domingo, 5 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Duvidar de eleições é golpismo de Flávio Bolsonaro

Por Folha de S. Paulo

Filho do ex-presidente mostrou mais uma vez que bolsonarismo moderado é um oxímoro

Nos Estados Unidos, declarou que a disputa presidencial deste ano só será justa se os votos levarem a sua vitória; direita populista degrada debate

Em maio de 2022, durante as tentativas do então presidente Jair Bolsonaro (PL) de desacreditar as eleições brasileiras por meio de ataques às urnas eletrônicas e outras teorias conspiratórias vazias, a Folha registrou neste espaço:

"[Jair Bolsonaro] atiça os ânimos de alguns poucos dispostos a participar de seus ensaios golpistas, que alternam intimidações e recuos enquanto se mantém elevado o risco de derrota em outubro. Trata-se de uma ofensiva estúpida contra uma valiosa conquista nacional e, ao fim e ao cabo, contra todos os eleitores e eleitos do país".

O peelista não somente perdeu o pleito daquele ano para o petista Luiz Inácio Lula da Silva como acabou condenado e, inelegível, cumpre prisão domiciliar por, entre outros crimes, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito.

O fato de o jornal voltar ao tema da lisura das eleições brasileiras reforça a indigência do debate público advinda da ascensão da direita populista com Donald Trump, em 2016, e, no Brasil, com Bolsonaro, dois anos depois.

Mas o faz provocado por discurso de outro Bolsonaro, o primogênito Flávio, na extremista Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), nos Estados Unidos.

Nele, o atual pré-candidato do PL, que aparece tecnicamente empatado com Lula no Datafolha, mostrou mais uma vez que "bolsonarismo moderado" é um oxímoro ao elencar um rol de ameaças e bobagens, entre elas a de que o petista só venceu o último pleito com auxílio do Supremo Tribunal Federal e interferência e auxílio financeiro do então presidente democrata, Joe Biden.

Segundo o senador pelo Rio, ele será o escolhido desde que haja "eleições livres e justas": "Se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós venceremos".

Flávio Bolsonaro pede ainda que os EUA "monitorem a liberdade de expressão" do povo brasileiro e "apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem corretamente".

Desde 1989, o Brasil tem tido eleições diretas para presidente, todas elas livres e justas. Há quase 40 anos, os votos são contados de modo correto, principalmente depois da adoção da urna eletrônica, em 1996, uma conquista brasileira que ainda hoje serve de modelo mundial.

O pré-candidato de ultradireita deveria deixar de perseguir fantasmas e tratar de explicar aspectos nebulosos de seu passado —como as rachadinhas e as ligações perigosas com milicianos— e dirimir preocupações concretas sobre seu futuro —e o do país, caso venha a ser eleito.

Poderia começar esclarecendo o que quis dizer, em entrevista à Folha no ano passado, quando falou de "possibilidade e de uso da força", se o STF derrubar um hipotético indulto a seu pai. E apresentar propostas para um país que iniciará 2027 com uma necessidade inadiável de ajuste fiscal.

Popularidade de Milei descola da economia

Por Folha de S. Paulo

Desaprovação do presidente argentino bate recorde, apesar das quedas nas taxas de inflação e de pobreza

Dada a redução da inflação de 211,4% em 2023 para taxa anualizada de 33,1% em fevereiro, a desaprovação de 61,6% a Milei parece inusitada

Os argentinos dão motivos para Javier Milei preocupar-se desde já com as próximas eleições presidenciais, que serão realizadas em outubro de 2027. Com sua desaprovação por 61,6% da população, conforme pesquisa de março do instituto AtlasIntel, o mandatário vê-se politicamente fragilizado enquanto ainda tem missões a cumprir na seara econômica.

Trata-se da maior taxa de impopularidade do presidente argentino desde que chegou ao poder, em dezembro de 2023, e de alta de 6,3 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, de fevereiro. Seu governo igualmente alcançou um recorde na avaliação como "muito ruim", de 57,4%.

Para uma gestão que entregou aos argentinos —por meio de reformas ortodoxas apoiadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e endossadas pelo Congresso da Nação— uma queda da inflação de 211,4% em 2023 para uma taxa acumulada de 33,1% nos 12 meses encerrados em fevereiro, tal corrosão da imagem de Milei parece inusitada.

