Duvidar de eleições é golpismo de Flávio Bolsonaro
Por Folha de S. Paulo
Filho do ex-presidente mostrou mais uma vez
que bolsonarismo moderado é um oxímoro
Nos Estados Unidos, declarou que a disputa
presidencial deste ano só será justa se os votos levarem a sua vitória; direita
populista degrada debate
Em maio de 2022, durante as tentativas do
então presidente Jair
Bolsonaro (PL) de desacreditar as
eleições brasileiras por meio de ataques às urnas eletrônicas e outras teorias
conspiratórias vazias, a Folha registrou
neste espaço:
"[Jair Bolsonaro] atiça os ânimos de alguns poucos dispostos a participar de seus ensaios golpistas, que alternam intimidações e recuos enquanto se mantém elevado o risco de derrota em outubro. Trata-se de uma ofensiva estúpida contra uma valiosa conquista nacional e, ao fim e ao cabo, contra todos os eleitores e eleitos do país".
O peelista não somente perdeu o pleito
daquele ano para o petista Luiz Inácio Lula da
Silva como acabou condenado e, inelegível, cumpre prisão domiciliar por, entre
outros crimes, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito.
O fato de o jornal voltar ao tema da lisura
das eleições brasileiras reforça a indigência do debate público advinda da
ascensão da direita populista com Donald Trump,
em 2016, e, no Brasil, com Bolsonaro, dois anos depois.
Mas o faz provocado por discurso de outro
Bolsonaro, o primogênito Flávio, na extremista Conferência de Ação Política
Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), nos Estados
Unidos.
Nele, o atual pré-candidato do PL, que aparece
tecnicamente empatado com Lula no Datafolha, mostrou mais uma vez
que "bolsonarismo moderado" é um oxímoro ao elencar um rol de ameaças
e bobagens, entre elas a de que o petista só venceu o último pleito com auxílio
do Supremo Tribunal Federal e interferência e auxílio financeiro do então
presidente democrata, Joe Biden.
Segundo o senador pelo Rio, ele será o
escolhido desde que haja "eleições livres e justas":
"Se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os
votos forem contados corretamente, nós venceremos".
Flávio
Bolsonaro pede ainda que os EUA "monitorem a liberdade de
expressão" do povo brasileiro e "apliquem pressão diplomática para
que nossas instituições funcionem corretamente".
Desde 1989, o Brasil tem tido eleições
diretas para presidente, todas elas livres e justas. Há quase 40 anos, os votos
são contados de modo correto, principalmente depois da adoção da urna
eletrônica, em 1996, uma conquista brasileira que ainda hoje serve de modelo
mundial.
O pré-candidato de ultradireita deveria
deixar de perseguir fantasmas e tratar de explicar aspectos nebulosos de seu
passado —como as rachadinhas e as ligações perigosas com milicianos— e dirimir
preocupações concretas sobre seu futuro —e o do país, caso venha a ser eleito.
Poderia começar esclarecendo o que quis
dizer, em entrevista
à Folha no ano passado, quando falou de
"possibilidade e de uso da força", se o STF derrubar um hipotético
indulto a seu pai. E apresentar propostas para um país que iniciará 2027 com
uma necessidade inadiável de ajuste fiscal.
Popularidade de Milei descola da economia
Por Folha de S. Paulo
Desaprovação do presidente argentino bate
recorde, apesar das quedas nas taxas de inflação e de pobreza
Dada a redução da inflação de 211,4% em 2023
para taxa anualizada de 33,1% em fevereiro, a desaprovação de 61,6% a Milei
parece inusitada
Os argentinos dão motivos para Javier Milei preocupar-se
desde já com as próximas eleições presidenciais, que serão realizadas em
outubro de 2027. Com sua desaprovação por 61,6% da população, conforme
pesquisa de março do instituto AtlasIntel, o mandatário vê-se politicamente
fragilizado enquanto ainda tem missões a cumprir na seara econômica.
