajudiciais se
fortaleceram com a
reinterpretação do artigo 19 do Marco Civil
da Internet (2014), em 2025, pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Antes, plataformas só seriam
responsabilizadas por conteúdos de terceiros se não cumprissem ordens judiciais
—exceto em casos que não precisam de ordens, como nudez não consentida.
Mas a própria decisão da corte deixa claro
que a punição só se dará no caso de desobediência a notificações extrajudiciais
relativas a conteúdos criminosos ou ilícitos, o que não parece ser o caso do
debate, ainda que equivocado, sobre um projeto de lei.
A expansão da polarização
político-ideológica, de populismos e das redes sociais na última década tem
gerado uma discussão global sobre regulações que visem conter possíveis efeitos
nefastos desse ecossistema digital.
No Brasil, qualquer mudança nesse sentido tem
de se dar no Congresso
Nacional, com amplo debate e sob bases técnicas, o que não se viu no
Projeto das Fake News, felizmente
engavetado em 2024.
A AGU não deveria se imiscuir no monitoramento de conteúdo online, ainda mais com as atribuições tão vagas da PNDD.
Endividamento reflete incúria fiscal do
governo
Por O Globo
Comprometimento da renda familiar com
pagamento de dívidas atingiu recorde, segundo dados do BC
O preço do desarranjo fiscal cevado pelo
governo federal — responsável pela manutenção dos juros brasileiros em
patamares elevadíssimos sob qualquer parâmetro — tem sido cobrado dos a cada
dia mais endividados domicílios brasileiros. O comprometimento de renda das
famílias com o pagamento de dívidas subiu para 29,7% em fevereiro, de acordo
com dados divulgados pelo Banco Central (BC) nesta segunda-feira. É um recorde
na série histórica iniciada em 2005. O endividamento total, em 49,9% da renda,
também é inédito e mais que o dobro do registrado em 2006.
O comprometimento é calculado a partir do
valor médio estimado para o pagamento de juros e parcelas das dívidas e da
renda total das famílias, descontando impostos e contribuições. No
endividamento, o BC leva em conta o saldo das dívidas e a renda acumulada em 12
meses, também sem considerar tributos. Análises de consultorias e bancos
anteriores à divulgação do BC já apontavam a mesma direção. Sobra cada vez
menos dinheiro no fim do mês nos domicílios brasileiros. “Vemos um aumento
muito expressivo do quanto o pagamento do crédito está comendo a renda”, disse
ao jornal Valor Econômico Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de macroeconomia
e análise setorial da Tendências.
A deterioração tem sido avassaladora. Mesmo
com o aumento do preço de alimentos no domicílio tendo crescido em ritmo
inferior à inflação em 2025 (1,43% ante 4,26%), as finanças domésticas têm
sofrido aperto. Com a taxa de juros nas alturas, cria-se um círculo vicioso.
Primeiro, a inadimplência começa a aumentar. Em fevereiro, a média nas
operações de crédito bancário atingiu 4,4%, máxima da série histórica. De lá
para cá, houve queda, mas ínfima.
Com a inadimplência em alta, surge o segundo
efeito: os bancos ficam mais exigentes para conceder empréstimos. Nem o aumento
do emprego com carteira assinada, nem a elevação da renda média, nem nenhuma
outra estatística favorável serve de consolo à política de crédito mais
restritiva. Em apuros, muitas famílias acabam apelando para linhas
emergenciais, que praticam taxas de juros ainda mais altas, estimulando a
inadimplência — e o círculo se fecha.
A poucos meses da eleição, o governo fala num
novo programa para renegociar dívidas. Não passa de medida eleitoreira. Se
estivesse disposto a resolver o problema de modo duradouro, enfrentaria o
desequilíbrio fiscal. Em nome do crescimento econômico acelerado, mas de curta
duração, a torneira do gasto e do crédito fácil sempre jorrou, ajudando a
aquecer a demanda e pressionando a inflação para cima. Não adianta olhar para o
BC em busca de bode expiatório. Com um governo gastão, a autoridade monetária
não tem alternativa senão aumentar o custo do dinheiro para controlar a
inflação. Sem resgatar a credibilidade fiscal, todo o resto será paliativo.