A estranheza se acentua em face do recuo da população em situação de pobreza, de 41,7% no segundo semestre de 2023 para 28,2% em igual período do ano passado, conforme os dados do instituto oficial de estatísticas.

O cenário sugere desalinhamento entre a percepção popular e os números —o Produto Interno Bruto cresceu 4,4% em 2025, após dois anos de queda.

Se a situação econômica está ruim para 65% dos argentinos, na opinião de 57% ela ainda vai piorar nos próximos seis meses, segundo o AtlasIntel. A inflação continua a ser um dos principais problemas do país para 35,3%.

A reforma trabalhista de Milei, recentemente freada pela Justiça do Trabalho, pode ter repercutido na resposta de 74% dos entrevistados que consideraram grave a situação atual do mercado de trabalho. As mudanças provocaram elogios do FMI, ao concluir a avaliação da Argentina na última quinta-feira (2). Mas também vieram cobranças.

O Fundo, credor de US$ 41,8 bilhões, reforçou a necessidade de Milei mitigar os efeitos sociais de suas reformas e concluir o plano de estabilização, desregulação e abertura econômica.

Milei, que recebeu herança desastrosa do populismo peronista, muito fará pelos argentinos se vier a entregar a economia algo estabilizada ao final de seu mandato, sua principal promessa aos eleitores em 2023. Mesmo que isso não resulte na melhoria de popularidade e na manutenção do seu posto em 2027, os sacrifícios da sociedade durante o período não terão sido em vão.

Desafio fiscal deve ser prioridade no próximo governo

Por O Globo

Dívida pública beira os 80% do PIB, mas é possível reduzi-la quase 7 pontos com plano de austeridade

O governo que tomar posse em janeiro de 2027, seja qual for, terá pela frente o desafio de promover um ajuste fiscal. A dívida pública cresceu de forma galopante desde 2023 e chegou a 79,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em fevereiro. Se nada for feito e a trajetória seguir esse rumo, não haverá espaço para a queda de juros. Famílias continuarão a separar fatia cada vez maior da renda para pagar empréstimos, empresas terão mais problemas de caixa, e o crescimento econômico sofrerá. É insustentável a postura fiscalmente irresponsável adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fecha os olhos às consequências nefastas do aumento de gasto público e crê na fábula de que o céu é o limite para a dívida pública. Mas o problema tem solução.

Em artigo recém-publicado, os economistas Mario Mesquita, Pedro Schneider e Thales Guimarães traçam um plano para um governo disposto a encará-lo. “Ajustes rápidos tendem a gerar credibilidade imediata. Reduzem prêmio de risco, juros e pressões inflacionárias”, afirmam no artigo. “A concentração inicial do esforço também reduz a ‘fadiga de reformas’, comum em planos longos sujeitos a ciclos políticos.”

Com base na experiência internacional, eles concluem que os ajustes fiscais baseados em cortes de despesas são mais eficazes, pois, de forma simultânea, corrigem o desequilíbrio e reduzem a necessidade de pagar mais juros. De acordo com estudo do Banco Mundial que avaliou 108 experiências entre 1980 e 2023, 83% dos ajustes com corte de gastos estabilizaram a dívida, ante apenas 49% dos planos baseados no aumento de receita. Diante disso, não surpreende o fracasso do arcabouço fiscal criado pelo atual governo em 2023.

No plano exposto por Mesquita e colegas, o país poderia chegar a 2036 com redução da dívida pública ao redor de 6,8 pontos percentuais do PIB. Uma combinação de medidas de impacto rápido e reformas graduais daria credibilidade duradoura ao plano. No item redução de gastos, o destaque da proposta é desindexar o salário mínimo dos benefícios da Previdência. Na vasta maioria dos países, o aumento salarial para quem está na ativa não está vinculado a correções na aposentadoria. No Brasil, esse vínculo é um catalisador de gastos. Cada real de aumento no mínimo eleva as despesas da Previdência em centenas de milhões.

Outra medida crucial é desvincular as despesas com saúde e educação do aumento da arrecadação. As duas áreas são essenciais, mas há muito a ganhar em termos de eficiência, sem aumentar o gasto. A inflexibilidade do Orçamento gera vários custos sociais. Quanto às reformas, os autores consideram mais urgente a previdenciária. É preciso, dizem, aumentar a idade mínima de aposentadoria e acabar com regras diferentes concedidas a mulheres e trabalhadores rurais, além de reformar a Previdência dos militares. Regras flexíveis e listas de exceções também deveriam acabar.