Trata-se da maior taxa de impopularidade do
presidente argentino desde que chegou ao poder, em dezembro de 2023, e de alta
de 6,3 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, de fevereiro. Seu
governo igualmente alcançou um recorde na avaliação como "muito
ruim", de 57,4%.
Para uma gestão que entregou aos argentinos
—por meio de reformas ortodoxas apoiadas pelo Fundo Monetário Internacional
(FMI) e endossadas pelo Congresso da Nação— uma queda da inflação de 211,4% em
2023 para uma taxa acumulada de 33,1% nos 12 meses encerrados em fevereiro, tal
corrosão da imagem de Milei parece inusitada.
A estranheza se acentua em face do recuo da
população em situação de pobreza, de 41,7% no segundo semestre de 2023 para
28,2% em igual período do ano passado, conforme os dados do instituto oficial
de estatísticas.
O cenário sugere desalinhamento entre a percepção
popular e os números —o Produto Interno Bruto cresceu 4,4% em 2025, após dois
anos de queda.
Se a situação econômica está ruim para 65%
dos argentinos, na opinião de 57% ela ainda vai piorar nos próximos seis meses,
segundo o AtlasIntel. A inflação continua a ser um dos principais problemas do
país para 35,3%.
A reforma
trabalhista de Milei, recentemente freada pela Justiça do
Trabalho, pode ter repercutido na resposta de 74% dos entrevistados que
consideraram grave a situação atual do mercado de trabalho. As mudanças
provocaram elogios do FMI, ao concluir a avaliação da Argentina na última
quinta-feira (2). Mas também vieram cobranças.
O Fundo, credor de US$ 41,8 bilhões, reforçou
a necessidade de Milei mitigar os efeitos sociais de suas reformas e concluir o
plano de estabilização, desregulação e abertura econômica.
Milei, que recebeu herança desastrosa do populismo peronista, muito fará pelos argentinos se vier a entregar a economia algo estabilizada ao final de seu mandato, sua principal promessa aos eleitores em 2023. Mesmo que isso não resulte na melhoria de popularidade e na manutenção do seu posto em 2027, os sacrifícios da sociedade durante o período não terão sido em vão.
Desafio fiscal deve ser prioridade no próximo
governo
Por O Globo
Dívida pública beira os 80% do PIB, mas é
possível reduzi-la quase 7 pontos com plano de austeridade
O governo que tomar posse em janeiro de 2027,
seja qual for, terá pela frente o desafio de promover um ajuste fiscal. A
dívida pública cresceu de forma galopante desde 2023 e chegou a 79,2% do
Produto Interno Bruto (PIB) em fevereiro. Se nada for feito e a trajetória
seguir esse rumo, não haverá espaço para a queda de juros. Famílias continuarão
a separar fatia cada vez maior da renda para pagar empréstimos, empresas terão
mais problemas de caixa, e o crescimento econômico sofrerá. É insustentável a
postura fiscalmente irresponsável adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, que fecha os olhos às consequências nefastas do aumento de gasto público
e crê na fábula de que o céu é o limite para a dívida pública. Mas o problema
tem solução.
Em artigo recém-publicado, os economistas
Mario Mesquita, Pedro Schneider e Thales Guimarães traçam um plano para um
governo disposto a encará-lo. “Ajustes rápidos tendem a gerar credibilidade
imediata. Reduzem prêmio de risco, juros e pressões inflacionárias”, afirmam no
artigo. “A concentração inicial do esforço também reduz a ‘fadiga de reformas’,
comum em planos longos sujeitos a ciclos políticos.”
Com base na experiência internacional, eles
concluem que os ajustes fiscais baseados em cortes de despesas são mais
eficazes, pois, de forma simultânea, corrigem o desequilíbrio e reduzem a
necessidade de pagar mais juros. De acordo com estudo do Banco Mundial que
avaliou 108 experiências entre 1980 e 2023, 83% dos ajustes com corte de gastos
estabilizaram a dívida, ante apenas 49% dos planos baseados no aumento de
receita. Diante disso, não surpreende o fracasso do arcabouço fiscal criado
pelo atual governo em 2023.