Minha Casa, Minha Vida se converteu em mera
vitrine eleitoral do governo
Por O Globo
Ao ser expandido, programa perdeu foco no
público mais necessitado e não consegue conter expansão de favelas
As moradias precárias e favelas estão à vista
de todos os habitantes das grandes cidades brasileiras. Mas as soluções não
deveriam ser contaminadas por objetivos políticos, como infelizmente vem
acontecendo no governo Luiz Inácio Lula da
Silva. O programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) se converteu em mera vitrine
eleitoral. Reciclado de outras gestões petistas, foi incrementado não só com
mais recursos, mas também com maior abrangência. O governo elevou o valor do
imóvel e o limite de renda exigido para acessar o crédito mais barato em todas
as faixas. Financiando casas de até R$ 600 mil para famílias com rendimento de
até R$ 13 mil, o programa passa a atender a parcela da classe média que Lula
tenta conquistar em meio a sucessivas quedas de popularidade. Para este ano, o
orçamento atingirá patamar recorde: R$ 200 bilhões. A meta é alcançar 3 milhões
de unidades contratadas entre 2023 e 2026.
Entre 2023 e 2025, os contratos de
financiamento do MCMV registraram alta de 45%. Deslancharam especialmente no
Norte e Nordeste (84% e 63%, respectivamente). Quando o programa foi
reformulado em 2023, o governo estabeleceu condições mais favoráveis aos beneficiários
dessas regiões. É verdade que são as mais pobres do país, mas são também
conhecidos redutos eleitorais de Lula. Não por acaso, as entregas de unidades
deverão ter protagonismo na campanha à reeleição. Como mostrou reportagem do
GLOBO, nos próximos dias Lula participará de eventos ao lado de candidatos
regionais para entrega de chaves.
A despeito de contemplar carências concretas
da população brasileira, o MCMV sempre foi um programa com problemas. A
qualidade das construções é questionável, a localização dos empreendimentos
costuma privilegiar obras novas em áreas distantes dos centros urbanos, com
infraestrutura deficiente de serviços e transportes, em vez de revitalizar
áreas centrais com reformas de imóveis antigos. Criam-se outros problemas para
os cidadãos, obrigados a enfrentar maratonas para chegar ao trabalho. Projetos
em regiões centrais até existem, mas são ainda escassos e incipientes.
A falta de foco é outra distorção. Ao estender o programa à classe média, o governo se afasta do objetivo de atender a população mais carente, que necessita de moradia e não tem como se encaixar nas regras do mercado. A prioridade obviamente deveria ser o contingente de renda mais baixa. Ao ignorar isso, o governo reproduz o erro de políticas habitacionais malsucedidas do passado. Apesar do crescimento alardeado pelo governo, o MCMV não tem conseguido conter a expansão de favelas. Entre 1985 e 2024, a área ocupada por comunidades em condições habitacionais precárias praticamente triplicou no Brasil, segundo levantamento do MapBiomas. Certamente não é por escolha que um cidadão permanece morando em encostas sujeitas a deslizamentos, em áreas sem saneamento básico e frequentemente sob domínio de facções criminosas. É porque o maior programa habitacional do governo continua sem oferecer opção.
Lula puxa briga com Trump
Por O Estado de S. Paulo
Aturdido com o fastio do eleitorado, Lula
cruza o Atlântico para se acoelhar no ‘último refúgio dos canalhas’ – o
patriotismo – e provocar Washington. Mas quem sairá escoriado é o Brasil
O tour do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela Europa e a crise diplomática
fabricada com a polícia dos EUA, longe de serem episódios desconexos, são
táticas de uma mesma estratégia: a instrumentalização da política externa a
serviço da campanha eleitoral. O presidente fala ao mundo, mas seu alvo é o
eleitor brasileiro.
