O Globo
Revitalização é uma coisa, macaquice é outra
De uma hora para outra, São Paulo foi levada
a crer que a esquina das avenidas Ipiranga e São João pode virar uma Times
Square, aquele magnífico pedaço de Manhattan. Tomara, mas a iniciativa está com
forte cheiro de macaquice, supondo que foram os luminosos que revitalizaram a
região.
Até o fim do século passado, o entorno da
esquina da Broadway com a Rua 42 passou por uma inédita decadência, tomado por
cinemas pornô, drogas, prostituição e batedores de carteira. O cartão-postal da
cidade parecia irremediavelmente perdido. Comparada à Times Square de então, a
esquina de Ipiranga com São João era um brinco.
Então surgiu o prefeito Edward Koch. Vitriólico e incansável, ele criou um escritório para revitalizar a região. Pensou-se nos grandes letreiros, mas esse foi apenas um asterisco. O Estado de Nova York assumiu casas de espetáculos, a prefeitura deu incentivos e, acima de tudo, o coração do pedaço foi presenteado aos pedestres.
Pensou-se na população. Os letreiros
luminosos continuaram a ser um detalhe tradicional. A revitalização da Times
Square resistiu a duas recessões, e o triunfo de Ed Koch foi completo.
Conhecido por ter ideias malucas, foi ele quem ensinou os donos de cachorros a
recolher o cocô dos pets. Hoje, esse hábito está disseminado no mundo.
A ideia de que basta um luminoso LED para
revitalizar uma região central é pobre. Precisa-se de muito mais, e a renovação
do Centro de São Paulo está à espera de um Ed Koch. O governador Tarcísio
de Freitas quer levar a administração do estado para o Centro. A ideia
é boa, mas falta o sopro de arquitetos audaciosos, meio malucos, enfim.
Um dia, um governador ou prefeito de São
Paulo transformará a Biblioteca Mário de Andrade num novo e arrojado prédio
(como o francês François Mitterrand fez com a Biblioteca Nacional da França).
Revitalizar o Centro ouvindo só empresários é tão arriscado quanto lançar
projetos sem ouvi-los. A Times Square mudou de rosto graças à mão pesada da
iniciativa privada.
Se luminosos bastassem, as cidades japonesas
estariam entre as mais bonitas do mundo. São as mais iluminadas, pouco mais. (A
prefeitura de Roma ilumina exageradamente o Coliseu, transformando-o num
anúncio de sabonete.)
A única virtude de uma São João iluminada é
que, em tese, ela nada custará à Viúva. A beleza de São Paulo deve alguma coisa
à sua desordem.
Logo ali fica o Rio de Janeiro. Lá,
continua-se a investir no crescimento da cidade na direção de São Cristóvão.
Teimosa, ela cresce na direção oposta. (O primeiro projeto da Cidade Nova,
unindo o Paço, atual Praça XV, à Quinta
da Boa Vista é do tempo de Dom João VI.) O projeto do Porto
Maravilha tornou-se um estudo de caso de fracasso. Quando o novo porto
oferecer moradias baratas aos tradicionais moradores da região, ela virará uma
maravilha.
Quando o Centro de São Paulo for
revitalizado, com ou sem luminosos, ecoará o canto de Caetano
Veloso: Alguma coisa acontece no meu
coração/Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João.

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