Enquanto isso o eleitor médio comum toca a vida. Enfrenta a carestia no supermercado, encara a fila na unidade de saúde, pega o carro, o ônibus ou metrô para chegar ao trabalho, leva os filhos na escola, pensa em como melhorar a vida.
É mentira que as pessoas não se preocupem com política.
Podem estar desanimadas ou sem esperança, mas sabem, de forma clara ou
intuitiva, que as escolhas políticas repercutem em sua vida individual e
familiar. No entanto, a maioria absoluta não tem militância ativa, não
participa de partidos, não integra bolhas ideológicas. Não tem a ansiedade
característica do metiê político. Guardam-se para a hora certa.
O governador mineiro
Hélio Garcia respondia aos ansiosos que “eleição só depois da parada”. Se
referia ao desfile de Sete de Setembro. Não precisamos chegar a tanto. Nesta
época, a eleição em turno único era em novembro e não existia o frenesi das
redes sociais e da internet. A última pesquisa Genial/Quaest mostrou que 62%
dos eleitores, coisa de 96 milhões de brasileiros, não têm ainda candidato à
presidente. O que importa agora são questões qualitativas sobre o que está
movendo a vida e a opinião das pessoas. O grau de conhecimento não é homogêneo,
o debate ainda não começou e o voto induzido é cheio de artificialidade. Melhor
seguir o mestre Didi: “treino é treino, jogo é jogo”. A história das eleições é
pródiga em provar uma coisa óbvia: campanha é feita para mudar realidades
pré-estabelecidas supostamente imutáveis. Nos meus 44 anos de militância
assisti muitas viradas espetaculares e vitórias improváveis.
Collor era um ilustre
governador alagoano desconhecido, pegou a onda certa da opinião pública, atropelou
toda a elite política brasileira, de A a Z, e venceu. Eduardo Azeredo, em 1994,
fez uma virada sensacional em cima de Hélio Costa, dado como virtual governador
pelos analistas. Em 2008, participei de duas vitórias improváveis. Márcio Lacerda
era empresário desconhecido, começou com 3%. Com uma semana de TV, foi a 41% e
se tornou prefeito de BH, porque estava sintonizado com o sentimento das
pessoas e tinha os apoios certos. Já Custódio Mattos chegou em segundo lugar no
primeiro turno com 27% dos votos, em Juiz de Fora, contra os 41% de votos da
candidata do PT, Margarida Salomão. Tornou-se prefeito da cidade ganhando de 45%
a 42% dos votos totais. Romeu Zema entrou no debate da GLOBO, na terça-feira à
noite, desconhecido e com apenas 5% das intenções de voto, havia 35% de
indecisos e o ambiente disruptivo antissistema, típico de 2018. Em apenas 5
dias alcançou 41%. Depois, venceu o segundo turno, ainda sem ser conhecido.
Casos como esses existem às centenas. Tudo pode acontecer, inclusive nada. As polarizações iniciais podem se confirmar. Mas antes de cravar um prognóstico, melhor pensar: “devagar com o andor, que o santo é de barro” e “paciência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém”.

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