Lula elevou reiteradamente o tom contra
Donald Trump – disse que ele não é “imperador do mundo”, ridicularizou sua
atuação internacional, antagonizou-o como uma ameaça à democracia. Não se trata
de divergências legítimas e legitimamente conduzidas entre Estados, mas de um
embate personalizado, empacotado em linguagem de palanque. Nem líderes de
potências rivais, como Xi Jinping, Vladimir Putin ou Kim Jong-un, adotam com
tanta frequência e impudência essa retórica performática. Ao fazê-lo, o Brasil
não afirma sua soberania – ao contrário, só a compromete.
O próprio Lula admitiu em entrevista que uma
intervenção de Trump no Brasil lhe renderia dividendos. A parolagem patrioteira
funciona como eixo de mobilização num cenário adverso. Mesmo raspando os cofres
públicos, Lula não consegue resgatar sua popularidade. Diante disso, recorre a
artifícios prosaicos da caixinha de ferramentas dos demagogos: incitar um
antagonista externo e convertê-lo em ativo eleitoral.
O que se viu na Europa foi um teatro
miniaturizado da diplomacia lulopetista: fóruns ideologicamente alinhados,
platitudes humanitárias, conjurações de espantalhos (o “fascismo”, o
“neoliberalismo”, os super-ricos), indignação seletiva e conivência com
tiranias de esquerda e rigor com democracias à direita, além de conclamações a
intervenções estatais, como nas redes sociais, sob pretextos vaporosos – a
“soberania”, a “democracia”, as “crianças”. A diplomacia, que deveria ser
instrumento de Estado, é reduzida a megafone para a promoção pessoal de Lula.
O imbróglio em torno de Alexandre Ramagem,
foragido nos EUA, revela o custo dessa retórica quando transborda para a
prática. O ex-deputado bolsonarista foi detido pela imigração e, depois,
liberado. Autoridades alegaram que Marcelo Ivo de Carvalho, o delegado da
Polícia Federal responsável pela cooperação brasileira nos EUA, teria
contornado canais formais da imigração e o descredenciaram. O episódio é marcado
por versões conflitantes e contornos ambíguos. Justamente por isso, o momento
exigia prudência. O governo a mandou às favas.
Antes da apuração dos fatos, o presidente
ameaçou retaliar, o Itamaraty chancelou a escalada e a Polícia Federal bloqueou
as credenciais de um agente americano alegando “reciprocidade”. Mas
reciprocidade pressupõe equivalência. Carvalho é acusado de ilicitudes; o
agente americano não. A acusação pode até se provar injusta. Mas, sem
comprovação, dissolve-se o alicerce técnico da reciprocidade. Resta a
represália.
Um canal sensível de cooperação institucional
foi subvertido em instrumento de embate político. Relações entre agências
construídas ao longo de décadas foram sujeitadas à lógica da sinalização
midiática. A técnica cede lugar à coreografia do confronto. O interesse
nacional, que deveria nortear a política externa, é subordinado a cálculos
marqueteiros.
O Brasil mantém com os EUA uma relação
estratégica de mais de dois séculos, sustentada por interesses comerciais,
institucionais e de segurança. Preservá-la – ainda mais diante de um presidente
notoriamente volátil – exige mais do que “química”. É preciso discrição,
consistência, senso de proporção, canais abertos e azeitados.
Em vez de resguardar o Brasil das
turbulências externas, o presidente se apressa em crispá-las como combustível
eleitoral. A “soberania” que Lula invoca não se traduz em estratégia, mas em
slogan. A diplomacia é abastardada para servir à vanglória do demiurgo. Lula
usa vitrines internacionais para comprar aplausos lá e votos aqui – e repassa a
fatura à sociedade brasileira.
