Folha de S. Paulo
Medidas não deveriam se transformar em arma
eleitoral para estimular o consumo a todo custo
Governo turbinou crédito para acelerar PIB;
agora, o endividamento dá as caras de forma mais preocupante
No centro da discussão sobre as medidas de
combate ao endividamento está o embate crescente no governo Lula neste
ano eleitoral sobre o atual patamar da taxa Selic mantido
pelo Banco Central –hoje em 14,75%.
O governo considera que o programa Desenrola de renegociação de dívidas –a primeira medida anunciada pelo ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad ainda na época da transição– deu certo, mas foi prejudicado pelos juros em nível alto por um tempo prolongado.
Enquanto a Selic subiu até 15%, as dívidas
das famílias, trabalhadores informais, pequenas, médias e também grandes
empresas cresceram proporcionalmente. Teria fracassado, segundo seus críticos,
porque de lá para cá houve aumento de 9 milhões de inadimplentes.
A premissa é verdadeira, mas também
desconsidera que o governo trabalhou nos últimos anos com uma política de
estímulo ao consumo, via aumento do crédito, para estimular o PIB. Foi um
contraponto ao aperto de juros do Banco Central para
impedir a desaceleração econômica.
As políticas de crédito e outros gastos do
governo ajudaram a manter atividade econômica aquecida, mesmo com a taxa de
juros altamente proibitiva. Era para ter desacelerado muito mais. Muito
dinheiro foi despejado na economia.
Agora, o problema do
endividamento dá as caras de forma preocupante no momento em
que o início do processo de queda da Selic coincidiu com a guerra no Irã.
O BC passou a trabalhar com um choque inflacionário por causa da elevação do
preço do petróleo e ficou mais constrangido de cortar muito os juros.
Em relatório recente, o BC pede cautela na
concessão de crédito e reconhece que o ambiente de juros altos, aliado ao
elevado endividamento mantém riscos para as micro, pequenas e médias empresas.
Já há sinais de deterioração da capacidade de pagamento das empresas de grande
porte.
O pacote de
Lula pode e deve retirar as empresas e famílias de dívidas mais
caras. Seria um desserviço, no entanto, transformá-lo em arma eleitoral para
estimular o consumo de olho na eleição. Aí, o problema aumenta.

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