Medidas de menor impacto, mas igualmente necessárias incluem reavaliação de subsídios e programas sociais, restrição dos supersalários e redução das emendas parlamentares. O caminho para estabilizar a dívida pública e inverter sua trajetória é conhecido. Basta o eleito no fim do ano ter a coragem de encarar o problema.

Aquecimento global será agravado pela guerra no Oriente Médio

Por O Globo

Com alta do gás natural, países voltam a depender do carvão — mais poluente — para gerar energia

A guerra no Oriente Médio tem mais uma consequência indesejada, decorrente do impacto nos mercados de energia: contribui para agravar o aquecimento global. O fechamento do Estreito de Ormuz, com aumento no preço do petróleo, reduz a confiabilidade no fornecimento de insumos vitais para a geração de energia. Com isso, diversos países têm voltado a acionar suas usinas termelétricas a carvão, como noticiou a agência Bloomberg. As emissões das térmicas a carvão são as mais nocivas para a atmosfera entre todas as formas de geração de energia.

Ainda que a guerra chegue ao fim logo, é previsível que economias dependentes de gás natural do Oriente Médio revejam seu planejamento estratégico para substituir essa fonte de energia por outra de fornecimento mais confiável. O primeiro alerta soou há pouco mais de quatro anos, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e cortou o fornecimento de gás à Europa. Alemanha, França e outros países passaram a importar gás natural liquefeito (GNL), sobretudo dos Estados Unidos, mas também do Catar, que divide com o Irã a exploração do maior campo de gás do planeta. Apenas esse campo torna o Irã dono da segunda maior reserva de gás natural do mundo, atrás somente da Rússia — o Catar fica em terceiro lugar.

Em sua estratégia de aumentar o custo da guerra para o mundo e pressionar os Estados Unidos, o Irã atacou a estrutura de processamento e exportação de gás natural de Ras Laffan, no campo catari de North Dome. Israel, em contrapartida, bombardeou o campo iraniano vizinho, de South Pars. O reparo de ambos levará muito tempo.

Desde 2015, a capacidade de geração a carvão caiu 45% na Europa. Houve avanço no uso de fontes renováveis, mas elas ainda não conseguem suprir a demanda. A alta do GNL incentiva sua substituição pelo carvão. Diante desse quadro, Holanda, Polônia e República Tcheca deverão voltar a usar termelétricas a carvão. Usinas que a Alemanha desativou deverão ser reativadas. Países europeus poderão gerar cerca de 20% mais energia elétrica no próximo verão a partir do carvão, ante 2025, segundo análise do London Stock Exchange Group. A crise interromperá a tendência global de redução das térmicas a carvão.

A geopolítica do carvão costuma ser mais estável que a do gás natural. Sua geografia é mais diversificada. A Rússia, sob sanções, é grande produtora, assim como Austrália, Indonésia, África do Sul e Estados Unidos. Em contraste, grandes reservas de petróleo e gás ficam no instável Oriente Médio. É essencial que a crise não leve os governos a desistir da transição energética. A volta ao carvão mineral exigirá esforço redobrado na ampliação do uso de fontes limpas de energia e na mitigação das emissões em todos os demais setores. O desafio ambiental aumentou.

Sem segurança, não há crescimento

Por O Estado de S. Paulo

Estudo da FGV mostra que cidades que reduziram a violência registraram aumento na criação de empregos e abertura de empresas, isto é, segurança é essencial para a prosperidade

Como detentor do monopólio da violência, o Estado existe, antes de tudo, para proteger a vida e o patrimônio dos cidadãos. Mas políticas de segurança pública extrapolam a dimensão individual. Ser seguro é fator determinante para que qualquer país prospere do ponto de vista econômico. Ignorar esse fato implica negligenciar um dos principais entraves ao desenvolvimento do Brasil.

Um estudo recente da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV Eaesp), publicado pelo Valor, reforçou as evidências dessa relação. A pesquisa cruzou dados da Relação Anual de Informações Sociais de mais de 2 mil municípios de oito Estados, entre 2002 e 2019, comparando períodos anteriores e posteriores à implementação de políticas de segurança nas localidades analisadas e entre estas e cidades onde não foram adotadas tais medidas. Resultado: cidades mais seguras registraram aumento entre 7% e 10% tanto na oferta de empregos formais como na abertura de empresas.