Em suas pantomimas pacifistas, Lula
recriminou a guerra contra o Irã como “irresponsável” e “inconsequente”. Não é
preciso entrar no mérito para notar que descrevia com precisão involuntária sua
própria atuação: inconsequente e irresponsável é sua guerrilha contra Trump.
Inação ante os supersalários
Por O Estado de S. Paulo
Congresso mantém parado desde 2023 projeto
que limita abusos no serviço público, enquanto avança com rapidez em propostas
que ampliam benefícios e revela resistência a enfrentar privilégios
O Estadão mostrou
em reportagem recente que integrantes da Polícia Militar do Distrito Federal
receberam cerca de R$ 40 milhões em penduricalhos, notícia que deveria ter
produzido mais do que apenas perplexidade. Os dados são eloquentes: contracheques
que chegaram a R$ 832 mil em um único mês, inflados por verbas classificadas
como indenizatórias e que fazem mofa do teto constitucional. Não se trata de
interpretação, mas de evidência de um sistema em que a exceção se tornou
rotina.
Diante disso, seria razoável esperar que o
Congresso Nacional priorizasse a regulamentação dos supersalários. Não é o que
ocorre. O projeto de lei sobre o tema deu entrada há dez anos e segue parado no
Senado desde 2023, à espera de relatório do senador Eduardo Gomes (PL-TO), sem
perspectiva concreta de avanço. A demora já não pode ser confundida com
prudência. Prudente seria impedir que o teto constitucional continue a ser
contornado por expedientes laterais.
Sob a presidência de Davi Alcolumbre
(União-AP) e na Comissão de Constituição e Justiça, comandada por Otto Alencar
(PSD-BA), a proposta acumula pó. Não por falta de diagnóstico, mas por ausência
de iniciativa. Há silêncios que dizem muito. Neste caso, indicam que limitar
privilégios não ocupa, no Senado, o mesmo espaço reservado a pautas mais
convenientes.
O contraste ajuda a esclarecer. No mesmo
Congresso, propostas voltadas à ampliação de benefícios avançam com rapidez. No
ano passado, o projeto que cria um fundo no Ministério Público, com previsão de
uso de recursos inclusive de emendas parlamentares para custeá-lo, percorreu a
Câmara e chegou a ser pautado no plenário do Senado no fim do ano, com
relatório pronto do senador Weverton (PDT-MA), ainda que não tenha sido votado.
Não é falta de tempo, mas de prioridade política para enfrentar distorções já
consolidadas.
A diferença de tratamento é evidente. Quando
se trata de ampliar vantagens, há fluidez. Quando se trata de impor limites,
instala-se uma cautela que, na prática, paralisa. O Congresso, tantas vezes
capaz de atravessar madrugadas por urgências discutíveis, mostra-se aqui
admiravelmente paciente.
O caso da PM do DF apenas torna mais visível
um mecanismo conhecido. Supersalários não decorrem de episódios isolados, mas
de um sistema que permite, por meio de adicionais e indenizações, a superação
recorrente do teto constitucional. A regra permanece no texto; sua eficácia,
porém, depende da classificação contábil das verbas.
Tentativas recentes de enfrentamento
concentraram-se em segmentos específicos, sobretudo no Judiciário. São avanços
parciais. Ao evitar uma abordagem abrangente, o Congresso preserva um modelo em
que o teto é formalmente respeitado, mas materialmente contornável. O resultado
é uma desigualdade difícil de justificar num Estado que cobra ajuste fiscal da
sociedade e tolera remunerações sem razoabilidade.
O projeto parado no Senado oferece a
oportunidade de enfrentar essa distorção de forma mais ampla, ao definir com
maior precisão quais verbas podem ser excluídas do teto e ao incluir carreiras
diversas, como as militares. Sua estagnação, portanto, não é neutra: mantém as
condições que permitem a repetição desses episódios.