No plano exposto por Mesquita e colegas, o
país poderia chegar a 2036 com redução da dívida pública ao redor de 6,8 pontos
percentuais do PIB. Uma combinação de medidas de impacto rápido e reformas
graduais daria credibilidade duradoura ao plano. No item redução de gastos, o
destaque da proposta é desindexar o salário mínimo dos benefícios da
Previdência. Na vasta maioria dos países, o aumento salarial para quem está na
ativa não está vinculado a correções na aposentadoria. No Brasil, esse vínculo
é um catalisador de gastos. Cada real de aumento no mínimo eleva as despesas da
Previdência em centenas de milhões.
Outra medida crucial é desvincular as
despesas com saúde e educação do aumento da arrecadação. As duas áreas são
essenciais, mas há muito a ganhar em termos de eficiência, sem aumentar o
gasto. A inflexibilidade do Orçamento gera vários custos sociais. Quanto às
reformas, os autores consideram mais urgente a previdenciária. É preciso,
dizem, aumentar a idade mínima de aposentadoria e acabar com regras diferentes
concedidas a mulheres e trabalhadores rurais, além de reformar a Previdência
dos militares. Regras flexíveis e listas de exceções também deveriam acabar.
Medidas de menor impacto, mas igualmente
necessárias incluem reavaliação de subsídios e programas sociais, restrição dos
supersalários e redução das emendas parlamentares. O caminho para estabilizar a
dívida pública e inverter sua trajetória é conhecido. Basta o eleito no fim do
ano ter a coragem de encarar o problema.
Aquecimento global será agravado pela guerra
no Oriente Médio
Por O Globo
Com alta do gás natural, países voltam a
depender do carvão — mais poluente — para gerar energia
A guerra no Oriente Médio tem mais uma
consequência indesejada, decorrente do impacto nos mercados de energia:
contribui para agravar o aquecimento global. O fechamento do Estreito de Ormuz,
com aumento no preço do petróleo, reduz a confiabilidade no fornecimento de
insumos vitais para a geração de energia. Com isso, diversos países têm voltado
a acionar suas usinas termelétricas a carvão, como noticiou a agência
Bloomberg. As emissões das térmicas a carvão são as mais nocivas para a
atmosfera entre todas as formas de geração de energia.
Ainda que a guerra chegue ao fim logo, é
previsível que economias dependentes de gás natural do Oriente Médio revejam
seu planejamento estratégico para substituir essa fonte de energia por outra de
fornecimento mais confiável. O primeiro alerta soou há pouco mais de quatro
anos, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e cortou o fornecimento de gás à
Europa. Alemanha, França e outros países passaram a importar gás natural
liquefeito (GNL), sobretudo dos Estados Unidos, mas também do Catar, que divide
com o Irã a
exploração do maior campo de gás do planeta. Apenas esse campo torna o Irã dono
da segunda maior reserva de gás natural do mundo, atrás somente da Rússia — o
Catar fica em terceiro lugar.
Em sua estratégia de aumentar o custo da
guerra para o mundo e pressionar os Estados Unidos, o Irã atacou a estrutura de
processamento e exportação de gás natural de Ras Laffan, no campo catari de
North Dome. Israel, em contrapartida, bombardeou o campo iraniano vizinho, de
South Pars. O reparo de ambos levará muito tempo.
Desde 2015, a capacidade de geração a carvão
caiu 45% na Europa. Houve avanço no uso de fontes renováveis, mas elas ainda
não conseguem suprir a demanda. A alta do GNL incentiva sua substituição pelo
carvão. Diante desse quadro, Holanda, Polônia e República Tcheca deverão voltar
a usar termelétricas a carvão. Usinas que a Alemanha desativou deverão ser
reativadas. Países europeus poderão gerar cerca de 20% mais energia elétrica no
próximo verão a partir do carvão, ante 2025, segundo análise do London Stock Exchange
Group. A crise interromperá a tendência global de redução das térmicas a
carvão.