Segundo o pesquisador Bruno Pantaleão, políticas públicas baseadas em gestão de dados, uso coordenado de informações criminais e focalização de recursos para reduzir os indicadores de violência levaram à melhora do ambiente de negócios. “Foram, provavelmente, as políticas de segurança pública mais bem-sucedidas nos últimos 30 anos” que levaram a esse resultado, afirmou ao referido jornal.

Não se trata de uma constatação difícil de entender. A violência, sobretudo nas grandes cidades do País, afeta o cotidiano dos cidadãos. Altera rotas. Restringe horários. Limita a circulação. Influencia decisões de compra. Esse clima de medo também perturba as empresas, que refreiam investimentos. Empreendedores hesitam em abrir negócios. Trabalhadores evitam regiões mais violentas. Mais bem dito: a sensação de insegurança corrói o dinamismo econômico de uma cidade, de um Estado, do País.

Os custos dessa realidade são expressivos e há tempos conhecidos. Numa entrevista ao Estadão em 2024, a executiva Maria Silvia Bastos Marques já alertava para o risco de o Brasil “cruzar o ponto de não retorno na violência” e deixar de ser atrativo para investidores. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2022, empresas instaladas aqui gastaram cerca de R$ 171 bilhões por ano com segurança privada e seguros, o equivalente a 1,7% do PIB daquele ano. A cifra é alarmante por si só, mas representa uma parte do problema. Há outras perdas menos mensuráveis, mas igualmente terríveis. Além da citada fuga de investimentos, há queda do comércio, desvalorização imobiliária e até processos de desindustrialização em áreas dominadas pelo crime organizado.

O economista Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, já observou neste jornal que imóveis em regiões inseguras podem valer até 30% menos do que propriedades equivalentes em locais mais protegidos. Mas não é apenas o patrimônio individual que se deteriora diante da falta de segurança pública. É o vigor econômico das cidades e, consequentemente, do País que se esvai.

Romper esse ciclo pernicioso exige políticas públicas eficazes e duradouras, baseadas em evidências, como sugere o estudo do FGV Eaesp. A própria experiência nacional mostra que avanços são possíveis quando a segurança pública é tratada com planejamento, inteligência e espírito público, não com ideologia ou retórica belicosa.

Esse tema tem importância capital em 2026. Recente pesquisa Datafolha revelou que o medo da violência é o segundo problema mais grave para os brasileiros, citado por 19% dos entrevistados, atrás apenas da saúde (21%). Num ano de eleições gerais, é imperativo que o debate público incorpore essa angústia dos cidadãos, com óbvias repercussões no ambiente de negócios.

Segurança pública não pode ser tratada apenas como questão de polícia. Trata-se também de política econômica. Um país que não provê segurança é fatalmente hostil ao empreendedorismo, ao investimento e à geração de emprego e renda. Isso tem de estar na agenda dos que almejam a Presidência da República.

Combater a violência é primordialmente salvar a vida de milhares de brasileiros. Mas é também criar condições para que o País prospere economicamente e os cidadãos vivam mais e melhor.

A antirreforma administrativa do STF

Por O Estado de S. Paulo

Ministros não esconderam que fazem parte do problema: além de manter os penduricalhos, recriaram o adicional por tempo de serviço. Eis o receituário contra uma reforma do RH do Estado

A recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de traçar um limite aos chamados penduricalhos, em vez de sepultá-los, vai reverberar por muito tempo na estrutura do Estado brasileiro. Isso porque os ministros da mais alta instância do Poder Judiciário não só fizeram um puxadinho no teto constitucional, como também decidiram recriar um privilégio que fora extinto havia mais de 20 anos, ampliando a remuneração dos magistrados e membros do Ministério Público (MP) de R$ 46,4 mil para até R$ 78,8 mil por mês. Assim, ergueram um teto premium para seus colegas de toga e ainda garantiram mais um benefício: eis o receituário de uma antirreforma administrativa.