Há, ainda, instrumentos mais abrangentes
igualmente disponíveis e igualmente sem avanço. A reforma administrativa em
discussão no Congresso prevê limites mais claros para remunerações no serviço
público e enfrenta diretamente os supersalários, mas encontra resistência
política e não sai do lugar, mesmo com apoio relevante a medidas específicas
como o fim dos pagamentos acima do teto.
Não falta diagnóstico. Não faltam exemplos.
Falta decisão. Cabe ao Congresso dar andamento a um tema que não sai do
noticiário, por razões óbvias. Colocar esses projetos à deliberação é um passo
elementar.
Manter os projetos parados é uma escolha. E
seus efeitos são claros: preserva-se um regime em que o limite constitucional
vale menos do que as brechas que o contornam. Se há disposição para criar
benefícios, deve haver coragem para limitar abusos.
O STF não é poder constituinte
Por O Estado de S. Paulo
Tribunal reescreve a Constituição ao derrubar
decisão legítima do Legislativo de SC sobre cotas
A Assembleia Legislativa de Santa Catarina
aprovou uma lei vedando cotas raciais para o ingresso de estudantes ou
contratação de profissionais em universidades estaduais e instituições
beneficiárias de verbas estaduais. O Supremo Tribunal Federal (STF) a declarou
inconstitucional, e o fez por rara unanimidade, como se fosse matéria
incontroversa. Não é. A Constituição, na melhor das hipóteses, permite as cotas
raciais, mas de modo algum as exige.
Democracias desenvolvidas admitem ações
afirmativas, mas em geral vedam cotas, por entenderem que substituem a
avaliação individual por pertencimento a grupos e tensionam princípios como a
igualdade perante a lei. Nesse sentido, o modelo brasileiro é exceção, não
regra. De todo modo, o mérito das cotas é secundário. O que está em jogo é o
direito de uma sociedade decidir sobre políticas públicas.
Há argumentos sólidos para advogar que
reservas raciais ferem pilares constitucionais como o da igualdade (art. 5.º),
vedação a discriminações (artigos 3.º e 19.º) e isonomia no acesso à educação
(art. 206). Apesar disso, o Supremo pacificou a jurisprudência segundo a qual
as cotas são constitucionais. Mas daí segue-se uma lógica elementar: o fato de
que a Constituição não as proíba não quer dizer que as exija. Em sua
interpretação expansiva, o STF extrapolou mais uma vez sua função de guardião da
Constituição e, na prática, deslocou do ordenamento jurídico o “pode haver
cotas” para “deve haver cotas”.
O relator, ministro Gilmar Mendes, apoiou-se
basicamente em dois argumentos. O primeiro é o de que o legislador teria
partido de uma “premissa” incompatível com a jurisprudência do tribunal. No
entanto, o controle de constitucionalidade não incide sobre intenções
atribuídas ao legislador, só sobre o conteúdo da lei. Julgar “premissas” é
abrir caminho para invalidar leis por divergência política travestida de
técnica jurídica.
O segundo argumento foi o da fragilidade do
processo legislativo – tramitação breve, ausência de audiências públicas, falta
de estudos. Mas a Constituição não exige um ideal de deliberação, apenas o
cumprimento de regras formais, como o respeito a quórum, ritos ou prazos. Se o
Judiciário passa a avaliar a qualidade do processo parlamentar, e não apenas
sua legalidade, qualquer lei se torna passível de invalidação por não
satisfazer critérios subjetivos de suposta razoabilidade institucional.
O impacto dessa lógica extrapola Santa
Catarina. Ao restringir a margem de escolha de um Estado em matéria
educacional, o STF esvazia o federalismo e uniformiza decisões que deveriam
refletir realidades locais. Mais grave: reduz o espaço legítimo de disputa
política.