A geopolítica do carvão costuma ser mais estável que a do gás natural. Sua geografia é mais diversificada. A Rússia, sob sanções, é grande produtora, assim como Austrália, Indonésia, África do Sul e Estados Unidos. Em contraste, grandes reservas de petróleo e gás ficam no instável Oriente Médio. É essencial que a crise não leve os governos a desistir da transição energética. A volta ao carvão mineral exigirá esforço redobrado na ampliação do uso de fontes limpas de energia e na mitigação das emissões em todos os demais setores. O desafio ambiental aumentou.
Sem segurança, não há crescimento
Por O Estado de S. Paulo
Estudo da FGV mostra que cidades que
reduziram a violência registraram aumento na criação de empregos e abertura de
empresas, isto é, segurança é essencial para a prosperidade
Como detentor do monopólio da violência, o
Estado existe, antes de tudo, para proteger a vida e o patrimônio dos cidadãos.
Mas políticas de segurança pública extrapolam a dimensão individual. Ser seguro
é fator determinante para que qualquer país prospere do ponto de vista
econômico. Ignorar esse fato implica negligenciar um dos principais entraves ao
desenvolvimento do Brasil.
Um estudo recente da Escola de Administração
de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV Eaesp), publicado
pelo Valor, reforçou
as evidências dessa relação. A pesquisa cruzou dados da Relação Anual de
Informações Sociais de mais de 2 mil municípios de oito Estados, entre 2002 e
2019, comparando períodos anteriores e posteriores à implementação de políticas
de segurança nas localidades analisadas e entre estas e cidades onde não foram
adotadas tais medidas. Resultado: cidades mais seguras registraram aumento
entre 7% e 10% tanto na oferta de empregos formais como na abertura de
empresas.
Segundo o pesquisador Bruno Pantaleão,
políticas públicas baseadas em gestão de dados, uso coordenado de informações
criminais e focalização de recursos para reduzir os indicadores de violência
levaram à melhora do ambiente de negócios. “Foram, provavelmente, as políticas
de segurança pública mais bem-sucedidas nos últimos 30 anos” que levaram a esse
resultado, afirmou ao referido jornal.
Não se trata de uma constatação difícil de
entender. A violência, sobretudo nas grandes cidades do País, afeta o cotidiano
dos cidadãos. Altera rotas. Restringe horários. Limita a circulação. Influencia
decisões de compra. Esse clima de medo também perturba as empresas, que
refreiam investimentos. Empreendedores hesitam em abrir negócios. Trabalhadores
evitam regiões mais violentas. Mais bem dito: a sensação de insegurança corrói
o dinamismo econômico de uma cidade, de um Estado, do País.
Os custos dessa realidade são expressivos e
há tempos conhecidos. Numa entrevista ao Estadão em 2024, a executiva Maria Silvia
Bastos Marques já alertava para o risco de o Brasil “cruzar o ponto de não
retorno na violência” e deixar de ser atrativo para investidores. Segundo o
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2022, empresas instaladas
aqui gastaram cerca de R$ 171 bilhões por ano com segurança privada e seguros,
o equivalente a 1,7% do PIB daquele ano. A cifra é alarmante por si só, mas
representa uma parte do problema. Há outras perdas menos mensuráveis, mas
igualmente terríveis. Além da citada fuga de investimentos, há queda do
comércio, desvalorização imobiliária e até processos de desindustrialização em
áreas dominadas pelo crime organizado.
O economista Daniel Cerqueira, pesquisador do
Ipea e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, já observou neste
jornal que imóveis em regiões inseguras podem valer até 30% menos do que
propriedades equivalentes em locais mais protegidos. Mas não é apenas o
patrimônio individual que se deteriora diante da falta de segurança pública. É
o vigor econômico das cidades e, consequentemente, do País que se esvai.