O STF não escondeu que faz parte do problema ao ressuscitar o Adicional por Tempo de Serviço (ATS). Era um benefício devido ao funcionalismo público até 2006, que consistia no aumento salarial de 5% a cada cinco anos de trabalho. O benefício tinha o apelido de quinquênio e a sua incorporação ao contracheque do servidor era automática – ou seja, não por mérito, mas por antiguidade, o que é, por óbvio, contraproducente. Os ministros repaginaram a gratificação, chamada agora de “parcela de valorização por tempo na carreira”. Mas as regras são as mesmas: em 35 anos de carreira, todos os magistrados chegarão a 35% de aumento progressivo.

O milagre da multiplicação da remuneração só foi possível porque os ministros do Supremo, sem a legitimidade de um mandato eletivo conferido pelo voto popular, decidiram fixar regras de transição para o pagamento de verbas indenizatórias no limite de 35% sobre o salário, além de criarem a pomposa parcela de valorização por tempo na carreira. E até que a Câmara dos Deputados e o Senado editem uma lei sobre o assunto, são essas regras de transição que estão valendo. Em bom português, o Supremo ignorou, e não interpretou, o artigo 37, inciso XI, da Constituição, que estabelece o teto, ao mesmo tempo que distribuiu um reajuste salarial de até 70%. É ativismo judicial.

E, apesar da decisão generosa em favor da magistratura e do MP, o STF não agradou os seus pares. Isso ocorre porque os juízes, promotores e procuradores já vinham ganhando bem acima do novo teto: não raro, mais de R$ 200 mil por mês. Inconformada, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) afirmou que a decisão causa perplexidade, haja vista que a medida trará prejuízo a cerca de 18 mil magistrados do País. É embaraçoso, sobretudo em se tratando da elite do funcionalismo. Já a Corregedoria-Geral da Justiça do Trabalho chegou a enviar ofícios aos seus 24 tribunais cobrando explicações sobre relatos de suspensão de expedientes em varas, sem motivação aparente, no dia seguinte à sessão do Supremo. Como se vê, parece que os togados estão inquietos.

Os juízes, assim como os membros do MP, não estão sozinhos na insatisfação. As chamadas carreiras de Estado também estão alvoroçadas, não por acharem escandaloso o novo teto com o qual os colegas foram agraciados, mas porque também querem ser beneficiadas com tamanho privilégio. Auditores, fiscais, diplomatas, delegados da Polícia Federal e servidores do Poder Legislativo já reivindicam o seu adicional por tempo de serviço. Não à toa, há relatos de preocupação na equipe econômica do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Tudo isso forma o caldo perfeito para adiar por muito tempo, como quer a elite do funcionalismo, qualquer discussão séria sobre reforma administrativa no Brasil. De um lado, os magistrados e os membros do MP vão se articular para recuperar o espaço perdido e avançar sobre os recursos do Orçamento, e, de outro, os integrantes das carreiras de Estado vão se mobilizar para também ter seu privilégio adquirido.

Em ano eleitoral, quando Congresso e governo federal jamais vão enfrentar uma reforma do RH do Estado, o STF deu um empurrãozinho e mostrou como desconstruir os poucos marcos morais da administração pública. A isso não se dá outro nome que não sabotagem.

Venezuela não sai do lugar

Por O Estado de S. Paulo

Sob a chancela de Trump, regime chavista encena anistia política conveniente à sua manutenção

Três meses após a ação militar dos EUA que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro, a Venezuela vive uma situação insólita. Com a chancela do presidente americano Donald Trump, os principais acólitos do ex-ditador mandam no país. A possibilidade de realização de eleições nem sequer é cogitada.

Pior, o país encena promover mudanças significativas, como a anistia a presos políticos perseguidos pelo regime de Maduro, ao mesmo tempo que promove figuras nefastas como Gustavo González López. Conhecido pela atuação à frente de órgãos de tortura e repressão na Venezuela, ele acaba de ser nomeado ministro da Defesa pela presidente interina, Delcy Rodríguez.

Delcy, bem como seu irmão Jorge Rodríguez, é defensora do infame “socialismo do século 21” desde os tempos do falastrão Hugo Chávez. Os dois eram aliados de primeira hora de Maduro, a quem, tudo indica, traíram para permanecer no poder.

Como agora tem de prestar contas a um novo superior, Trump, a presidente interina tem habilmente promovido mudanças que conferem a ela e ao presidente dos EUA o verniz de guardiões dos direitos humanos.