O povo de Santa Catarina, por meio de seus representantes eleitos, pode ter tomado uma decisão ruim. Isso é discutível. O que não é discutível é seu direito de decidir. No caso, o que importa é que a sua decisão é absolutamente legítima e constitucional. Ao derrubá-la, a Corte não consagrou a Constituição, só a ambição de seus ministros de fazer do STF um poder constituinte.
Crescem comprometimento de renda e dívida das
famílias
Por Valor Econômico
Há vários motivos para o descontrole com as
despesas, da baixa educação financeira à elevada informalidade e aos baixos
salários
As famílias bateram recorde na década no
endividamento e no comprometimento da renda. A inadimplência das pessoas
físicas caiu ligeiramente para 7% em março, mas continua muito elevada e com
tendência a piorar. A incapacidade de cumprir obrigações financeiras levou
5.931 empresas a pedirem recuperação judicial no trimestre, um aumento de 22%
na comparação com o mesmo período de 2025, segundo dados do Monitor da RGF
& Associados (Valor, ontem). Cerca de R$ 500 bilhões de empréstimos não
estão com pagamento regularizado se considerados os saldos de crédito para
pessoas jurídicas e físicas em março.
O endividamento de empresas e consumidores em
relação ao PIB não é alto no Brasil. No caso das famílias, ele atinge 38% do
PIB, cerca de 15 pontos percentuais abaixo de outros países emergentes. Mas não
causa espanto o aumento da inadimplência diante da taxa de expansão dos
empréstimos, que ultrapassa dois dígitos em muitas modalidades em um ambiente
muito adverso a dívidas: as maiores taxas de juros reais em 20 anos.
Segundo dados do Banco Central divulgados
ontem, as concessões de novos empréstimos para pessoas jurídicas avançaram
24,6% em março e 7,5% em 12 meses com recursos livres (com taxas livremente
pactuadas). As destinadas às pessoas físicas cresceram 15,1% no mês e 10,4% em
um ano. No total das concessões livres, houve queda de 5,7% no trimestre, mas
alta de 19,4% em março e 9,1% em 12 meses. São números de assunção de créditos
compatíveis com um ambiente de juros reais baixos em uma economia equilibrada,
o contrário do que ocorre.
“O deslocamento do crédito em direção à
pessoa física, concentrado em modalidades mais onerosas, ajuda a explicar o
aparente descolamento entre indicadores macroeconômicos favoráveis e a
percepção de desconforto financeiro”, afirmam Lauro Gonzalez, Rafael Schiozer e
Matheus Carrij, do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira
(FGVcemif), em estudo no qual indicam que o índice criado para medir esse
“desconforto” está perto da máxima histórica, ocorrida na pandemia (Valor,
24-4).
Há vários motivos para o descontrole com as
despesas, da baixa educação financeira à elevada informalidade e aos baixos
salários. O crescimento real da renda e um mercado de trabalho em que trocar de
emprego ainda é relativamente fácil podem ter dado confiança suficiente aos
consumidores para realizarem novas dívidas, mas a realidade é cruel.
Deflacionados pelo índice de preços dos alimentos, os salários hoje não são
maiores que antes da pandemia, segundo estudos do FGV Ibre. Os juros, por outro
lado dispararam.
As taxas de juros seriam de espantar qualquer
cliente sensato que pudesse adiar despesas e comprimir gastos. O cheque
especial cobrava 137,9% ao ano em março, com saldo de R$ 48,3 bilhões
emprestados. A inadimplência nessa linha é a segunda mais alta das modalidades
de empréstimo a pessoas físicas: 16,1%. A primeira delas, a do crédito rotativo
do cartão de crédito, equivale ao suicídio financeiro: 428,3%, com um índice de
calote de 61%, isto é, praticamente dois a cada três contemplados com esse
crédito não conseguem pagá-los. O saldo desses empréstimos atingiu R$ 87
bilhões na linha em março. O crédito parcelado do cartão, se comparado, tem
juros até camaradas, de 192,1%, com inadimplência de 12,6%.