Romper esse ciclo pernicioso exige políticas
públicas eficazes e duradouras, baseadas em evidências, como sugere o estudo do
FGV Eaesp. A própria experiência nacional mostra que avanços são possíveis
quando a segurança pública é tratada com planejamento, inteligência e espírito
público, não com ideologia ou retórica belicosa.
Esse tema tem importância capital em 2026.
Recente pesquisa Datafolha revelou que o medo da violência é o segundo problema
mais grave para os brasileiros, citado por 19% dos entrevistados, atrás apenas
da saúde (21%). Num ano de eleições gerais, é imperativo que o debate público
incorpore essa angústia dos cidadãos, com óbvias repercussões no ambiente de
negócios.
Segurança pública não pode ser tratada apenas
como questão de polícia. Trata-se também de política econômica. Um país que não
provê segurança é fatalmente hostil ao empreendedorismo, ao investimento e à
geração de emprego e renda. Isso tem de estar na agenda dos que almejam a
Presidência da República.
Combater a violência é primordialmente salvar
a vida de milhares de brasileiros. Mas é também criar condições para que o País
prospere economicamente e os cidadãos vivam mais e melhor.
A antirreforma administrativa do STF
Por O Estado de S. Paulo
Ministros não esconderam que fazem parte do
problema: além de manter os penduricalhos, recriaram o adicional por tempo de
serviço. Eis o receituário contra uma reforma do RH do Estado
A recente decisão do Supremo Tribunal Federal
(STF) de traçar um limite aos chamados penduricalhos, em vez de sepultá-los,
vai reverberar por muito tempo na estrutura do Estado brasileiro. Isso porque
os ministros da mais alta instância do Poder Judiciário não só fizeram um
puxadinho no teto constitucional, como também decidiram recriar um privilégio
que fora extinto havia mais de 20 anos, ampliando a remuneração dos magistrados
e membros do Ministério Público (MP) de R$ 46,4 mil para até R$ 78,8 mil por
mês. Assim, ergueram um teto premium para
seus colegas de toga e ainda garantiram mais um benefício: eis o receituário de
uma antirreforma administrativa.
O STF não escondeu que faz parte do problema
ao ressuscitar o Adicional por Tempo de Serviço (ATS). Era um benefício devido
ao funcionalismo público até 2006, que consistia no aumento salarial de 5% a
cada cinco anos de trabalho. O benefício tinha o apelido de quinquênio e a sua
incorporação ao contracheque do servidor era automática – ou seja, não por
mérito, mas por antiguidade, o que é, por óbvio, contraproducente. Os ministros
repaginaram a gratificação, chamada agora de “parcela de valorização por tempo
na carreira”. Mas as regras são as mesmas: em 35 anos de carreira, todos os
magistrados chegarão a 35% de aumento progressivo.
O milagre da multiplicação da remuneração só
foi possível porque os ministros do Supremo, sem a legitimidade de um mandato
eletivo conferido pelo voto popular, decidiram fixar regras de transição para o
pagamento de verbas indenizatórias no limite de 35% sobre o salário, além de
criarem a pomposa parcela de valorização por tempo na carreira. E até que a
Câmara dos Deputados e o Senado editem uma lei sobre o assunto, são essas
regras de transição que estão valendo. Em bom português, o Supremo ignorou, e
não interpretou, o artigo 37, inciso XI, da Constituição, que estabelece o
teto, ao mesmo tempo que distribuiu um reajuste salarial de até 70%. É ativismo
judicial.
E, apesar da decisão generosa em favor da
magistratura e do MP, o STF não agradou os seus pares. Isso ocorre porque os
juízes, promotores e procuradores já vinham ganhando bem acima do novo teto:
não raro, mais de R$ 200 mil por mês. Inconformada, a Associação dos
Magistrados Brasileiros (AMB) afirmou que a decisão causa perplexidade, haja
vista que a medida trará prejuízo a cerca de 18 mil magistrados do País. É
embaraçoso, sobretudo em se tratando da elite do funcionalismo. Já a
Corregedoria-Geral da Justiça do Trabalho chegou a enviar ofícios aos seus 24 tribunais
cobrando explicações sobre relatos de suspensão de expedientes em varas, sem
motivação aparente, no dia seguinte à sessão do Supremo. Como se vê, parece que
os togados estão inquietos.
