segunda-feira, 20 de abril de 2026

Por que Lula deve renunciar à candidatura, por Miguel de Almeida

O Globo

É questão de coerência. Em 2022, ele prometeu, caso eleito, não buscar outro mandato

Lula deve renunciar à intenção de ser candidato. Pelo bem do Brasil e de sua biografia. É questão de coerência. Em 2022, ele prometeu, caso eleito, não buscar outro mandato — seria o quarto. Foi quase uma troca: votem em mim pela última vez. Quem jamais o engoliu, a ele e ao PT, aceitou a permuta. Os eleitores independentes o ajudaram a despachar Jair Bolsonaro. Se, em 2018, a quantidade de votos brancos e nulos foi o equivalente a 8,8% do eleitorado no primeiro turno, em 2022, ano do escambo, mal chegou aos 4,4%, algo como 5,4 milhões de votos. Mas a abstenção superou os 20%. Lula ganhou com a diferença de míseros 2,1 milhões de votos — diferença perto de 1%. E prometeu em sua primeira manifestação:

— A partir de 1° de janeiro de 2023, vou governar para 215 milhões de brasileiros e brasileiras, e não para só aqueles que votaram em mim — afirmou.

No passo seguinte, esqueceu suas palavras mandando às favas a frente democrática que o levara à vitória. O povo não esquece. Ao longo do mandato Lula 3, ele jamais gozou de aprovação muito otimista; na pesquisa Quaest da semana passada, 52% dos brasileiros torciam o nariz para sua gestão.

Mesmo criando uma bolsa a cada crise de popularidade, o truque não funcionou. Não à toa, Flávio Bolsonaro está numericamente à frente dele no segundo turno. O problema é o desgaste do modelo de gestão. O retrato de sua incompreensão ao novo Brasil ficou demonstrado dias atrás na manifestação de motoboys e motoristas por aplicativos contrários às propostas de regulamentação da categoria. Alguns milhares de trabalhadores pararam ruas paulistanas em protesto ao modo como o governo pretende editar legislação específica.

E não é de agora. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, ameaça a categoria desde o início do governo com uma legislação considerada obsoleta — chegou a falar em sindicalização dos trabalhadores. Marinho opera na mentalidade getulista (estrutura herdada de Mussolini) de aparelhamento de setores da sociedade. Na gênese do PT, está o movimento sindical da década de 1970.

Os constantes e minguados índices de aprovação ao governo — hoje em 43% — significam fastio da população com Lula e seu jeito de governar, que embute um recado a quem deixou o segundo mandato com cerca de 80% de ótimo/bom: o apoio se limitava à eleição de 2022 diante da ameaça de golpe representada por Bolsonaro. Os números podem ser lidos ainda como lembrança à promessa de um governo de frente ampla, que ficou na saudade, e à falta de êxitos na administração. Em dois exemplos: as fraudes milionárias no INSS sobre os aposentados e pensionistas e a fila no mesmo INSS (em março eram 2,8 milhões de brasileiros à espera de atendimento).

Caso renuncie, Lula já tem lugar na História brasileira. Foi o único a vencer três eleições nas urnas. Conseguiu eleger e reeleger Dilma Rousseff, embora carregue com ela uma das piores recessões econômicas do Brasil democrático (a da pandemia, sob Bolsonaro, foi excepcional). Teve ousadia em aprofundar a ideia tucana de bolsas sociais, mesmo que construídas sob iluminação populista e não estrutural, como desenharam anteriormente Vilmar Faria e Dona Ruth Cardoso nos anos de FH. Seus dois primeiros mandatos se beneficiaram de ventos favoráveis trazidos pelas commodities. E, no atual governo, exibe números positivos na queda do desemprego e na inflação (obrigado, Galípolo), apesar do escandaloso aumento da carga tributária — até o momento em que escrevo, de 32,4%. Renunciando agora, Lula deixa o Brasil com o maior volume de impostos da América Latina. PT!

Com sua afamada biografia — sempre saudada pelo próprio —, Lula deveria retribuir ao país os ganhos obtidos em sua trajetória. Não pode ser ingrato com o povo que o elegeu por três mandatos. Erros seus e de seu partido, em mais de 14 anos no poder, resultaram na vitória de Bolsonaro em 2018 e no surgimento de uma direita radical e raivosa. Seu compromisso deveria ser não entregar o Brasil novamente à conflituosa família Bolsonaro. Em seu partido existem nomes capazes de lhe suceder. São pessoas jovens e mais modernas, não tão afeitas ao ideário petista de desenvolvimento, obsoleto como o fio do telefone.

Mantendo-se aferrado à disputa, ele deveria ter em mente o que ocorreu com o grande Winston Churchill. Depois de comandar o Reino Unido na vitória contra os nazistas, viu-se mandado para casa na primeira eleição depois do final da Segunda Guerra. Os britânicos reconheciam seu valor, mas queriam renovação após tantos anos.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.