sábado, 25 de abril de 2026

Pesquisas e a experiencia da vida como ela é, por Marcus Pestana

A raposa política disse: “há dois seres ansiosos na política, os políticos e os jornalistas que cobrem a política”. Todas as semanas somos bombardeados com números de pesquisas de opinião. Lideranças políticas, especialistas, jornalistas, esmeram-se em torturar os números e extrair conclusões brilhantes e definitivas. Cravam resultados inevitáveis, menosprezam candidatos, elegem precocemente vitoriosos.

Enquanto isso o eleitor médio comum toca a vida. Enfrenta a carestia no supermercado, encara a fila na unidade de saúde, pega o carro, o ônibus ou metrô para chegar ao trabalho, leva os filhos na escola, pensa em como melhorar a vida.

 É mentira que as pessoas não se preocupem com política. Podem estar desanimadas ou sem esperança, mas sabem, de forma clara ou intuitiva, que as escolhas políticas repercutem em sua vida individual e familiar. No entanto, a maioria absoluta não tem militância ativa, não participa de partidos, não integra bolhas ideológicas. Não tem a ansiedade característica do metiê político. Guardam-se para a hora certa.

O governador mineiro Hélio Garcia respondia aos ansiosos que “eleição só depois da parada”. Se referia ao desfile de Sete de Setembro. Não precisamos chegar a tanto. Nesta época, a eleição em turno único era em novembro e não existia o frenesi das redes sociais e da internet. A última pesquisa Genial/Quaest mostrou que 62% dos eleitores, coisa de 96 milhões de brasileiros, não têm ainda candidato à presidente. O que importa agora são questões qualitativas sobre o que está movendo a vida e a opinião das pessoas. O grau de conhecimento não é homogêneo, o debate ainda não começou e o voto induzido é cheio de artificialidade. Melhor seguir o mestre Didi: “treino é treino, jogo é jogo”. A história das eleições é pródiga em provar uma coisa óbvia: campanha é feita para mudar realidades pré-estabelecidas supostamente imutáveis. Nos meus 44 anos de militância assisti muitas viradas espetaculares e vitórias improváveis.

Collor era um ilustre governador alagoano desconhecido, pegou a onda certa da opinião pública, atropelou toda a elite política brasileira, de A a Z, e venceu. Eduardo Azeredo, em 1994, fez uma virada sensacional em cima de Hélio Costa, dado como virtual governador pelos analistas. Em 2008, participei de duas vitórias improváveis. Márcio Lacerda era empresário desconhecido, começou com 3%. Com uma semana de TV, foi a 41% e se tornou prefeito de BH, porque estava sintonizado com o sentimento das pessoas e tinha os apoios certos. Já Custódio Mattos chegou em segundo lugar no primeiro turno com 27% dos votos, em Juiz de Fora, contra os 41% de votos da candidata do PT, Margarida Salomão. Tornou-se prefeito da cidade ganhando de 45% a 42% dos votos totais. Romeu Zema entrou no debate da GLOBO, na terça-feira à noite, desconhecido e com apenas 5% das intenções de voto, havia 35% de indecisos e o ambiente disruptivo antissistema, típico de 2018. Em apenas 5 dias alcançou 41%. Depois, venceu o segundo turno, ainda sem ser conhecido.

Casos como esses existem às centenas. Tudo pode acontecer, inclusive nada. As polarizações iniciais podem se confirmar. Mas antes de cravar um prognóstico, melhor pensar: “devagar com o andor, que o santo é de barro” e “paciência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém”.     

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