Os juízes, assim como os membros do MP, não
estão sozinhos na insatisfação. As chamadas carreiras de Estado também estão
alvoroçadas, não por acharem escandaloso o novo teto com o qual os colegas
foram agraciados, mas porque também querem ser beneficiadas com tamanho
privilégio. Auditores, fiscais, diplomatas, delegados da Polícia Federal e
servidores do Poder Legislativo já reivindicam o seu adicional por tempo de
serviço. Não à toa, há relatos de preocupação na equipe econômica do governo de
Luiz Inácio Lula da Silva.
Tudo isso forma o caldo perfeito para adiar
por muito tempo, como quer a elite do funcionalismo, qualquer discussão séria
sobre reforma administrativa no Brasil. De um lado, os magistrados e os membros
do MP vão se articular para recuperar o espaço perdido e avançar sobre os
recursos do Orçamento, e, de outro, os integrantes das carreiras de Estado vão
se mobilizar para também ter seu privilégio adquirido.
Em ano eleitoral, quando Congresso e governo
federal jamais vão enfrentar uma reforma do RH do Estado, o STF deu um
empurrãozinho e mostrou como desconstruir os poucos marcos morais da
administração pública. A isso não se dá outro nome que não sabotagem.
Venezuela não sai do lugar
Por O Estado de S. Paulo
Sob a chancela de Trump, regime chavista
encena anistia política conveniente à sua manutenção
Três meses após a ação militar dos EUA que
resultou na captura do ditador Nicolás Maduro, a Venezuela vive uma situação
insólita. Com a chancela do presidente americano Donald Trump, os principais
acólitos do ex-ditador mandam no país. A possibilidade de realização de
eleições nem sequer é cogitada.
Pior, o país encena promover mudanças
significativas, como a anistia a presos políticos perseguidos pelo regime de
Maduro, ao mesmo tempo que promove figuras nefastas como Gustavo González
López. Conhecido pela atuação à frente de órgãos de tortura e repressão na
Venezuela, ele acaba de ser nomeado ministro da Defesa pela presidente
interina, Delcy Rodríguez.
Delcy, bem como seu irmão Jorge Rodríguez, é
defensora do infame “socialismo do século 21” desde os tempos do falastrão Hugo
Chávez. Os dois eram aliados de primeira hora de Maduro, a quem, tudo indica,
traíram para permanecer no poder.
Como agora tem de prestar contas a um novo
superior, Trump, a presidente interina tem habilmente promovido mudanças que
conferem a ela e ao presidente dos EUA o verniz de guardiões dos direitos
humanos.
A aprovação da lei de anistia patrocinada por
Delcy, no final de janeiro, é exemplar nesse sentido. É verdade que, desde
então, críticos de Maduro – muitos deles presos arbitrariamente por protestarem
contra a fraude na eleição presidencial de 2024 – foram libertados.
Opositores como o ex-deputado Américo De
Grazia, um dos poucos que de fato foram anistiados, afirma que a lei atual não
é a ideal, mas é a que existe. “Como é a lei que temos, temos de fazer uso
dela”, afirmou em entrevista ao Estadão.
A visão de De Grazia é compreensível. Vítima
dos maus tratos do regime, ele se vale das oportunidades existentes no momento,
como a anistia, e segue crítico do governo. Tal crítica, porém, é conveniente
para Delcy e Trump, que podem alegar que agora os opositores podem
manifestar-se abertamente contra o governo venezuelano.
Ocorre que a lei aprovada pelo Congresso
controlado por Delcy é vaga o bastante para permitir que o Judiciário
venezuelano, totalmente aparelhado pelo chavismo, controle o processo de
anistia. Para organizações de direitos humanos, trata-se de uma lei “para
gringo ver”.
