segunda-feira, 13 de abril de 2026

Política econômica baseada no voto, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Medidas contra inadimplência abrem temporada de estímulos governamentais em ano eleitoral

Em abril a Quaest foi a campo e questionou a eleitores de todo o Brasil sobre suas percepções sobre o estado da economia brasileira. 62% responderam que ela havia piorado no último ano, sendo que 59% sentiam que sua capacidade de pagar as contas tinha diminuído nos três meses anteriores. A inflação se mostrava como o grande vilão: 98% identificavam que os produtos estavam mais caros, e para 24% a culpa pelo aumento de preços dos combustíveis era do presidente: Jair Bolsonaro.

Sim, estou me referindo à pesquisa Genial/Quaest de abril de 2022, faltando seis meses para as eleições daquele ano. Naquele momento, o governo Bolsonaro enfrentava uma avaliação negativa de 47%, contra 26% que viam sua gestão como positiva e outros 25% que a consideravam regular.

Como resultado, as perspectivas de reeleição pareciam baixas: no cenário mais provável de segundo turno, Lula aparecia com 55% das intenções de voto, contra apenas 34% do então presidente Bolsonaro.

Naquele momento Jair Bolsonaro já começava a colher os frutos das políticas econômicas adotadas a toque de caixa para reverter seu mau desempenho nas pesquisas. Em dezembro de 2021, seu governo havia subido o valor do Auxílio Brasil, o rebatizado sucessor do programa Bolsa Família, de uma média de R$ 190 para R$ 400 por grupo familiar. Essa medida havia feito a avaliação positiva de Jair Bolsonaro subir de 16 para 24 pontos percentuais entre os beneficiários do programa, segundo a mesma pesquisa Quaest.

Essa foi apenas uma das muitas armas que Bolsonaro utilizou para aumentar as suas chances de reeleição. Depois disso ele ainda elevou o valor do Auxílio Brasil para R$ 600 mensais - acompanhado da expansão do número de famílias atendidas - concedeu benefícios para caminhoneiros e taxistas, ampliou o valor do auxílio-gás e promoveu uma desoneração tributária para conter a alta dos preços dos combustíveis provocada pela guerra na Ucrânia. Houve ainda a liberação de saques extraordinários do FGTS e a antecipação do pagamento do 13º salário para aposentados e pensionistas do INSS. Medida controversa à época, o governo Bolsonaro também autorizou operações de crédito consignado para quem tinha direito ao Auxílio Brasil.

Ao final, com sua campanha turbinada pelo clima de polarização e por essa avalanche de recursos públicos despejada na economia, Jair Bolsonaro cresceu nas pesquisas e por muito pouco não conseguiu se reeleger.

Quatro anos depois, o governo Lula enfrenta dificuldades parecidas. Na última pesquisa Quaest, que foi a campo entre 6 e 9 de março de 2026, a avaliação negativa de Lula era de 43%, contra 31% positiva e 25% regular. Na economia, 48% dos entrevistados consideravam que a situação piorou e 64% acreditavam que seu poder de compra ficou menor nos últimos 12 meses. É bom destacar, porém, que esse levantamento ainda não capta os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre os preços dos combustíveis.

Da mesma forma que Bolsonaro quatro anos antes, Lula já colhe os frutos de estímulos concedidos por seu governo: 31% dos entrevistados admitem ter sentido no bolso os efeitos da isenção de imposto de renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês.

É bom destacar, porém, que Lula parte de uma situação economicamente muito mais favorável do que a de Bolsonaro. Analisando três das principais variáveis que sintetizam o bem-estar financeiro da população, Lula se dá muito melhor em todas elas quando se confronta o mesmo momento quatro anos antes.

O desemprego hoje está em 5,8% (contra 11,2% no mesmo período no último ano do mandato bolsonarista), o rendimento médio da população é de R$ 3.679 (versus R$ 3.027, já descontada a inflação) e os preços subiram 4,14% nos últimos doze meses (comparado com uma alta de 11,3% em março de 2022).

Ainda assim, Lula aparecia empatado com Flávio Bolsonaro (PL) na pesquisa Quaest de março, ambos com 41% das intenções de voto. Na sondagem do Datafolha publicada no final de semana, Lula aparece tecnicamente empatado não apenas com o filho de seu arquirrival (45%-46%), mas também com aspirantes da direita que não carregam o sobrenome do ex-presidente - os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), ambos apenas três pontos percentuais atrás de Lula, mas dentro da margem de erro da pesquisa.

A seis meses da eleição, o governo Lula atribui à elevada inadimplência uma das explicações para o paradoxo de apresentar uma avaliação ruim nas pesquisas mesmo com desemprego e inflação em baixa e renda no patamar máximo desde 2012. De fato, dados do Serasa Experian apontam que 81,7 milhões de CPFs estavam negativados em fevereiro, com um valor médio de dívida em atraso de praticamente R$ 6,6 mil.

Em entrevista à Folha, o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou que os trabalhadores com renda até cinco salários-mínimos poderão sacar até 20% do seu saldo no FGTS para quitar dívidas. Trata-se de apenas uma das medidas de um amplo programa de renegociação capitaneado pelo governo federal.

Já vimos esse filme em 2022.

 

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