segunda-feira, 13 de abril de 2026

Hungria e limites da interferência de Trump, por Assis Moreira

Valor Econômico

A derrota de Viktor Orbán no domingo vira revés também para Donald Trump e Vladimir Putin

A Esplanada dos Ministérios, em Brasília, acompanhou com particular atenção a eleição na Hungria, vista como um teste para avaliar a real capacidade de ingerência de Donald Trump em eleições nacionais.

O resultado foi uma vitória sólida do oposicionista Péter Magyar, com maioria parlamentar confortável para ajudá-lo a reconstruir instituições democráticas desmontadas ao longo de 16 anos de poder “iliberal” sob Viktor Orbán.

Na Hungria, a ingerência direta de Trump — sobretudo nos últimos dias da campanha — não teve, portanto, influência decisiva sobre o resultado eleitoral. A derrota é compartilhada por Trump e pelo russo Vladimir Putin, outro que jogou pesado a favor de Orbán.

Se isso trará grande alívio a outros governos que não estão exatamente alinhados com a administração trumpista é outra história. Trump parece pouco preocupado com limites para mobilizar seu poder com o objetivo de influenciar disputas no exterior.

O próximo teste sobre a interferência direta de Trump será a eleição na Colômbia, em maio, na qual concorre um candidato de esquerda apoiado pelo presidente Gustavo Petro, chamado de “lunático” por membros do trumpismo — em um contexto de atualização da Doutrina Monroe, invocada por Washington para justificar ingerências na América Latina.

O fato é que os Estados Unidos nunca interferiram de forma tão aberta e virulenta em eleições no exterior como agora, sob Donald Trump.

O presidente americano fez ingerência clara nas eleições de meio de mandato de 2025 na Argentina, a favor de Javier Milei, e também em Honduras, prometendo usar seu “poderio econômico” para ajudar seus candidatos favoritos — que acabaram vencedores.

Na Europa, a primeira vitória eleitoral associada a Trump ocorreu na Polônia, em julho do ano passado. Ele enviou a então secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, para exortar os poloneses a votarem no nacionalista Karol Nawrocki para a presidência, sinalizando que o futuro da presença militar americana no país poderia depender do resultado da eleição. Nawrocki, fortemente apoiado pelo movimento Maga, venceu.

Já o apoio de Trump aos conservadores nas eleições no Canadá e na Austrália resultou em fracasso, e analistas avaliam que pode ter contribuído para a derrota desses candidatos.

Mas o maior teste até agora da ingerência direta de Trump e de seu movimento Maga no exterior era esperado no domingo, na Hungria — país de 9,5 milhões de habitantes que se tornou um campo de batalha da guerra ideológica global.

Dessa vez, a Casa Branca enviou inclusive o vice-presidente JD Vance para participar de comício com Viktor Orbán, prometendo apoio total a esse ícone da luta ideológica contra a corrente liberal na Europa.

Depois de destacar o ‘’amor’’ de Trump por Orbán, Vance afirmou que os EUA e Orbán estavam unidos por uma “cooperação moral” na “defesa da civilização ocidental”. Além de sua política migratória super-restritiva, ele elogiou a “política familiar” e a “política energética” do líder húngaro.

Nada disso impediu Orbán de sofrer uma derrota expressiva para um adversário que, há apenas dois anos, era pouco conhecido. As promessas americanas, e também dos russos, não conseguiram convencer uma maioria de húngaros irritados com a forte inflação e com as persistentes acusações de corrupção no uso de fundos públicos por membros da família de Orbán.

Vladimir Putin também fez de tudo para favorecer Orbán, principal defensor dos interesses russos dentro da União Europeia. A interferência russa na campanha foi significativa, segundo diversos relatos. A perda para o regime de Putin é evidente. O governo húngaro chegou a ser acusado de repassar aos russos informações sobre tudo o que se passava nas reuniões da UE.

A derrota de Orbán deve representar uma mudança relevante para a União Europeia. Os vetos do líder húngaro no Conselho Europeu irritavam profundamente outros governos, boicotado, por exemplo, a aprovação de um pacote de US$ 105 bilhões para a Ucrânia e novas sanções contra a Rússia. Bruxelas reteve bilhões de euros destinados à Hungria devido ao retrocesso democrático e à postura cada vez mais pró-Rússia de seu governo.

Ninguém ignora como Trump usa seu poder — e ele próprio costuma dizer que pode fazer o que quiser. Mas, mesmo entre aliados tradicionais, ele começa a ser visto como um ativo tóxico, diante de sua rejeição por boa parte da opinião pública.

A chefe de governo italiana, Giorgia Meloni, por exemplo, continua tentando impor uma nova hegemonia cultural da direita e investe em guerras culturais, à semelhança de Trump. Mas busca marcar diferenças em relação ao líder americano após o tarifaço e diante da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, ciente de que enfrentará uma eleição difícil no ano que vem.

 

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