O governo Delcy alardeia que desde a
aprovação da lei, em fevereiro, mais de 11 mil pessoas solicitaram anistia e
que mais de 7 mil pedidos foram concedidos. Confiar nesses números, porém, é um
exercício de boa vontade, uma vez que o regime não prima pela transparência.
Centenas de pessoas seguem presas sob condições desconhecidas.
Para Trump nada disso parece importar. Já
Delcy, que publicamente manifesta lealdade a Maduro, agora trancafiado numa
prisão de Nova York, facilitou o fluxo de petróleo da Venezuela para os EUA e
também caminha para abrir o setor de mineração a investimentos estrangeiros,
que é o que realmente interessa a Trump.
Livres de Maduro, de quem ninguém sente falta, os venezuelanos seguem presos ao chavismo e sem qualquer expectativa de escolher quem os governa nem de contar com instituições robustas e democráticas.
Desafios institucionais da campanha eleitoral
Por Correio Braziliense
As eleições de 2026 se configuram como mais
um teste de estresse para a democracia brasileira
Com a desincompatibilização dos candidatos,
entre os quais governadores como Ronaldo Caiado (PSD-GO), Ibaneis Rocha
(MDB-DF) e Romeu Zema (Novo-MG), prefeitos, ministros e outros ocupantes de
cargos públicos que desejam disputar as eleições, a campanha eleitoral de 2026
deu um passo decisivo. De agora em diante, a movimentação política dos partidos
e seus candidatos estará diante de desafios qualitativamente novos.
O primeiro desses desafios é a consolidação
das fake news como instrumentos recorrentes e largamente utilizados na disputa
política, o que não é permitido na campanha eleitoral. Não se trata mais de
episódios isolados de desinformação, mas de grandes operações digitais capazes
de moldar percepções coletivas em tempo real. A disseminação de conteúdos
falsos ou distorcidos, impulsionados por redes sociais e aplicativos de
mensagens, cria uma realidade paralela que, muitas vezes, se sobrepõe aos
fatos.
A isso se soma o uso indiscriminado de
inteligência artificial, que inaugura uma nova etapa da manipulação política.
Ferramentas capazes de produzir vídeos hiper-realistas, áudios sintéticos e
textos automatizados ampliam exponencialmente a capacidade de enganar o
eleitor. Os "deepfakes" — imagens ou falas fabricadas com alto grau
de verossimilhança — representam um risco concreto à integridade do processo
eleitoral. A velocidade de produção e disseminação desses conteúdos supera a
capacidade de resposta das instituições e cria um descompasso perigoso entre
tecnologia e regulação. Esse recurso foi largamente utilizado nas eleições
indianas, em que os candidatos apareciam falando todos os dialetos locais sobre
seus problemas específicos.
Outro fator crítico é o velho caixa dois
eleitoral e sua possível ampliação com o desvio de recursos públicos
provenientes de emendas parlamentares, que atingiram um patamar inédito. Apesar
dos avanços institucionais no controle do financiamento público eleitoral,
criado exatamente para evitar o recurso ao caixa dois e antigas formas de
financiamento privado, muito suscetíveis à corrupção, há sinais de que recursos
não contabilizados continuam a irrigar campanhas, especialmente por meio de
estruturas paralelas e financiamento indireto via redes digitais.
Paralelamente, essa blindagem dos detentores
de mandato por meio das emendas ao orçamento introduz uma assimetria relevante
no processo eleitoral. O uso intensivo de emendas parlamentares — muitas vezes
com baixa transparência e alto grau de discricionariedade — permite a
construção de "currais eleitorais" a partir da distribuição de
recursos públicos, uma recidiva do "voto de cabresto" da República
Velha.