O crédito pessoal não consignado (sem
garantia de desconto nos salários) custava 117,1%, com 8,9% de calote e R$ 398
bilhões de saldos. A modalidade que mais cresce recentemente é a do crédito
consignado para trabalhadores privados, cujo saldo mais que dobrou em um ano,
saltando de R$ 42 bilhões para R$ 101,6 bilhões em março. A taxa de juros era
de 56,8%. Na média, o crédito livre às pessoas físicas foi de 61,5%.
Com encargos financeiros tão pesados, o
endividamento das famílias chegou a 49,9% em março, e o comprometimento da
renda (excluindo financiamento imobiliário), a 29,7%. Ainda que a inadimplência
atinja muito mais os de menor faixa de renda, que gastam dois terços de suas
rendas com alimentação, ela atinge com força boa parte da classe média.
Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio indicou que em dezembro, 12,8%
das pessoas com salário acima de dez mínimos (R$ 15.180, na época) já
comprometiam mais da metade da renda com pagamento de dívidas. A fatia do total
de endividados na mesma situação era um pouco maior, de 18,8% (Valor,
29-12-2025).
O presidente Lula incentivou o crédito o quanto pôde, para “movimentar a economia”, que já se movia a um ritmo acima de seu potencial. Para combater a inflação, o BC elevou os juros reais a 10%, aumentando a dívida pública, sob crescente desconfiança quanto a seu ritmo de expansão, e criou um recorde de devedores na economia. Era mais ou menos óbvio que isso ocorreria se o crédito se expandisse rapidamente em situação tão adversa, como ocorreu. Um novo programa de refinanciamento de dívidas é um paliativo, como foi o primeiro. Ajudar o BC a cortar as taxas extravagantes, com política fiscal austera, seria uma solução, que o governo ignora.
PNE não pode ser plano para tapar buracos
Por Correio Braziliense
O cumprimento integral do PNE só se torna
realidade quando ele deixa de ser entendido como uma política isolada e passa a
ser conduzido de forma intersetorial
Em meio ao período de instabilidade política
e institucional que preocupa o país —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
sancionou lei sobre tema que também exige vigilância: o novo Plano Nacional de
Educação (PNE). Trata-se do conjunto de diretrizes, estratégias e metas que vão
guiar a educação brasileira — da creche à pós-graduação — pelos próximos 10
anos. Por si só, um projeto hercúleo. Ainda mais desafiante porque substitui
uma versão marcada pelo não cumprimento de tudo o que foi proposto.
A divergência de narrativas também contamina
a análise do PNE antigo. Enquanto o Ministério da Educação (MEC) calcula um
alcance superior a 76%, levantamento produzido pela Consultoria Legislativa da
Câmara dos Deputados em 2025 mostra que 61% do que foi estabelecido ficou no
papel. Certo mesmo é que os dois balanços são ruins. Considerando que a
educação é um dos principais caminhos de redução de desigualdades e motor
estratégico para o desenvolvimento de um país, não há de se minimizar falhas.
A expectativa é de que os novos mecanismos
voltados ao monitoramento e à coordenação federativa permitam um desfecho
melhor do PNE em vigência. Nesse sentido, especialistas percebem como avanços a
projeção de metas para estados e municípios e a fiscalização periódica do
plano. A partir de agora, a checagem do cumprimento das metas se dará a cada
dois anos. Até então, se dava ao fim da validade da lei federal.
Gestores terão, dessa forma, de regularmente
compartilhar os avanços e justificar retrocessos e estagnações, o que pode
fortalecer mecanismos de responsabilização e investimentos na área. O
percentual atual de dinheiro dedicado à educação é equivalente a 5,5% do PIB; o
novo PNE estipula que chegue a 7% até o sexto ano de vigência — ou seja, em
2033, véspera de ano eleitoral — e a 10% em 2036. Ainda que cumprida, a meta se
tornará realidade com mais de uma década de atraso, já que tal patamar foi
previsto no PNE aprovado em 2014.