A aprovação da lei de anistia patrocinada por Delcy, no final de janeiro, é exemplar nesse sentido. É verdade que, desde então, críticos de Maduro – muitos deles presos arbitrariamente por protestarem contra a fraude na eleição presidencial de 2024 – foram libertados.

Opositores como o ex-deputado Américo De Grazia, um dos poucos que de fato foram anistiados, afirma que a lei atual não é a ideal, mas é a que existe. “Como é a lei que temos, temos de fazer uso dela”, afirmou em entrevista ao Estadão.

A visão de De Grazia é compreensível. Vítima dos maus tratos do regime, ele se vale das oportunidades existentes no momento, como a anistia, e segue crítico do governo. Tal crítica, porém, é conveniente para Delcy e Trump, que podem alegar que agora os opositores podem manifestar-se abertamente contra o governo venezuelano.

Ocorre que a lei aprovada pelo Congresso controlado por Delcy é vaga o bastante para permitir que o Judiciário venezuelano, totalmente aparelhado pelo chavismo, controle o processo de anistia. Para organizações de direitos humanos, trata-se de uma lei “para gringo ver”.

O governo Delcy alardeia que desde a aprovação da lei, em fevereiro, mais de 11 mil pessoas solicitaram anistia e que mais de 7 mil pedidos foram concedidos. Confiar nesses números, porém, é um exercício de boa vontade, uma vez que o regime não prima pela transparência. Centenas de pessoas seguem presas sob condições desconhecidas.

Para Trump nada disso parece importar. Já Delcy, que publicamente manifesta lealdade a Maduro, agora trancafiado numa prisão de Nova York, facilitou o fluxo de petróleo da Venezuela para os EUA e também caminha para abrir o setor de mineração a investimentos estrangeiros, que é o que realmente interessa a Trump.

Livres de Maduro, de quem ninguém sente falta, os venezuelanos seguem presos ao chavismo e sem qualquer expectativa de escolher quem os governa nem de contar com instituições robustas e democráticas.

Desafios institucionais da campanha eleitoral

Por Correio Braziliense

As eleições de 2026 se configuram como mais um teste de estresse para a democracia brasileira

Com a desincompatibilização dos candidatos, entre os quais governadores como Ronaldo Caiado (PSD-GO), Ibaneis Rocha (MDB-DF) e Romeu Zema (Novo-MG), prefeitos, ministros e outros ocupantes de cargos públicos que desejam disputar as eleições, a campanha eleitoral de 2026 deu um passo decisivo. De agora em diante, a movimentação política dos partidos e seus candidatos estará diante de desafios qualitativamente novos.

O primeiro desses desafios é a consolidação das fake news como instrumentos recorrentes e largamente utilizados na disputa política, o que não é permitido na campanha eleitoral. Não se trata mais de episódios isolados de desinformação, mas de grandes operações digitais capazes de moldar percepções coletivas em tempo real. A disseminação de conteúdos falsos ou distorcidos, impulsionados por redes sociais e aplicativos de mensagens, cria uma realidade paralela que, muitas vezes, se sobrepõe aos fatos.

A isso se soma o uso indiscriminado de inteligência artificial, que inaugura uma nova etapa da manipulação política. Ferramentas capazes de produzir vídeos hiper-realistas, áudios sintéticos e textos automatizados ampliam exponencialmente a capacidade de enganar o eleitor. Os "deepfakes" — imagens ou falas fabricadas com alto grau de verossimilhança — representam um risco concreto à integridade do processo eleitoral. A velocidade de produção e disseminação desses conteúdos supera a capacidade de resposta das instituições e cria um descompasso perigoso entre tecnologia e regulação. Esse recurso foi largamente utilizado nas eleições indianas, em que os candidatos apareciam falando todos os dialetos locais sobre seus problemas específicos.

Outro fator crítico é o velho caixa dois eleitoral e sua possível ampliação com o desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares, que atingiram um patamar inédito. Apesar dos avanços institucionais no controle do financiamento público eleitoral, criado exatamente para evitar o recurso ao caixa dois e antigas formas de financiamento privado, muito suscetíveis à corrupção, há sinais de que recursos não contabilizados continuam a irrigar campanhas, especialmente por meio de estruturas paralelas e financiamento indireto via redes digitais.