O abuso de poder econômico tende a ser ainda
mais sofisticado. Não se limita mais à propaganda tradicional ou ao
financiamento direto de campanhas, mas se manifesta, também, no domínio dos
meios digitais, na contratação de influenciadores, no impulsionamento massivo
de conteúdos e na utilização de estruturas empresariais para moldar narrativas.
Por fim, a incidência de fatores externos no
processo eleitoral brasileiro alcança uma escala inédita. Conflitos
geopolíticos, como a guerra no Oriente Médio, pressões econômicas
internacionais e até mesmo a atuação de plataformas globais de tecnologia
pautam o ambiente político interno. É o caso da Guerra do Irã, porque a
oscilação dos preços do petróleo, por exemplo, impacta a inflação e o custo de
vida, elementos centrais na avaliação do eleitorado. Ao mesmo tempo, decisões
de governos estrangeiros podem ser instrumentalizadas no debate doméstico. O
caso das pressões dos EUA contra a existência do Pix também é ilustrativo.
As eleições de 2026 se configuram como mais um teste de estresse para a democracia brasileira. A inovação tecnológica e nossas fragilidades institucionais às pressões externas criam um cenário fora de controle da Justiça Eleitoral. Por essa razão, a lisura do processo dependerá não apenas das regras formais, mas da capacidade efetiva de fiscalização, regulação e, sobretudo, da maturidade política da sociedade.
A importância do Abril Azul
Por O Povo (CE)
O autismo é um tema que a sociedade
brasileira, e a mundial, precisa abordar com mais consciência e clareza.
Somente assim conseguiremos, numa perspectiva de futuro idealizado, lidar com a
questão dentro dos desafios que contempla, ajudando a identificação dos
portadores, coisa nem sempre fácil, e, em especial, garantindo-lhes os meios
necessários para uma inserção na vida social que os considere e respeite
exatamente como são.
Um contexto que dá sentido ainda maior à
decisão tomada lá em 2007 de estabelecer um período no calendário para o tema
do autismo ser colocado na sua dimensão exata, basicamente atuando para
combater, através da educação e da conscientização, qualquer preconceito. Assim
nasceu o Abril Azul, dentro de um esforço, liderado no plano global pela
Organização das Nações Unidas (ONU), de se fazer um debate de maior
profundidade em torno dos equívocos e discriminações e, ao mesmo tempo,
investindo numa linha propositiva, em que sejam estimuladas ações de caráter
inclusivo. Esforço mais do que necessário diante da desinformação que,
infelizmente, grassa.
O que é o autismo, afinal de contas? A
ciência e a medicina indicam ser um transtorno do neurodesenvolvimento com uma
característica muito própria: o autista não possui traços físicos que permitam
sua identificação apenas pelo olhar, ao contrário, para citar um exemplo
aplicável ao caso, das pessoas com síndrome de down. Trata-se de uma
deficiência invisível, o que a torna mais desafiadora de entender, a partir dos
passos iniciais, consequentemente também impondo reptos extras para determinar
a melhor maneira de lidar com a situação a partir de quando diagnosticada.
Ações concentradas, valendo-se de todos os
espaços para divulgar as características, mostrar que estamos lidando com algo
que não muda a capacidade dos portadores, especialmente aqueles que apresentam
baixa necessidade de suporte, fazem parte de um esforço necessário de ser
abraçado. O engajamento é condição necessária para elevarmos o nível de
conscientização, evitando-se posturas capacitistas e que acabam por
desconsiderar, muitas vezes, o fato de o autismo não impor excepcionalidades à
vida de seus portadores. Requer, apenas, atenção e consciência.
O Abril Azul, portanto, tem total apoio do Grupo de Comunicação O POVO. Claro que com discernimento de que é apenas um movimento e o quadro exige que muito mais se faça, no cotidiano da vida de todos, para, de início, assegurar um diagnóstico no tempo certo, permitindo que todos os esforços disponíveis sejam utilizados para garantir autonomia, independência e felicidade a todos os autistas, dentro do potencial de cada um. É para onde precisamos avançar e, de preferência, com passadas mais largas.

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