Ao Correio, Brenda Prata, especialista da
Fundação Ayrton Senna, chama atenção para a qualidade dos futuros gastos em
educação, sobretudo em função da grande disparidade entre as redes e da
recorrente falha na conexão entre investimento e aprendizagem. "Há
municípios com políticas estruturadas e outros sem capacidade técnica mínima,
bem como desigualdades estruturais de raça, território, gênero e modalidades
específicas, como educação indígena e do campo",
detalha.
Sob essa ótica, o cumprimento integral do PNE só se torna realidade quando deixa de ser entendido como uma política isolada e passa a ser conduzido de forma intersetorial. Condições de saúde, violência de gênero e urbana e até a crise climática são alguns dos fatores que interferem da ida à escola às condições das experiências vivenciadas nela. Incrivelmente, também costumam estar fora dos radares de secretários de Educação e outros gestores públicos — os mesmos que decidem por cortes na pasta em momentos de crise orçamentária. A conta não fecha, e o fracasso é boletim infalível. Enquanto a educação não fizer parte das prioridades nacionais, os PNEs serão políticas para tapar buracos.
Faltam relevância e transparência nas emendas
O Povo (CE)
Estudo do Movimento Orçamento Bem Gasto,
divulgado pelo Jornal Nacional na sexta-feira, mostra baixa relevância e
transparência nas emendas parlamentares individuais. Essas verbas são indicadas
por deputados federais e senadores, normalmente destinadas a alguma obra
específica em suas bases eleitorais, porém o estudo constatou que a aplicação
dinheiro não atendia a um plano mais geral nem se conectava às prioridades
estabelecidas no Orçamento.
O fato de faltar transparência e o
entendimento de que esses recursos pulverizados dificultam as ações do
Executivo e resultam em baixo impacto positivo nas áreas atendidas não é
novidade, inclusive pela forma fragmentada como esses recursos são utilizados.
O caso foi ao Supremo Tribunal Federal (STF),
como arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF 854), sob a
relatoria do ministro Flávio Dino, que determinou ao Poder Executivo a
preparação de um plano de trabalho para aprimorar a transparência e a
rastreabilidade das emendas, ainda em andamento.
Levantamento realizado pelo Orçamento Bem
Gasto mostra, por meio de pesquisa, o que sempre foi mencionado por
especialistas e mesmo parlamentares que se contrapõem ao alto valor destinado
às emendas, dificultando o planejamento governamental.
A pesquisa avaliou se as emendas individuais
podem ajudar a reduzir desigualdades e se são transparentes e rastreáveis, ou
seja, se permitem o acompanhamento do uso do dinheiro público. No levantamento,
foram utilizados dois critérios: relevância e transparência. Além disso, a
verificação de onde o dinheiro é utilizado, quem vai ser beneficiado e se há
coordenação entre o Congresso Nacional e políticas públicas estruturadas. O
levantamento indicou vários problemas.
Ao Jornal Nacional, Marcelo Issa, coordenador
do Movimento Orçamento Bem Gasto, considerou "muito surpreendente"
que nenhuma emenda tenha atendido aos requisitos para ser classificada como
boa, tanto de impacto quanto de transparência. "Vale destacar que as
variáveis utilizadas para mensurar o impacto das emendas buscam analisar se
essa emenda é capaz efetivamente de diminuir desigualdades e se atende às
necessidades de quem mais precisa. Verificar que nenhuma delas atendeu aos dois
critérios de relevância e transparência é realmente lamentável", disse.
Fica cada vez mais difícil ao Congresso Nacional justificar o motivo que leva à aprovação de um Orçamento que destina R$ 61 bilhões às emendas parlamentares, representando 25% das despesas discricionárias do governo. Na questão das emendas, o Brasil mantém uma situação sem paralelo no mundo, que nada beneficia o País, mas serve de adubo eleitoral para muitos parlamentares.

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