Paralelamente, essa blindagem dos detentores de mandato por meio das emendas ao orçamento introduz uma assimetria relevante no processo eleitoral. O uso intensivo de emendas parlamentares — muitas vezes com baixa transparência e alto grau de discricionariedade — permite a construção de "currais eleitorais" a partir da distribuição de recursos públicos, uma recidiva do "voto de cabresto" da República Velha.

O abuso de poder econômico tende a ser ainda mais sofisticado. Não se limita mais à propaganda tradicional ou ao financiamento direto de campanhas, mas se manifesta, também, no domínio dos meios digitais, na contratação de influenciadores, no impulsionamento massivo de conteúdos e na utilização de estruturas empresariais para moldar narrativas.

Por fim, a incidência de fatores externos no processo eleitoral brasileiro alcança uma escala inédita. Conflitos geopolíticos, como a guerra no Oriente Médio, pressões econômicas internacionais e até mesmo a atuação de plataformas globais de tecnologia pautam o ambiente político interno. É o caso da Guerra do Irã, porque a oscilação dos preços do petróleo, por exemplo, impacta a inflação e o custo de vida, elementos centrais na avaliação do eleitorado. Ao mesmo tempo, decisões de governos estrangeiros podem ser instrumentalizadas no debate doméstico. O caso das pressões dos EUA contra a existência do Pix também é ilustrativo.

As eleições de 2026 se configuram como mais um teste de estresse para a democracia brasileira. A inovação tecnológica e nossas fragilidades institucionais às pressões externas criam um cenário fora de controle da Justiça Eleitoral. Por essa razão, a lisura do processo dependerá não apenas das regras formais, mas da capacidade efetiva de fiscalização, regulação e, sobretudo, da maturidade política da sociedade.

A importância do Abril Azul

Por O Povo (CE)

O autismo é um tema que a sociedade brasileira, e a mundial, precisa abordar com mais consciência e clareza. Somente assim conseguiremos, numa perspectiva de futuro idealizado, lidar com a questão dentro dos desafios que contempla, ajudando a identificação dos portadores, coisa nem sempre fácil, e, em especial, garantindo-lhes os meios necessários para uma inserção na vida social que os considere e respeite exatamente como são.

Um contexto que dá sentido ainda maior à decisão tomada lá em 2007 de estabelecer um período no calendário para o tema do autismo ser colocado na sua dimensão exata, basicamente atuando para combater, através da educação e da conscientização, qualquer preconceito. Assim nasceu o Abril Azul, dentro de um esforço, liderado no plano global pela Organização das Nações Unidas (ONU), de se fazer um debate de maior profundidade em torno dos equívocos e discriminações e, ao mesmo tempo, investindo numa linha propositiva, em que sejam estimuladas ações de caráter inclusivo. Esforço mais do que necessário diante da desinformação que, infelizmente, grassa.

O que é o autismo, afinal de contas? A ciência e a medicina indicam ser um transtorno do neurodesenvolvimento com uma característica muito própria: o autista não possui traços físicos que permitam sua identificação apenas pelo olhar, ao contrário, para citar um exemplo aplicável ao caso, das pessoas com síndrome de down. Trata-se de uma deficiência invisível, o que a torna mais desafiadora de entender, a partir dos passos iniciais, consequentemente também impondo reptos extras para determinar a melhor maneira de lidar com a situação a partir de quando diagnosticada.

Ações concentradas, valendo-se de todos os espaços para divulgar as características, mostrar que estamos lidando com algo que não muda a capacidade dos portadores, especialmente aqueles que apresentam baixa necessidade de suporte, fazem parte de um esforço necessário de ser abraçado. O engajamento é condição necessária para elevarmos o nível de conscientização, evitando-se posturas capacitistas e que acabam por desconsiderar, muitas vezes, o fato de o autismo não impor excepcionalidades à vida de seus portadores. Requer, apenas, atenção e consciência.

O Abril Azul, portanto, tem total apoio do Grupo de Comunicação O POVO. Claro que com discernimento de que é apenas um movimento e o quadro exige que muito mais se faça, no cotidiano da vida de todos, para, de início, assegurar um diagnóstico no tempo certo, permitindo que todos os esforços disponíveis sejam utilizados para garantir autonomia, independência e felicidade a todos os autistas, dentro do potencial de cada um. É para onde precisamos avançar e, de preferência, com passadas mais largas. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.